Do silêncio
Até há pouco tempo eu desconhecia um tipo de silêncio que julgo ser menos comum. Não sei que nome lhe poderei dar, nem consigo descrevê-lo com exactidão. Será um silêncio que cura?
Exteriormente, o som ou a sua ausência, é muito semelhante àquele quebrar da chávena branca que ontem deixei cair nos ladrilhos da minha sala. Mas pelo interior, não existe a sensação de dor, de perda, como aconteceu em relação à porcelana.
Há cerca de duas semanas dei comigo a pensar no assunto e a sentir algo de bom dentro de mim, apesar do episódio que o desencadeou ter ocorrido há precisamente trezentos e sessenta e um dias.
Os minutos, poucos, entre capotar um carro e a chegada de socorro, recordo-os como sendo de uma grande felicidade. Depois das três voltas, de tanto ruído de equipamento a desintegrar-se pedaço a pedaço, sem espaço para me mover e involuntariamente a fazer o pino, senti que aquele silêncio funcionava como um ponto de ordem em mim. Uma sensação que consegui experimentar outras vezes, embora de modo menos impactante. Que eu tenha consciência não houve regozijo por constatar que fintei a morte - nunca se finta a morte; apenas ilusão - até porque eu não sabia se existiam sequelas graves. Diria que é uma espécie de bem-estar que se arrepia com o movimento em redor, que rejeita as vozes, que não quer abraços com braços, nem sorrisos, mesmo que ternos. Um intervalo que apenas suporta um olhar que não seja invasivo e aceite deitar-se no colo enrugado da alma.
Antes de me aparecer este novo personagem a desafiar os meus neurónios e a querer brincar com o meu coração, eu só navegava em mares com ondas vulgares de silêncio, numa dicotomia excessivamente primária entre o bom e o mau das horas caladas.
Dizia que o mau silêncio era sempre vazio. Quer fosse abafado pelo desprezo e pela indiferença, quer fosse acicatado pela violência.
Dizia que o bom silêncio era sempre cheio. Mesmo que preenchido de um nada. Mas um nada não corrosivo, apenas de descanso e contemplação. O silêncio bom também é feito do fogo do nosso olhar cúmplice, tem o desenho mudo das gargalhadas das crianças, sabe aos corpos suados das nossas tardes de amor, desfaz-se bem dos sons do trabalho e tem a dor dos que amamos.
O meu novo silêncio, aquele que recentemente tomei consciência de também sentir, apesar de me bafejar de aconchego, tem fios perturbadores. Uma perturbação aparentemente inócua. Aparentemente, é o que penso neste momento. Como se fosse uma película inquietante que se assemelha a um friso de barquinhos à vela, muito frescos e envolventes, mas sem definição de rumo.

Silence, 2015 | Cristiano Mascaro