Lista de Poemas

Intermezzo

Habituei-me a aprender muito contigo, com os teus intervalos de palavras.
Disciplinei-me para compreender os teus silêncios confortáveis, que me fazem entender o quanto os meus silêncios são precisos e preciosos para balizar o meu caos de perturbações. Também de inquietações.
A música é o que de mais aproximado me ocorre, pela combinação de sons e silêncios, organizados em sequências harmoniosas de tempo.
Aqui também é assim: se não me provocasses a interrupção do ruído das letras, o intervalo do barulho de umas letras a chocar contra as outras, eu não descobria tão bem as palavras que ergues com outros sentidos e por isso pertencem a outra ordem gráfica. Por um qualquer efeito de potencial osmótico, mas que eu sei encontrar-se numa dimensão mágica, acirras-me a vontade.
E eu volto, volto sempre.
A cumprir o desejo.
A erguer-me gente, a construir-te em história e a fingir que sei contá-la.

Pelos teus silêncios
também me levas e ganhas
e comoves.

Deslizou suavemente nas águas calmas, indiferente ao rasto que deixava, ele sabia que era a estrela daquela passerelle onde o silêncio se ouvia e sem aplausos continuou tranquilamente, como se o mundo lhe pertencesse por inteiro. | Manu Pereira, in Existe um Olhar
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da falta de vocabulário

ando à procura do nome daquela película com que entremeias o triste dos meus dias e me proteges,
uma película que é como uma respiração que me agita os poros para saberem que têm vida e a seguir os faz sossegar,
uma película que é como um sopro lançado aos olhos e os faz sorrir,
feita de instante de beijo embrulhado em eternidade.

The anatomy lessons | Laura Makabresku
997

convento

escolheste a quase metade que tem mais sol e deixei-me ir.
ainda bem!
mais fácil encontrar o fio bom que liga o sorriso acanhado ao lado inteiro do bem.
e que bem o vi!
apesar das abóbadas em sequência imensa de cachos de ninhos.
os arcos são pedaços de abraços.
contámo-los antes de descansar.


Kollerová via a girl who tried to disappear
704

e os esquilos?

a manhã pespontada a pensamentos que se estendem como braços para ti.
as palavras e as contas do poeta a lembrarem os desalinhos infantis
de uma brincadeira traçada a jogo de adivinhas no teu lindo lençol de seda negra
e deslindada em folhas brancas.
deslindada em lindas folhas brancas!
tuas e minhas.
um desfecho amparado em sorrisos tem sempre começo dentro.

no tempo pespontado a pensamentos que se estendem como braços para ti
sei melhor que o longe de ti é geografia pura,
em que a porção de acidentes físicos não é relevante para hierarquizar o difícil.

há longe e há distância, sim.
já te tinha dito que o richard bach não sabia tudo
e que era preciso inventar um novo mundo.


Dominique Issermann






516

Fulgido

Vi o abraço assomar nos teus olhos bons
na exacta cadência em que a humidade batia no cristal.
Brilhante!
Bebemo-nos assim
a fingir que fintáramos o amargo.
Cristalino!

E era o quente e o medo do frio a baterem-se
taco-a-taco.
E era a estrada de palavras macias para eu te dizer
não vais cair.
E era a zanga dos céus para tu me dizeres
mas o sol vai vir.
E era a brisa morna do vento a lamber-nos...


Mario Cattaneo

645

Da sobrevivência

Há dias que
por cima do tecto têm
uma neblina suave e morna
que impede a fixação das angústias.

Esses dias
em que me julgam
a importar-me menos com o mundo
e a importar-me mais comigo
fazem falta.

Também se cresce na penumbra.
Mais, às vezes.


Victor Palla
647

Degusto-te

Provei o amargo.
Após muitos rectângulos de palavras entre as duas janelas.
Não sei como aconteceu.
Apenas não sei a parte do momento exacto do amargo chegar, porque da sua confecção já me alertaras para a possibilidade de estar a tratar dela a preceito.

Ao provar, descobri que o amargo não tem sempre a mesma cadência e anda a diferentes velocidades.
Soube disso quando o meu amargo se levantou cansado e atirou comigo para o campo árido da prostração.
Até me pareceu que o ácido do amargo com raiva, que eu não sinto, mas que calculo ser agitado e sempre a abrir, causa menos estragos. Solta-se melhor, é isso.

O amargo sabe mal, mas não é necessariamente mau.
Digo eu.
Disseste-me tu.
'O amor é uma loucura sensata, um fel que sufoca, uma doçura que conserva', diz o poeta.
'Sabe amargo el licor de las cosas queridas', diz a canção.

O doce e o amargo aprenderam a jogar taco-a-taco.
Só chamamos por um ou por outro perante a fragilidade do adversário.

Gosto-te no (des)equilíbrio discreto e inquietante entre os sabores.
Ensinaste-me.
Sei que aprendi.
Percebo-me nunca habituada.


Katia Chausheva

665

Querer

À conta do intervalo estudado entre as palavras, aprendemos a conter a vertigem.
Repetir para aprender. Repetir para não esquecer.

O traçado da zona em que se aloja a intersecção do lastro da tristeza
com o leve da cortina de sorrisos que varre os dias.
Ficar assim.
A tocar nas estrelas que desenhámos a brilho dos olhos.
Sem pronunciar as palavras que dissemos antes.

Voltámos a pegar em tudo,
no nós imenso,
e guardámos na caixinha dos segredos.


Mário Cabrita Gil
601

brisa

aquela fatia de sol que guardaste todo o dia
até se transformar em folhas de vento
veio à noite
abanar os fiapos do meu medo-paralisia
que aos poucos se transformou no medo da fuga para a frente.
ama-se
(também, sobretudo, mais, menos, muito... o que for)
pelo todo percepcionado no detalhe.

medo há sempre.
mesmo quando não usa o vermelho sangue ou o negro.
o medo até se veste mais de cor-carne
para se passear por aí.



Billy Kidd
722

fromia elegans

a vontade que estejas, que voltes e que não vás sem regresso
também me serve para querer ser melhor

como se fosse(s) uma droga
que dá força para erguer
e até correr
e que trava e acalma
até morder um ponto
e entrares no mar

há estrelas assim
maculadas nas profundidades
a vermelho
como o sangue
nas veias e sobre a pele
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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...