Esplendor
era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação.
havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. a ressurreição precisa de uma morte antes, não é? ainda é cedo.
havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. era assim no laboratório ao lado. a sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado.
era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.

Cristina Faleroni
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