João em Sevilha
Dias de cão quem não os teve, quem
não os viveu na conta da língua ?
quem não os absorveu dolorosa míngua ?
Dias de negativas, de más assertivas
quem não engoliu saparia, noite e dia ?
Somos o que à mesa pomos: a sopa
ou o amargo das sementes de mamão.
Pelo caminho há sempre alguma onda
de espanto, mas de vez em quando
os ombros sentem as mãos do encanto
e assim a apostasia e os cálculos renais
dissolvem-se sem menos e sem mais
nos dias e noites de um pão que a vida fatia.
Ó, quem não percebeu em si estes rituais,
chame-se Laura, Rafael, João ou Maria ?
*
NOTA: Poema escrito sob a lembrança, a admiração,
ou seja lá o que for, dos anos em que o diplomata
João Cabral de Melo Neto trabalhou na cidade de
Sevilha - cidade pela qual tomou grande afeição.
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