Lembrança do Fundo da Manga/MG
Já é final de tarde. A noite com sua sutileza poética embebedou o sol fazendo-o dormir por detrás das montanhas. Em nossa casa, entre conversas paralelas são as gargalhadas que revelam segredos desnudados ao pé do ouvido. Os trovões ao longe, o bater de portas, o vento que assovia e a procura pelos cães de um lugar seguro anuncia a chegada da chuva. São as telhas de barro batido as primeiras a receberem os pingos que bem mansamente irão retirar o pó da terra exalando seu cheiro molhado.
Minha mãe, com seus olhos tristes, mãos compridas, pele rosada e cabelos negros como a noite, ao passo que contempla pela janela a chuva, assopra o fogo desfazendo as intenções insistentes do vento. A chaleira ainda contém água fervente e o café há pouco passado invade os quatro cômodos da casa com seu aroma inconfundível. A gata malhada com os olhos entreabertos encosta-se ao pé da mesa a espera da sua ninhada que brinca por perto.
O puxar da cadeira arrastada era e é característico de meu pai. Sua pouca idade já revelava sua calvície que não tardaria a chegar, sua pele avermelhada e seu bigode ralo contrastava com sua barba por fazer. Suas mãos calejadas pelo labor da roça e sua camisa puída aberta até a altura do peito combinava com o ar bucólico do interior. Sobre a mesa o chapéu e o canivete que às vezes servia para limpar as unhas. As botas encostadas na porta recebia os pingos de uma goteira preguiçosa.
O olhar pidão dos meninos em meio a tantas risadas era por biscoito de queijo que se encontrava na dispensa. As calças curtas, os pés sujos e o tom amarelado nas bocas deixado pelas mangas revelavam lembranças já esmaecidas.
Ao fundo da casa, o ribeirão Riacho Fundo encorpado devido à chuva arrastava galhos secos e árvores já mortas pelo tempo. Renovava sua água cristalina matizando com os barrancos outras tonalidades de cores. Sua força era tanta que o medo impedia uma aproximação mais íntima. Passado alguns dias, a humildade do mesmo era percebida na mansidão com que corria rumo ao mar. Em época de calmaria, era possível ouvir o cantarolar de mulheres sovando roupas em suas pedras.
Os Mangues, o Fundo da Manga e o ribeirão Riacho Fundo revelam o amor de meu pai, de minha mãe e porque não dizer, o meu. Riacho fundo, me leve aonde for. Em seus braços, serei só canção. Enfim, represo em meus olhos, os segredos do amor. Que deságuo em teu leito, para o fundo do mar.
Minha mãe, com seus olhos tristes, mãos compridas, pele rosada e cabelos negros como a noite, ao passo que contempla pela janela a chuva, assopra o fogo desfazendo as intenções insistentes do vento. A chaleira ainda contém água fervente e o café há pouco passado invade os quatro cômodos da casa com seu aroma inconfundível. A gata malhada com os olhos entreabertos encosta-se ao pé da mesa a espera da sua ninhada que brinca por perto.
O puxar da cadeira arrastada era e é característico de meu pai. Sua pouca idade já revelava sua calvície que não tardaria a chegar, sua pele avermelhada e seu bigode ralo contrastava com sua barba por fazer. Suas mãos calejadas pelo labor da roça e sua camisa puída aberta até a altura do peito combinava com o ar bucólico do interior. Sobre a mesa o chapéu e o canivete que às vezes servia para limpar as unhas. As botas encostadas na porta recebia os pingos de uma goteira preguiçosa.
O olhar pidão dos meninos em meio a tantas risadas era por biscoito de queijo que se encontrava na dispensa. As calças curtas, os pés sujos e o tom amarelado nas bocas deixado pelas mangas revelavam lembranças já esmaecidas.
Ao fundo da casa, o ribeirão Riacho Fundo encorpado devido à chuva arrastava galhos secos e árvores já mortas pelo tempo. Renovava sua água cristalina matizando com os barrancos outras tonalidades de cores. Sua força era tanta que o medo impedia uma aproximação mais íntima. Passado alguns dias, a humildade do mesmo era percebida na mansidão com que corria rumo ao mar. Em época de calmaria, era possível ouvir o cantarolar de mulheres sovando roupas em suas pedras.
Os Mangues, o Fundo da Manga e o ribeirão Riacho Fundo revelam o amor de meu pai, de minha mãe e porque não dizer, o meu. Riacho fundo, me leve aonde for. Em seus braços, serei só canção. Enfim, represo em meus olhos, os segredos do amor. Que deságuo em teu leito, para o fundo do mar.
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