Crônica: Serei eu que estou a Sonhar baseado em: Um Club da Má-Língua de Dostoiévski
Crônica: "Serei eu que estou a sonhar?" - Baseado em: Um Club da Má-Língua de Dostoiévski.
Por vezes somos bombardeados com informações, afirmações e certezas que ficamos em dúvida até do que nós somos ou o que estamos fazendo aqui.
Entretanto, ao pararmos para refletir, observamos pessoas agindo por impulso, provocado pelo impulso de outra pessoa, que por sua vez, reage ao estímulo de outra e assim sucessivamente, como que em efeito dominó, envolvendo pessoas boas, sim, mas muitas vezes pessoas hostis e ardilosas, as quais chamamos de "más influências", aquelas que nos são bem conhecidas, e que só servem para agravar os sofrimentos da vida...
Por vezes somos bombardeados com informações, afirmações e certezas que ficamos em dúvida até do que nós somos ou o que estamos fazendo aqui.
Entretanto, ao pararmos para refletir, observamos pessoas agindo por impulso, provocado pelo impulso de outra pessoa, que por sua vez, reage ao estímulo de outra e assim sucessivamente, como que em efeito dominó, envolvendo pessoas boas, sim, mas muitas vezes pessoas hostis e ardilosas, as quais chamamos de "más influências", aquelas que nos são bem conhecidas, e que só servem para agravar os sofrimentos da vida...
Essa observação me remeteu ao livro: Um Club da Má-Língua - O Sonho do Príncipe Gavrila - do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). O enredo deste livro gira em torno de Maria Alexandrovna, uma mulher de suma importância na sociedade de Mordassov, mas era ardilosa e interesseira.
Maria Alexandrovna queria casar a filha, Zinaida, de 23 anos, com um príncipe, já bem avançado em idade e muito vacilante. Maria Alexandrovna convence o príncipe que um casamento a esta altura da vida lhe daria mais saúde, vigor, alegria de viver etc.
O príncipe convencido que isso seria, de fato, deliciosamente bom, prometeu casamento.
Entretanto, no dia seguinte, o ex-pretendente de Zinaida, convenceu o príncipe de que ele havia sonhado com esse pedido de casamento, que aquilo era impossível etc.
Passado essa conversa, o príncipe, determinado a afirmar a todo custo que tudo não passara de um sonho, ele apresentou-se à sala da casa de Maria Alexandrova.
O aposento já estava repleto de visitas, o ego vaidoso e ambicioso de Maria já não cabia dentro dela. No decorrer do longo bate papo que se entendeu, e para espanto da anfitriã, o príncipe acabara por se adiantar e dizer que tivera um sonho delicioso, em que pedia a mão de Zinaida em casamento, diante dessa afirmação, Alexandrovna, pálida, ficou sem chão, mas se manteve de pé, e foi aquele pega pra capar; de um lado, o velho príncipe dizendo que foi sonho, por outro lado, Maria Alexandrovna não media esforços para provar que não era sonho, e contava detalhes que, sendo sonho, ela não poderia saber, mas o príncipe se manteve irredutível.
Foi sonho, não foi sonho, foi sonho, não foi sonho, por fim, Maria Alexandrovna já atordoada, questiona:
"- Serei eu que estou a sonhar? Fale, príncipe... Estarei a dormir, porventura?"
Foi sonho, não foi sonho, foi sonho, não foi sonho, por fim, Maria Alexandrovna já atordoada, questiona:
"- Serei eu que estou a sonhar? Fale, príncipe... Estarei a dormir, porventura?"
Para nós leitores essa é uma pergunta capciosa, porque ela sonhara casar a filha com o príncipe e obter todas as regalias advindas com este rentável casório, mas o príncipe, por sua vez, sonhara em desfazer o arranjo. Por ocasião do fim da leitura é possível concluir que ambos sonharam, acordados, é verdade, mas ambos sonharam... O sonho do desejo, da vontade. O príncipe, irredutível, tornara o casório impossível, para alívio de Zinaida, que casaria contra a sua vontade e o sonho dela se realizava...
Maria Alexandrovna arrumara outros rumos para a vida, depois do escândalo, pôs a casa à venda e se mudou para Moscou...
Ocorre-nos que, na vida real, nossos atos impensados não podem ser desfeitos por sonhos que fingimos ter. Não adianta fingir que nada aconteceu, por isso precisamos usar do bom senso e da coragem, seja para agir, seja para pedir perdão. Quantas vezes agimos por impulso, em diversas situações, seja uma resposta malcriada, uma compra não planejada ou outra atitude meio desvairada, que na hora nem parece ser das piores ideias ou atitudes, mas depois ficamos atordoados nos perguntando: - como fui fazer isso? Jamais imaginei ser capaz de cometer tamanha burrada!?...
Pois é minha gente, a leitura é uma vacina contra os maus impulsos e um estimulante aos bons impulsos, porque a leitura lapida a nossa paciência, fortalece a nossa personalidade, reforça os nossos valores, promove o autoconhecimento e gradativamente vamos nos tornando pessoas melhores e mais sensatas.
Publicado em: http://folhavalle.com/serei-eu-que-estou-sonhar/