Poema do Baile (Milagre de Nossa Senhora da Muxima)
Te pedi um beijo
disseste não e partiste
xinguilando com tuas amigas
lá no fundo do salão.
Fiquei triste.
Muito triste mesmo.
Me deu vontade de zunir
perder na noite
me afogar nas águas da kianda.
Mas,
quando o disco do senhor Braguêz
tocou aquela música
o meu olhar encontrou o teu olhar
e, sem te pedir
vieste com tua mão segurar minha mão
e me puxar no meio salão.
Rodopiamos loucamente embevecidos
Nossos corpos se apertaram
corpo no corpo
Nossos olhos
Se olhavam olhos nos olhos
Teus seios duros maboque
transmitiam um calor
que não era o calor da noite.
Na tua boca
sorriso maroto
A minha boca calada
te querendo dizer palavra bonita.
Mas palavra não saía.
e, da minha cabeça zunia uma prece
para Nossa Senhora da Muxima
Ah! Nossa Senhora da Muxima,
por favor, me acode
por favor me ajuda!
E, no meio do salão
nossos corpos cada vez mais aconchegados
nossos braços nos apertando, cada vez mais forte
nossos corações cada vez mais apressados
batendo que nem compasso de rumba.
nossos lábios cada vez mais perto
E num repente,
te roubei aquele beijo primeiro.
Paramos no meio do salão
e na nossa volta já nada existia
parecia: o mundo parou!
AH louca loucura!
Afinal me tinhas mentido naquela hora
quando disseste não!
Mas Nossa Senhora da Muxima
ouviu meu coração
e te obrigou a falar
a verdade do teu coração!
Manuel C. Amor
Luanda, 1969,
Menção honrosa nos Jogos Florais
das festas de Nossa Senhora da Muxima
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