PROMESSA



Um destes dias súbitos

Voltarei a cravar-te os incisivos,

A rasgar-te o peito ansioso,

E no alvorecer do coração

Preferirei dar a lamber-te

As primeiras feridas circunstanciais.

Da inveja de quem se mantém por morder

Nascerá o sentimento de culpa

Pelas noites de abandono.

Ao sacrificar-te no altar do meu corpo

Ainda não sou eu quem pertence

À fotografia em que não me convocas.

 

No completar de cada respiração

Guardo memória dos desertores:

Saltar de pedra em pedra para transpor

O rio do esquecimento é usurpar a culpa

Do inverno dos sobreviventes!

De olhos vendados visito o fim

Do mundo. E se de pé tenho o hábito

De fugir pelos crimes imputáveis

Não confessarei as ordinárias cinzas

Às raízes que me aprofundam.

De todas as formas o meu coração

Pertence à tua colecção de triângulos.

As larvas que se apoderarem do corpo,

Em letárgico estado de decomposição,

Explicarão a necessidade voraz

De justificar a minha longa espera.

Se me queres moribundo

Aguarda pela próxima vez

Em que eu seja profundo

Na forma de ignorar o mundo.

 

Após desfalecer e ressuscitar

No teu ventre, na congeminação do vómito,

Regurgitar-te-ei como quem confia

Que voltará para possuir-te na tua fome.


Certificado de Garantia, 2019
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