À FLOR DA PELE
Ainda que peça perdão à pele adormecida Admito a culpa premeditada da saudade. Quando as mãos chegam a vias de facto Perspetivo estrangular as palavras evisceradas, Mas o renovar da aurora ardente das estrelas, Ampara as mãos que se deixam abandonar. Acaricio os olhos teimosamente circunspectos, E nas fotografias onde permaneces viva Regurgito a carne que não me permitiu morrer à fome. Por afecto aos lábios ainda murmuro os nomes-próprios Que a memória tardia diz não humedecer. O caminho refaz-se em sentido oposto à foz. De contornos rígidos perco-te na profundidade. Convenço-me da minha viuvez precoce Ao sacudir os pés enterrados na mesma areia Que nos media o tempo de sobrevivência. O meu paradeiro ainda é uma folha nua. Já seria de inverno a próxima colheita! Os milagres que não aconteceram na tua descama Testemunham a inocência do termómetro febril. Descravo os dentes da tua exterioridade E decepo os pés que não determinam as distâncias. Numa afirmação de força comovo-me Com as criaturas que choram esta noite. Das vezes que te amaldiçoei por amor Era apenas saliva que temperava a saudade. De boca seca já não sou quem te descreve. Adivinho que com as aves migratórias Chegará o rumor de uma nova estação. Se já não for habitável esta perene solidão Confessarei os meus temores ao despertar. A terra fértil esteve em pousio por demasiado tempo! Urge a colheita do teu corpo!
CALIGRAFIA
São maiúsculas todas as letras que me comovem. Troco o nome de quem me identifica. Entregam-me Os símbolos de cada dia e devolvo o significado Comum para as palavras calendarizadas. Nada fica por dizer a seu tempo, ainda que eu escreva Demasiado rápido para não haver uma ordem preestabelecida Nos graus superlativos do silêncio. Até gritar Ninguém se capacite da minha mudez. Expusessem-me à dor E no plural não me entregaria em sacrifício! As vogais mudas merecem ser proferidas Para consolo das consoantes que arranham a língua. Quando abro aspas estendam que ainda posso ser fútil E ao ter medo de ser mal-interpretado, adiar a fuga. Na tragédia de sentir os poemas escritos a céu aberto Fedem os corpos miseráveis em que me senti vivo. As palavras que morrem com um ponto final Não pedem que se acrescente adjectivos Aos sujeitos que vivem desta lixeira! Há aqui depositados suficientes poemas meus Para julgar que não me faltarão as palavras ordinárias Para o discurso onde fingirei estar confortável com o calão Em que transformaram a minha primeira língua. Os poetas que trago dentro se mim sabem Da urgência de regurgitar todos os versos Que não pertenceram a um refrão harmonioso, Como se a vida já não merecesse ser cantada. Se são ferozes as palavras aceitaria o açaime! Tenho medo de aqui permanecer de cortinas abertas Com o espectáculo a terminar E as pessoas da primeira fila a aplaudirem... Nem todos compreendem os jogos semânticos E como não respondo pela mãe dos outros Não julguem que o frio à flor da pele Fortalece as palavras remetidas ao interior. Daqui a uma eternidade não serei Portador de uma letra inquestionavelmente feliz… Conspiro o narrador que mantém a sua história Por contar… Ocupo menos espaço do que o consentido E a ironia de percorrer cada linha traçada Em perseguição de palavras difíceis Leva as crianças a duvidarem do significado De cada palavra que antecede outra que já se conhece. É política deste estabelecimento Onde me apresento despido Não divulgar as tendências na moda! Cada um consome as palavras que sobraram do antecessor Os monólogos têm a duração de um parto Arrancado a ferros. Se eu ainda chorar, Com os meus novos pulmões, concluam Que estou farto de finais felizes. Continuo a comprar romances apalavrados Em feiras clandestinas! O único coração à venda Era demasiado grande para não garantir Ao portador a necessidade de um final feliz. Na semana passada viram-me a comprar Um atlas anatómico de um século sem luz… E nada foi feito! Ao procurar a alma Não encontrei apenas vestígios de amor… Ao entregar-me seja porque o que assinei Está ilegível e não pronunciarei o meu nome de guerra Porque nunca desafiei a paz entre as palavras Mais íntimas. Não me mandem poupar verbos Que já entreguei os que suportei. Queiram-me recortar os conceitos pelo picotado E a misturá-los decifrem o significado Da canção de embalar de minha mãe. De olhos fechados não preciso De muitas palavras para não sonhar… Se ainda quiserem contar-me as letras em que me construo Digam que a matemática moderna não é suficientemente rigorosa Para persuadir alguém a traçar um grande raio de acção. Há demasiadas ciências exactas para se poder calcular O número em que de defino pela raiz quadrada de zero. É impossível que o meu primeiro professor não tenha reparado Na escassez de giz para configurar uma conta obrigatória. Fiquem satisfeitos por saberem que tenho pressa Em que o resto desta divisão seja absolutamente zero. Ao multiplicar-me pelos sítios onde posso ser encontrado É aqui que aprendi a não ter um número preferido… Gostava do primeiro até me dizerem que não conheceria o último. Há contas impraticáveis de cabeça e o que resta É fazer uma regra três simples para ver a parte que nos toca. Ensinassem-me a escrever sem medo de não ser lido E eu refutaria todos os números da esterilidade. Ainda ontem excedi as palavras que fazem sentido Na boca de um homem que aceita o papel quadriculado. Conformado ao abecedário imponho à vertical Vozes, embora não ache que a altura máxima de uma linha Seja suficiente para uma letra de nome próprio. Felizes os analfabetos que preferem as letras Mínimas para a evocação da eternidade! Espero por um molde com as minhas letras preferidas. Não preciso de todas porque há novos sinónimos Para as palavras ainda por nascer. O que ficar por dizer Poderá já ter sido proferido por outras palavras. Por agora, tenho demasiadas expectativas Na palavra que não tenho na ponta da língua.
PROMESSA
Um destes dias súbitos Voltarei a cravar-te os incisivos, A rasgar-te o peito ansioso, E no alvorecer do coração Preferirei dar a lamber-te As primeiras feridas circunstanciais. Da inveja de quem se mantém por morder Nascerá o sentimento de culpa Pelas noites de abandono. Ao sacrificar-te no altar do meu corpo Ainda não sou eu quem pertence À fotografia em que não me convocas. No completar de cada respiração Guardo memória dos desertores: Saltar de pedra em pedra para transpor O rio do esquecimento é usurpar a culpa Do inverno dos sobreviventes! De olhos vendados visito o fim Do mundo. E se de pé tenho o hábito De fugir pelos crimes imputáveis Não confessarei as ordinárias cinzas Às raízes que me aprofundam. De todas as formas o meu coração Pertence à tua colecção de triângulos. As larvas que se apoderarem do corpo, Em letárgico estado de decomposição, Explicarão a necessidade voraz De justificar a minha longa espera. Se me queres moribundo Aguarda pela próxima vez Em que eu seja profundo Na forma de ignorar o mundo. Após desfalecer e ressuscitar No teu ventre, na congeminação do vómito, Regurgitar-te-ei como quem confia Que voltará para possuir-te na tua fome. Certificado de Garantia, 2019
A CRUZ E A ESPADA
Aos que nunca partiram… Não me lembro de não pertencer! Regressei de todas as vezes que virei costas Postumamente. Daqui não cheguei a partir. De cada sol aceitei apenas a inspiração Do dia seguinte e hoje fatalmente não é tarde Para o exílio. Ainda não deram pela minha falta. As rugas onde encaixo trazem as feições Do meu primeiro avô. Habituei-me a enfrentar o Cristo De braços estendidos e a lembrar-me de que quem Talhou a madeira, em forma de cruz, No altar da capela da minha infância, Impunha o respeito da minha mãe à mesa, Sem que ela questionasse os irmãos mais velhos Pela ordem natural das coisas genealógicas. É sensato admitir que se não fosse o meu avô Esta capela não apelaria à minha humanidade E eu não teria fé que a senhora do altar à direita Me piscou o olho durante a missa em sufrágio Do homem que forneceu a madeira para a cruz do seu filho. Tudo é sombrio para não esconjurar a luz ténue: Até os vitrais que reflectiram o primeiro arco-íris A que tive acesso partiram-se ao pormenor De não serem permitidos velórios nocturnos. Já não espero mais do que o negro fingido De todas as cores que me varrem por dentro. Ainda preciso de alguém que me ensine a disparar… Quero acertar no pardal eléctrico predisposto a fugir Do fio que traz electricidade à capela da minha infância. Mas o revólver apontado à cabeça disparou primeiro E eu fiquei a perguntar porque os aviões Completavam o voo dos pássaros rasantes. A espada impossível sobre o corpo horizontal Legitima a partida de quem não nasceu para conquistar. Porque nunca ninguém procurou pelo rapaz perdido Dentro de si? Quando não se sabe do fogo a intimidade De um corpo arrefecido qualquer leito é tardio Para não desejar acordar na refutação dos erros. Tragam a espada do meu primo que não é de madeira, Nem a cruz do meu avô é de ferro fundido! Continuo preparado para afogar-me no rio Onde fui pescado, mas este sítio está demasiado limpo Para regurgitar quem fez de mim pescador. De homens a fome de Deus estende-se Até à raiz e não me contento com o fruto Do ventre de Maria Cheia de Graça. O meu avô já apodreceu, mas a cruz continua viva. Uma cruz de madeira tratada dá para duas eternidades! Talvez se tivessem tratado o caixão do meu avô Com o mesmo produto que a cruz recebeu A memória do meu avô se mantivesse incorrupta, E eu olharia para o Cristo da capela da minha terra Que ainda lá está crucificado, com mais compaixão. Não encontrei a primeira espingarda do meu primo, Pronta a disparar. O pardal está cansado Há demasiado tempo que aguarda Que o meu dedo encontre o gatilho ansioso. Mas o que eu gostava era da espada entregue ao peito… Se não posso roubar a cruz ao Cristo do meu avô, Nem desenterrar a espada do meu primo, Porque continua a Maria a piscar-me o olho? António Miguel Ferreira, Certificado de Garantia, 2019
TUDO OU NADA
Reúnam a superficialidade e incendeiem o juízo Em que me praticam. Os espelhos quebrados Na reciclagem satisfarão outros poetas côncavos E não decretem que foi por me ter dado a ver, Demasiadas vezes, que descurei a sombra desinformada. Devolvam as cartas trancadas e sacrifiquem o lacre Nas velas que teimam a minha luz fora de horas. Não queiram ainda interpretar os símbolos da pele: As datas comemorativas são a consequência natural De não se ser eterno! Evitem cortar a direito a substância Da carne. Subsiste uma cronologia a respeitar! Agora que está tudo pronto desmantelem o corpo! Não se cinjam aos iminentes focos de infecção E prefiram a interioridade onde mais me inquieto. As mãos que me vasculharem por dentro Nem precisarão da legitimidade do álcool! Encontrem sinais de que já nada havia a fazer… Pelos meus refractários olhos sem brilho Há muito que deveriam saber da necessidade De consolidarem-me as pálpebras cerradas. Pelo abdómen distendido quem quis censurar-me Não teve o conforto de abstrair-se das notas de rodapé Da minha biografia ditada em plena digestão. Só assim se explica quem não fui de barriga cheia! Agora, como já pesaram o estômago, respeitem Quem se deu demasiadas vezes a comer à mesa farta Sem que ninguém tenha preferido saciar A sede antes do brinde ao meu sacrifício. Coloquem para um lado o que nunca me fez falta E para o outro o que sempre foi excedentário! Esclareçam os pulmões dos dias rarefeitos Em que não basta respirar fundo para da coragem Se possuir o derradeiro passo além da fronteira. Não mostrem respeito pelo coração mirrado: Os fósseis são a prova viva do que não fomos… Aos rins arranquem-lhe as dores prematuras, E como a minha filha faz colecção de pedrinhas, Em forma de órgãos vitais, escondam-lhe Que nasci impunemente numa pedreira desactivada. A vontade de conhecer todos os cemitérios Que sabiam da minha divinatória humanidade Foi substituída pela minha incapacidade urinária Para marcar o território onde fui tratado como um cão. Esvaziem-me e não encontrem indícios Que me entreguei integral. Pretensamente Como solidifiquei demasiados ossos Para quem nasceu para ser articulado Prefiram aqueles em que descalcificado Me queixava da mudança de cada estação. As melhores marionetas continuam a ser aquelas Desossadas que apanham o comboio em andamento E que não necessitam de muitos fios de nylon Para cumprirem o seu papel na história que se conta. Expliquem as crónicas dores das costas largas Por andar demasiado curvado ao relento. Sei que é insensato na hora do esvaziamento O mais comum dos mortais mostrar-se tão erecto, Mas se ainda quiserem entrar na minha cabeça Apelem-me aos sentidos na desconstrução da memória. Da loucura retenho a tentação dos desejos proibidos E da razão a alma arrependida do corpo prometido. Por fim, depois de assado, devolvam-me a corda Que poderei voltar a sentir a necessidade De pendurar-me, para aliviar o mundo do meu peso. Enquanto poeta, enquanto houver um tecto de estrelas, Continuarei a cumprir o dever do sangue Ao suster-me de cabeça para o chão! Se me acharem salgado a culpa é do mar interior! Certificado de Garantia, 2019
TUDO OU NADA
Reúnam a superficialidade e incendeiem o juízo Em que me praticam. Os espelhos quebrados Na reciclagem satisfarão outros poetas côncavos E não decretem que foi por me ter dado a ver, Demasiadas vezes, que descurei a sombra desinformada. Devolvam as cartas trancadas e sacrifiquem o lacre Nas velas que teimam a minha luz fora de horas. Não queiram ainda interpretar os símbolos da pele: As datas comemorativas são a consequência natural De não se ser eterno! Evitem cortar a direito a substância Da carne. Subsiste uma cronologia a respeitar! Agora que está tudo pronto desmantelem o corpo! Não se cinjam aos iminentes focos de infecção E prefiram a interioridade onde mais me inquieto. As mãos que me vasculharem por dentro Nem precisarão da legitimidade do álcool! Encontrem sinais de que já nada havia a fazer… Pelos meus refractários olhos sem brilho Há muito que deveriam saber da necessidade De consolidarem-me as pálpebras cerradas. Pelo abdómen distendido quem quis censurar-me Não teve o conforto de abstrair-se das notas de rodapé Da minha biografia ditada em plena digestão. Só assim se explica quem não fui de barriga cheia! Agora, como já pesaram o estômago, respeitem Quem se deu demasiadas vezes a comer à mesa farta Sem que ninguém tenha preferido saciar A sede antes do brinde ao meu sacrifício. Coloquem para um lado o que nunca me fez falta E para o outro o que sempre foi excedentário! Esclareçam os pulmões dos dias rarefeitos Em que não basta respirar fundo para da coragem Se possuir o derradeiro passo além da fronteira. Não mostrem respeito pelo coração mirrado: Os fósseis são a prova viva do que não fomos… Aos rins arranquem-lhe as dores prematuras, E como a minha filha faz colecção de pedrinhas, Em forma de órgãos vitais, escondam-lhe Que nasci impunemente numa pedreira desactivada. A vontade de conhecer todos os cemitérios Que sabiam da minha divinatória humanidade Foi substituída pela minha incapacidade urinária Para marcar o território onde fui tratado como um cão. Esvaziem-me e não encontrem indícios Que me entreguei integral. Pretensamente Como solidifiquei demasiados ossos Para quem nasceu para ser articulado Prefiram aqueles em que descalcificado Me queixava da mudança de cada estação. As melhores marionetas continuam a ser aquelas Desossadas que apanham o comboio em andamento E que não necessitam de muitos fios de nylon Para cumprirem o seu papel na história que se conta. Expliquem as crónicas dores das costas largas Por andar demasiado curvado ao relento. Sei que é insensato na hora do esvaziamento O mais comum dos mortais mostrar-se tão erecto, Mas se ainda quiserem entrar na minha cabeça Apelem-me aos sentidos na desconstrução da memória. Da loucura retenho a tentação dos desejos proibidos E da razão a alma arrependida do corpo prometido. Por fim, depois de assado, devolvam-me a corda Que poderei voltar a sentir a necessidade De pendurar-me, para aliviar o mundo do meu peso. Enquanto poeta, enquanto houver um tecto de estrelas, Continuarei a cumprir o dever do sangue Ao suster-me de cabeça para o chão! Se me acharem salgado a culpa é do mar interior!
VAIDADE
Quando escolho o significado das palavras Que temperam os movimentos que negligencio Ainda ninguém perscruta o meu diário. A sombra retrai-se em cada carícia Da luz que trespassa a janela opaca. Corto as unhas demasiado rentes Para ansiar arranhar as paredes E despadronizar o papel pardo que não escolhi. Tenho a vida guardada nos poemas de infância Onde me declaro inocente Pelos brinquedos que não possui. Escreve-se a giz a data de hoje no obituário negro, Em forma de coração mais-que-perfeito, Mas não respeito o chamamento do meu nome. Peço silêncio até terminar o meu discurso! E a cabeça que não estoura? Pelos meus olhos podem imiscuir-se na minha profundidade. A temperatura já vai demasiado alta Para merecer o crédito da caixa dos comprimidos. As portas de emergência do corpo Devolvem ao mundo a minha natureza. A tosse exacerbada desconfia do xarope caseiro, E a caneta em privação alcoólica treme Quando enjeita adjectivos para o despertar da tinta. Não se atrevam a levantar a mão! Não vos concederei a palavra Enquanto pedirem que morra de pé! Não conheço o veneno ideal Para a minha falta de apetite. Como não sou demasiado ingénuo Para desconfiar do voo migratório das aves, Obstinadamente fixo o olhar no céu À espera de um sinal de retorno. Tenho as entranhas fora do prazo de validade Adormecidas no congelador, E não considero temperar o corpo Com os condimentos ideais. As palavras femininas querem-me por perto. Quantas mulheres compõem um homem fértil? Os espelhos que dizem de beleza Não vão além da superficialidade Do meu humilde sorriso. E as feridas que cicatrizaram são memórias Por reconhecer na multidão. Digam-me das minhas necessidades básicas… Se ainda me declararem culpado Por questionar a sabedoria dos líricos Dividam em punhados iguais o conteúdo Das minhas mãos vazias, E em santuários de luz entreguem-me À devoção das primeiras trovoadas.