António Miguel Ferreira

António Miguel Ferreira

n. 1974 PT PT

n. 1974-07-04, Coimbra

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À FLOR DA PELE



Ainda que peça perdão à pele adormecida

Admito a culpa premeditada da saudade.

Quando as mãos chegam a vias de facto

Perspetivo estrangular as palavras evisceradas,

Mas o renovar da aurora ardente das estrelas,

Ampara as mãos que se deixam abandonar.

 

Acaricio os olhos teimosamente circunspectos,

E nas fotografias onde permaneces viva

Regurgito a carne que não me permitiu morrer à fome.

Por afecto aos lábios ainda murmuro os nomes-próprios

Que a memória tardia diz não humedecer.

O caminho refaz-se em sentido oposto à foz.

De contornos rígidos perco-te na profundidade.

Convenço-me da minha viuvez precoce

Ao sacudir os pés enterrados na mesma areia

Que nos media o tempo de sobrevivência.

O meu paradeiro ainda é uma folha nua.

 

Já seria de inverno a próxima colheita!

Os milagres que não aconteceram na tua descama

Testemunham a inocência do termómetro febril.

Descravo os dentes da tua exterioridade

E decepo os pés que não determinam as distâncias.

Numa afirmação de força comovo-me

Com as criaturas que choram esta noite.

Das vezes que te amaldiçoei por amor

Era apenas saliva que temperava a saudade.

 

De boca seca já não sou quem te descreve.

Adivinho que com as aves migratórias

Chegará o rumor de uma nova estação.

Se já não for habitável esta perene solidão

Confessarei os meus temores ao despertar.

 

A terra fértil esteve em pousio por demasiado tempo!

Urge a colheita do teu corpo!
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Biografia
Poeta de Coimbra, nasciodo em 1974. É desta cidade que os seus poemas partem. Pertence à nova geração de poetas portugueses e encontra-se representado em diversas antologias portuguesas. De índole biográfico os seus versos brotam do campo de batalha que é a vida. Como ele próprio o diz: - Naõ tenho medo de ser soldado. Não quero é deixar de receber o golpe de misericórdia!
Página do autor: https://www.facebook.com/antoniomiguelferreiraescritor/
Blog: https://antoniomiguelferreira.blogspot.com/
 

Poemas

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À FLOR DA PELE



Ainda que peça perdão à pele adormecida

Admito a culpa premeditada da saudade.

Quando as mãos chegam a vias de facto

Perspetivo estrangular as palavras evisceradas,

Mas o renovar da aurora ardente das estrelas,

Ampara as mãos que se deixam abandonar.

 

Acaricio os olhos teimosamente circunspectos,

E nas fotografias onde permaneces viva

Regurgito a carne que não me permitiu morrer à fome.

Por afecto aos lábios ainda murmuro os nomes-próprios

Que a memória tardia diz não humedecer.

O caminho refaz-se em sentido oposto à foz.

De contornos rígidos perco-te na profundidade.

Convenço-me da minha viuvez precoce

Ao sacudir os pés enterrados na mesma areia

Que nos media o tempo de sobrevivência.

O meu paradeiro ainda é uma folha nua.

 

Já seria de inverno a próxima colheita!

Os milagres que não aconteceram na tua descama

Testemunham a inocência do termómetro febril.

Descravo os dentes da tua exterioridade

E decepo os pés que não determinam as distâncias.

Numa afirmação de força comovo-me

Com as criaturas que choram esta noite.

Das vezes que te amaldiçoei por amor

Era apenas saliva que temperava a saudade.

 

De boca seca já não sou quem te descreve.

Adivinho que com as aves migratórias

Chegará o rumor de uma nova estação.

Se já não for habitável esta perene solidão

Confessarei os meus temores ao despertar.

 

A terra fértil esteve em pousio por demasiado tempo!

Urge a colheita do teu corpo!
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CALIGRAFIA



São maiúsculas todas as letras que me comovem.

Troco o nome de quem me identifica. Entregam-me

Os símbolos de cada dia e devolvo o significado

Comum para as palavras calendarizadas.

Nada fica por dizer a seu tempo, ainda que eu escreva

Demasiado rápido para não haver uma ordem preestabelecida

Nos graus superlativos do silêncio. Até gritar

Ninguém se capacite da minha mudez. Expusessem-me à dor

E no plural não me entregaria em sacrifício!

As vogais mudas merecem ser proferidas

Para consolo das consoantes que arranham a língua.

Quando abro aspas estendam que ainda posso ser fútil

E ao ter medo de ser mal-interpretado, adiar a fuga.

Na tragédia de sentir os poemas escritos a céu aberto

Fedem os corpos miseráveis em que me senti vivo.

As palavras que morrem com um ponto final

Não pedem que se acrescente adjectivos

Aos sujeitos que vivem desta lixeira!

Há aqui depositados suficientes poemas meus

Para julgar que não me faltarão as palavras ordinárias

Para o discurso onde fingirei estar confortável com o calão

Em que transformaram a minha primeira língua.

Os poetas que trago dentro se mim sabem

Da urgência de regurgitar todos os versos

Que não pertenceram a um refrão harmonioso,

Como se a vida já não merecesse ser cantada.

 

Se são ferozes as palavras aceitaria o açaime!

Tenho medo de aqui permanecer de cortinas abertas

Com o espectáculo a terminar

E as pessoas da primeira fila a aplaudirem...

Nem todos compreendem os jogos semânticos

E como não respondo pela mãe dos outros

Não julguem que o frio à flor da pele

Fortalece as palavras remetidas ao interior.

 

Daqui a uma eternidade não serei

Portador de uma letra inquestionavelmente feliz…

Conspiro o narrador que mantém a sua história

Por contar… Ocupo menos espaço do que o consentido

E a ironia de percorrer cada linha traçada

Em perseguição de palavras difíceis

Leva as crianças a duvidarem do significado

De cada palavra que antecede outra que já se conhece.

 

É política deste estabelecimento

Onde me apresento despido

Não divulgar as tendências na moda!

Cada um consome as palavras que sobraram do antecessor

Os monólogos têm a duração de um parto

Arrancado a ferros. Se eu ainda chorar,

Com os meus novos pulmões, concluam

Que estou farto de finais felizes.

 

Continuo a comprar romances apalavrados

Em feiras clandestinas! O único coração à venda

Era demasiado grande para não garantir

Ao portador a necessidade de um final feliz.

Na semana passada viram-me a comprar

Um atlas anatómico de um século sem luz…

E nada foi feito! Ao procurar a alma

Não encontrei apenas vestígios de amor…

 

Ao entregar-me seja porque o que assinei

Está ilegível e não pronunciarei o meu nome de guerra

Porque nunca desafiei a paz entre as palavras

Mais íntimas. Não me mandem poupar verbos

Que já entreguei os que suportei.

Queiram-me recortar os conceitos pelo picotado

E a misturá-los decifrem o significado

Da canção de embalar de minha mãe.

De olhos fechados não preciso

De muitas palavras para não sonhar…

 

Se ainda quiserem contar-me as letras em que me construo

Digam que a matemática moderna não é suficientemente rigorosa

Para persuadir alguém a traçar um grande raio de acção.

Há demasiadas ciências exactas para se poder calcular

O número em que de defino pela raiz quadrada de zero.

É impossível que o meu primeiro professor não tenha reparado

Na escassez de giz para configurar uma conta obrigatória.

Fiquem satisfeitos por saberem que tenho pressa

Em que o resto desta divisão seja absolutamente zero.

Ao multiplicar-me pelos sítios onde posso ser encontrado

É aqui que aprendi a não ter um número preferido…

Gostava do primeiro até me dizerem que não conheceria o último.

Há contas impraticáveis de cabeça e o que resta

É fazer uma regra três simples para ver a parte que nos toca.

 

Ensinassem-me a escrever sem medo de não ser lido

E eu refutaria todos os números da esterilidade.

Ainda ontem excedi as palavras que fazem sentido

Na boca de um homem que aceita o papel quadriculado.

Conformado ao abecedário imponho à vertical

Vozes, embora não ache que a altura máxima de uma linha

Seja suficiente para uma letra de nome próprio.

Felizes os analfabetos que preferem as letras

Mínimas para a evocação da eternidade!

 

Espero por um molde com as minhas letras preferidas.

Não preciso de todas porque há novos sinónimos

Para as palavras ainda por nascer. O que ficar por dizer

Poderá já ter sido proferido por outras palavras.

 

Por agora, tenho demasiadas expectativas

Na palavra que não tenho na ponta da língua.

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PROMESSA



Um destes dias súbitos

Voltarei a cravar-te os incisivos,

A rasgar-te o peito ansioso,

E no alvorecer do coração

Preferirei dar a lamber-te

As primeiras feridas circunstanciais.

Da inveja de quem se mantém por morder

Nascerá o sentimento de culpa

Pelas noites de abandono.

Ao sacrificar-te no altar do meu corpo

Ainda não sou eu quem pertence

À fotografia em que não me convocas.

 

No completar de cada respiração

Guardo memória dos desertores:

Saltar de pedra em pedra para transpor

O rio do esquecimento é usurpar a culpa

Do inverno dos sobreviventes!

De olhos vendados visito o fim

Do mundo. E se de pé tenho o hábito

De fugir pelos crimes imputáveis

Não confessarei as ordinárias cinzas

Às raízes que me aprofundam.

De todas as formas o meu coração

Pertence à tua colecção de triângulos.

As larvas que se apoderarem do corpo,

Em letárgico estado de decomposição,

Explicarão a necessidade voraz

De justificar a minha longa espera.

Se me queres moribundo

Aguarda pela próxima vez

Em que eu seja profundo

Na forma de ignorar o mundo.

 

Após desfalecer e ressuscitar

No teu ventre, na congeminação do vómito,

Regurgitar-te-ei como quem confia

Que voltará para possuir-te na tua fome.


Certificado de Garantia, 2019
145

TUDO OU NADA


Reúnam a superficialidade e incendeiem o juízo

Em que me praticam. Os espelhos quebrados

Na reciclagem satisfarão outros poetas côncavos

E não decretem que foi por me ter dado a ver,

Demasiadas vezes, que descurei a sombra desinformada.

Devolvam as cartas trancadas e sacrifiquem o lacre

Nas velas que teimam a minha luz fora de horas.

Não queiram ainda interpretar os símbolos da pele:

As datas comemorativas são a consequência natural

De não se ser eterno! Evitem cortar a direito a substância

Da carne. Subsiste uma cronologia a respeitar!





Agora que está tudo pronto desmantelem o corpo!

Não se cinjam aos iminentes focos de infecção

E prefiram a interioridade onde mais me inquieto.

As mãos que me vasculharem por dentro

Nem precisarão da legitimidade do álcool!

Encontrem sinais de que já nada havia a fazer…

Pelos meus refractários olhos sem brilho

Há muito que deveriam saber da necessidade

De consolidarem-me as pálpebras cerradas.

Pelo abdómen distendido quem quis censurar-me

Não teve o conforto de abstrair-se das notas de rodapé

Da minha biografia ditada em plena digestão.

Só assim se explica quem não fui de barriga cheia!

Agora, como já pesaram o estômago, respeitem

Quem se deu demasiadas vezes a comer à mesa farta

Sem que ninguém tenha preferido saciar

A sede antes do brinde ao meu sacrifício.





Coloquem para um lado o que nunca me fez falta

E para o outro o que sempre foi excedentário!





Esclareçam os pulmões dos dias rarefeitos

Em que não basta respirar fundo para da coragem

Se possuir o derradeiro passo além da fronteira.

Não mostrem respeito pelo coração mirrado:

Os fósseis são a prova viva do que não fomos…

Aos rins arranquem-lhe as dores prematuras,

E como a minha filha faz colecção de pedrinhas,

Em forma de órgãos vitais, escondam-lhe

Que nasci impunemente numa pedreira desactivada.

A vontade de conhecer todos os cemitérios

Que sabiam da minha divinatória humanidade

Foi substituída pela minha incapacidade urinária

Para marcar o território onde fui tratado como um cão.





Esvaziem-me e não encontrem indícios

Que me entreguei integral. Pretensamente

Como solidifiquei demasiados ossos

Para quem nasceu para ser articulado

Prefiram aqueles em que descalcificado

Me queixava da mudança de cada estação.

As melhores marionetas continuam a ser aquelas

Desossadas que apanham o comboio em andamento

E que não necessitam de muitos fios de nylon

Para cumprirem o seu papel na história que se conta.

Expliquem as crónicas dores das costas largas

Por andar demasiado curvado ao relento.





Sei que é insensato na hora do esvaziamento

O mais comum dos mortais mostrar-se tão erecto,

Mas se ainda quiserem entrar na minha cabeça

Apelem-me aos sentidos na desconstrução da memória.

Da loucura retenho a tentação dos desejos proibidos

E da razão a alma arrependida do corpo prometido.





Por fim, depois de assado, devolvam-me a corda

Que poderei voltar a sentir a necessidade

De pendurar-me, para aliviar o mundo do meu peso.

Enquanto poeta, enquanto houver um tecto de estrelas,

Continuarei a cumprir o dever do sangue

Ao suster-me de cabeça para o chão!





Se me acharem salgado a culpa é do mar interior!
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TUDO OU NADA


Reúnam a superficialidade e incendeiem o juízo

Em que me praticam. Os espelhos quebrados

Na reciclagem satisfarão outros poetas côncavos

E não decretem que foi por me ter dado a ver,

Demasiadas vezes, que descurei a sombra desinformada.

Devolvam as cartas trancadas e sacrifiquem o lacre

Nas velas que teimam a minha luz fora de horas.

Não queiram ainda interpretar os símbolos da pele:

As datas comemorativas são a consequência natural

De não se ser eterno! Evitem cortar a direito a substância

Da carne. Subsiste uma cronologia a respeitar!





Agora que está tudo pronto desmantelem o corpo!

Não se cinjam aos iminentes focos de infecção

E prefiram a interioridade onde mais me inquieto.

As mãos que me vasculharem por dentro

Nem precisarão da legitimidade do álcool!

Encontrem sinais de que já nada havia a fazer…

Pelos meus refractários olhos sem brilho

Há muito que deveriam saber da necessidade

De consolidarem-me as pálpebras cerradas.

Pelo abdómen distendido quem quis censurar-me

Não teve o conforto de abstrair-se das notas de rodapé

Da minha biografia ditada em plena digestão.

Só assim se explica quem não fui de barriga cheia!

Agora, como já pesaram o estômago, respeitem

Quem se deu demasiadas vezes a comer à mesa farta

Sem que ninguém tenha preferido saciar

A sede antes do brinde ao meu sacrifício.





Coloquem para um lado o que nunca me fez falta

E para o outro o que sempre foi excedentário!





Esclareçam os pulmões dos dias rarefeitos

Em que não basta respirar fundo para da coragem

Se possuir o derradeiro passo além da fronteira.

Não mostrem respeito pelo coração mirrado:

Os fósseis são a prova viva do que não fomos…

Aos rins arranquem-lhe as dores prematuras,

E como a minha filha faz colecção de pedrinhas,

Em forma de órgãos vitais, escondam-lhe

Que nasci impunemente numa pedreira desactivada.

A vontade de conhecer todos os cemitérios

Que sabiam da minha divinatória humanidade

Foi substituída pela minha incapacidade urinária

Para marcar o território onde fui tratado como um cão.





Esvaziem-me e não encontrem indícios

Que me entreguei integral. Pretensamente

Como solidifiquei demasiados ossos

Para quem nasceu para ser articulado

Prefiram aqueles em que descalcificado

Me queixava da mudança de cada estação.

As melhores marionetas continuam a ser aquelas

Desossadas que apanham o comboio em andamento

E que não necessitam de muitos fios de nylon

Para cumprirem o seu papel na história que se conta.

Expliquem as crónicas dores das costas largas

Por andar demasiado curvado ao relento.





Sei que é insensato na hora do esvaziamento

O mais comum dos mortais mostrar-se tão erecto,

Mas se ainda quiserem entrar na minha cabeça

Apelem-me aos sentidos na desconstrução da memória.

Da loucura retenho a tentação dos desejos proibidos

E da razão a alma arrependida do corpo prometido.





Por fim, depois de assado, devolvam-me a corda

Que poderei voltar a sentir a necessidade

De pendurar-me, para aliviar o mundo do meu peso.

Enquanto poeta, enquanto houver um tecto de estrelas,

Continuarei a cumprir o dever do sangue

Ao suster-me de cabeça para o chão!





Se me acharem salgado a culpa é do mar interior!


                                                                                  Certificado de Garantia, 2019
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A CRUZ E A ESPADA


                                     Aos que nunca partiram…




Não me lembro de não pertencer!

Regressei de todas as vezes que virei costas

Postumamente. Daqui não cheguei a partir.

De cada sol aceitei apenas a inspiração

Do dia seguinte e hoje fatalmente não é tarde

Para o exílio. Ainda não deram pela minha falta.





As rugas onde encaixo trazem as feições

Do meu primeiro avô. Habituei-me a enfrentar o Cristo

De braços estendidos e a lembrar-me de que quem

Talhou a madeira, em forma de cruz,

No altar da capela da minha infância,

Impunha o respeito da minha mãe à mesa,

Sem que ela questionasse os irmãos mais velhos

Pela ordem natural das coisas genealógicas.

É sensato admitir que se não fosse o meu avô

Esta capela não apelaria à minha humanidade

E eu não teria fé que a senhora do altar à direita

Me piscou o olho durante a missa em sufrágio

Do homem que forneceu a madeira para a cruz do seu filho.

Tudo é sombrio para não esconjurar a luz ténue:

Até os vitrais que reflectiram o primeiro arco-íris

A que tive acesso partiram-se ao pormenor

De não serem permitidos velórios nocturnos.

Já não espero mais do que o negro fingido

De todas as cores que me varrem por dentro.





Ainda preciso de alguém que me ensine a disparar…

Quero acertar no pardal eléctrico predisposto a fugir

Do fio que traz electricidade à capela da minha infância.

Mas o revólver apontado à cabeça disparou primeiro

E eu fiquei a perguntar porque os aviões

Completavam o voo dos pássaros rasantes.

A espada impossível sobre o corpo horizontal

Legitima a partida de quem não nasceu para conquistar.

Porque nunca ninguém procurou pelo rapaz perdido

Dentro de si? Quando não se sabe do fogo a intimidade

De um corpo arrefecido qualquer leito é tardio

Para não desejar acordar na refutação dos erros.





Tragam a espada do meu primo que não é de madeira,

Nem a cruz do meu avô é de ferro fundido!

Continuo preparado para afogar-me no rio

Onde fui pescado, mas este sítio está demasiado limpo

Para regurgitar quem fez de mim pescador.

De homens a fome de Deus estende-se

Até à raiz e não me contento com o fruto

Do ventre de Maria Cheia de Graça.





O meu avô já apodreceu, mas a cruz continua viva.

Uma cruz de madeira tratada dá para duas eternidades!

Talvez se tivessem tratado o caixão do meu avô

Com o mesmo produto que a cruz recebeu

A memória do meu avô se mantivesse incorrupta,

E eu olharia para o Cristo da capela da minha terra

Que ainda lá está crucificado, com mais compaixão.





Não encontrei a primeira espingarda do meu primo,

Pronta a disparar. O pardal está cansado

Há demasiado tempo que aguarda

Que o meu dedo encontre o gatilho ansioso.

Mas o que eu gostava era da espada entregue ao peito…





Se não posso roubar a cruz ao Cristo do meu avô,

Nem desenterrar a espada do meu primo,

Porque continua a Maria a piscar-me o olho?









António Miguel Ferreira, Certificado de Garantia, 2019
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VAIDADE



Quando escolho o significado das palavras

Que temperam os movimentos que negligencio

Ainda ninguém perscruta o meu diário.

 

A sombra retrai-se em cada carícia

Da luz que trespassa a janela opaca.

Corto as unhas demasiado rentes

Para ansiar arranhar as paredes

E despadronizar o papel pardo que não escolhi.

Tenho a vida guardada nos poemas de infância

Onde me declaro inocente

Pelos brinquedos que não possui.

Escreve-se a giz a data de hoje no obituário negro,

Em forma de coração mais-que-perfeito,

Mas não respeito o chamamento do meu nome.

 

Peço silêncio até terminar o meu discurso!

 

E a cabeça que não estoura?

Pelos meus olhos podem imiscuir-se na minha profundidade.

A temperatura já vai demasiado alta

Para merecer o crédito da caixa dos comprimidos.

As portas de emergência do corpo

Devolvem ao mundo a minha natureza.

A tosse exacerbada desconfia do xarope caseiro,

E a caneta em privação alcoólica treme

Quando enjeita adjectivos para o despertar da tinta.

 

Não se atrevam a levantar a mão!

Não vos concederei a palavra

Enquanto pedirem que morra de pé!

 

Não conheço o veneno ideal

Para a minha falta de apetite.

Como não sou demasiado ingénuo

Para desconfiar do voo migratório das aves,

Obstinadamente fixo o olhar no céu

À espera de um sinal de retorno.

Tenho as entranhas fora do prazo de validade

Adormecidas no congelador,

E não considero temperar o corpo

Com os condimentos ideais.

 

As palavras femininas querem-me por perto.

Quantas mulheres compõem um homem fértil?

Os espelhos que dizem de beleza

Não vão além da superficialidade

Do meu humilde sorriso.

E as feridas que cicatrizaram são memórias

Por reconhecer na multidão.

Digam-me das minhas necessidades básicas…

Se ainda me declararem culpado

Por questionar a sabedoria dos líricos

Dividam em punhados iguais o conteúdo

Das minhas mãos vazias,

E em santuários de luz entreguem-me

À devoção das primeiras trovoadas.

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