À FLOR DA PELE
Ainda que peça perdão à pele adormecida
Admito a culpa premeditada da saudade.
Quando as mãos chegam a vias de facto
Perspetivo estrangular as palavras evisceradas,
Mas o renovar da aurora ardente das estrelas,
Ampara as mãos que se deixam abandonar.
Acaricio os olhos teimosamente circunspectos,
E nas fotografias onde permaneces viva
Regurgito a carne que não me permitiu morrer à fome.
Por afecto aos lábios ainda murmuro os nomes-próprios
Que a memória tardia diz não humedecer.
O caminho refaz-se em sentido oposto à foz.
De contornos rígidos perco-te na profundidade.
Convenço-me da minha viuvez precoce
Ao sacudir os pés enterrados na mesma areia
Que nos media o tempo de sobrevivência.
O meu paradeiro ainda é uma folha nua.
Já seria de inverno a próxima colheita!
Os milagres que não aconteceram na tua descama
Testemunham a inocência do termómetro febril.
Descravo os dentes da tua exterioridade
E decepo os pés que não determinam as distâncias.
Numa afirmação de força comovo-me
Com as criaturas que choram esta noite.
Das vezes que te amaldiçoei por amor
Era apenas saliva que temperava a saudade.
De boca seca já não sou quem te descreve.
Adivinho que com as aves migratórias
Chegará o rumor de uma nova estação.
Se já não for habitável esta perene solidão
Confessarei os meus temores ao despertar.
A terra fértil esteve em pousio por demasiado tempo!
Urge a colheita do teu corpo!
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.
Outros poemas de participantes
delírio encapsulado
presa estou pela manhã a recolher as lágrimas livre sou à noite ao te recolher em minha cápsula quando me transbordar, a tez partida será…
Kátia Surreal
Dissonantes, se confundem - 09/09/2026
Será que a alegria é irmã da tristeza
Dissonantes, separadas se confundem,
A alegria é a exultação do bem estar
…
Armando A. C. Garcia
Muros de pedra ! - 24/07/2026
Eu tinha o mundo perdido
Na palma de minha mão,
Livre e solto, sacudido
Sem dinheiro, sem tostão.
…
Armando A. C. Garcia
A força inexplicável ! - (soneto) - 25/07/2026
A força inexplicável, chamada sorte,
Como não é constante no indivíduo,
Por não ser ela um predicado assíduo
N…
Armando A. C. Garcia