ALCÂNTARA ÁFRICA QUILOMBOLA [MANOEL SERRÃO]
Ó Deia negritude Odara! Raça de toda a mais bela quão eterna a noite inteira escura de Ébano que não se acaba! Ó umbral noite, q'nda é turva noite escura, Odara! Noite enegrecida, sangria sem derrama na cafua; noite iguais àquelas sem a luz do sol oculta nas trevas.
Noite de hasta ferro marcada; noite nefasta sem a alforra e alvissara; noite sem consolo e esperança que não se basta!
Noites tempestivas de céu fechado; noites negras noites tão eternas de inferno, noites de homens açoitados na praça.
Noite por todo o mau nesta terra, Odara!
A noite há-de morrer pelo punho da nação sufocada!
Ó há-de morrer sufocada!
Há-de morrer pelo braço "servil" dessa raça;
Há-de ser livre, ser a causa dos filhos esquálidos dessa pátria;
Cúm'lo do martírio dos grilhões pesados:
que mata de morte matada;
que mata de morte cansada;
que mata de morte escrava.
Noites sem dias assim? Por todo o mau, odara!
A noite madastra há-de perecer sufocada!
Ó há-de morrer, e toda a nação unida, à luz do sol cintilante;
Há-de vencer! Ó quão brava gente tu és em teus mártires
e heróis contra o açoite, Odara;
Cum'lo da chibata na carne dilacerada;
ferida n'alma; ferida na honra e na liberdade;
ferida aberta, inda morte viva que o tempo não sara!
Ó Deia negritude Odara! Ó quilombola, Mãe Negra África!
A voz da raça que o tempo não cala.
A resistência brava que a luta o tempo não basta.