Gayan

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n. 1966 BR BR

Gayan Tito. Poeta menor.

n. 1966-05-13, Minas Gerais

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Entulho de Poesia


Penduraram no teto do quarto
minhas sobras de versos,
os rascunhos naufragados,
as palavras que se desagregaram
por fissão fonética,
as ideias sinuosas
que não se fecharam
em preciso círculo,
as rimas necrosadas,
doloridas, apáticas.
Penduraram ali
por pudores de descarte,
para que não findassem
no lixo comum
entre restos de comida.
(vai que algum mendigo famélico
que revira latas de lixo
delas se alimente
e, por efeito acumulativo,
adicione à indigência
também a loucura)
Sim, ali penduraram!
Mas, o teto, que é de concreto,
projetado para suportar
matéria concreta,
não suportou o peso
do abstrato:
desabou!...
Desabou e ficou pendurado
nos inobjetos que nele
se pendurou.
Virou também entulho
de poesia.

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Poemas

14

Do que se põe

Do que se põe

Todos põe algo
na vida.
E disto,
algo são.
Eu nada ponho,
nem gesto,
nem intenção.
A não ser
um varal de palavras
no fio da imaginação.
Por pôr letra
borboleta.

337

O Rio de Heráclito


No alto dos penhascos
há uma árvore frondosa
cujas sombras
abarcam a montanha inteira.
Debaixo desta árvore
há um velho banco
feito do lenho da mesma árvore
quando ela fora outra arvore
crescendo na planície
e insciente de alturas.
costumo sentar-me
neste banco ao fim da tarde
para contemplar o voo
dos poemas que morreram aves
retornando para os seus ninhos.
(sim, todo poema morre
ao ser criado)
Em uma destas tardes
em que o vento
seguro pela cauda
virou brisa, e que a brisa,
presa pelo dorso
ficou ar estático,
Heráclito sentou-se
ao meu lado
e ambos em silêncio
perscrutamos o vale
cortado pelo serpentino
rio de águas volitivas.
Ah, o rio, o rio de Heráclito:
'Ninguém entra no mesmo rio
uma segunda vez,
pois quando isto acontece
já não se é mais o mesmo.
Assim como as águas
que já serão outras.'
Mas, Heráclito sorriu
e em seu sorriso
pude colher o pensamento:
'Não há sequer a primeira vez
para se entrar em um rio,
pois aquele que entra
é uma ilusão
como ilusórias são as águas
que não nos pode molhar.'
Sorri com ele e ali ficamos
esperando o sol entrar
dentro da montanha
e depois tomamos um caminho
sobre as nuvens
e partimos.

497

O Peixe


O lago
de águas serenas,
de superfície cristalina,
reflete o céu.
O homem sobre a pedra,
ao lado do lago,
contempla o lago
e o céu nele espelhado.
O peixe mergulha no lago.
Espelho quebrado.
Lâmina ferida que se agita.
O homem respira.
O lago absorve o impacto
e absolve o peixe.
Impõe seu poder de quietude.
Águas novamente apaziguadas.
Uma ave passa e nada toca.
O homem procura o peixe
nas águas claras
entre as pedras imóveis
no fundo.
Não o vê.
Ele ali não está.
Mas, é visto pelo peixe,
que nada livremente
nas águas turvas
do lago sem margens,
sem fundo
e de superfície inavegável
no interior do homem
sobre a pedra.

380

Vagamundo


para Ali

Na minha cidade
eram desprezados
as prostitutas e os vagabundos.
Não tenho fisiologias
e vocação
para a santidade
da prostituição.
Mas, as tenho
para a alteridade
do vagabundear,
de ficar,
em dias de se esticar,
cheirando o sol
e ouvindo o ar.
Eis um paradoxo,
feito espinho ou destroço,
na garganta e no espaço,
da vida enterrado.
Decido-me então:
para vago rumo
e impossível prumo,
Vagamundo
sou.

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