Adelaide Monteiro

Adelaide Monteiro

n. 1949 PT PT

n. 1949-05-16, Miranda do Douro

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Sorvendo a brisa do entardecer

Se ao menos pudesses ouvir o canto dos suspiros
De ansiedade para ancorar no cais
Se ao menos as tuas mãos sentissem a minhas
Trémulas as minhas mãos, agonizando em ais

Se ao menos tu sentisses os abraços
Guardados no silêncio dum refúgio
Se ao menos os teus passos
Seguíssem os meus passos
Sem desculpa de cansaço ou subterfúgio

Se ao menos veredas eu pudesse inventar
Para os espinhos não cortarem as palavras
Se ao menos eu pudesse segurar
O orvalho de frescas madrugadas
Deglutido por um outono a ameaçar
As mãos
Os braços
O cais em derrocadas

Se ao menos eu soubesse beber
Sorvendo
Na despedida dum sol que sempre volta
A brisa leve do entardecer...
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Biografia
Hoje
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.

Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.

Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Um céu companheiro amado.

Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.


Poemas

16

Hei-se

Chegas-me Outono
a saber a Setembro,
a despedir-me
dos estios grávidos de luz,
que me bronzeiam a pele desnuda.

Chegas-me Outono
em coisas perdidas,
na incerteza dos dias,
incerta a vida,
incerto o Inverno...

Sorvo-te Outono,
sôfrega,
enquanto o meu corpo é dia,
noite o meu sonho,
enquanto no meu regaço
couberem as folhas
que se me desprendem do manto.

Hei-de deleitar-me
com as aves últimas,
sobreviventes à queda da folha,
molhadas pelas primeiras chuvas
e resistindo aos crepúsculos.

Hei-de aconchegar-me ao Inverno,
sentindo as cores do Outono...
1 322

Não sei

Não sei
se o que avanço é com os passos
que as minhas pernas autorizam
ou se, pelo contrário,
elas entraram em colapso
e caminho
com a inércia dos passos caminhados.

Esmago
a fúria contra os rochedos
dum oceano revolto,
aperto o peito,
sustenho o respirar
para que nos olhos
não cresça a raiva,
em vez de lágrimas.

Suspeito
que o mundo onde me largaste
não é o meu mundo,
o campo onde me movimento
não é o meu espaço.

Ó céus,
para quê tantas estrelas cadentes,
tantos meteoritos a incendiar a terra
e a cavar fossos
cada vez mais profundos
entre as gentes?!

Ó terra,
vendida por mercadores,
hipotecada ao futuro,
sem garantias,
com promessas de Éden,
não deixes!!

Não sei se quero avançar
neste estádio acabado,
ou antes regredir,
voltar a larva
e assim ficar.

Não sei
se caminho
para este futuro incerto
ou se paro,
semente perdida
num deserto!...

1 307

O verde orvalhado

Rumo ao mar no verde dos teus olhos
e lá me detenho sem dar conta
de que o mundo freneticamente corre.
Lá vejo ondas que me massajam os sentidos,
apanho búzios para os pôr nos ouvidos
quando longe eu te quero,
encostando ao rosto as carícias bejes de madrepérola.
À vezes pressinto nos teus olhos cardumes tristes,
perdidos no labirintos das algas,
a fugir da luz
para se esconderem nas profundezas dos corais.
E lá ficam,
a mirrar de fome e sede,
nesse mar de flor de sal,
reluzente como mica.
Depois,
olhas-me com a leveza das flores,
com a profundidade dos veios das montanhas,
e brotas na nascente
a tremer de pressa...
O verde dos teus olhos é de erva orvalhada
no lameiro dos meus desejos...
1 362

Guardo

Guardo nos lábios
o orvalho do beijo,
na pele,
os pigmentos deixados
pelas tuas mãos.
Guardo na mão
o abraço perdido no tempo
e na alma
a essência dos porvires.
1 384

Dor da partida

Sento-me no chão para te sentir mais perto
Descalça te caminho, com o passo certo
De nevoeiros me visto, de vestes despida
Sinto-te por drento, choro-te na despedida

Estendo os meus braços num abraço infindo
E assim fico, pensando estar contigo
Ah, se tu soubesses quanto me doi o peito
Ao partir agora, sempre deste jeito

Mas hei-de voltar, prometo-te e juro
Para ancorar em porto seguro
Dedos cruzados beijo, selando a promessa
Para que me esperes, me abraces sem pressa.

Ó terra querida se me quisesses tanto
Quanto eu te quero,e que te deixo em pranto
Prendias-me a uma laçada, na argola da vida
Não me deixavas ir e davas-me guarida
1 407

Em silêncios

Falas-me no silêncio do teu olhar
Sentado no recanto dos teus laços.
Porque não me beijas tu
Quando desejas
Porque me deixas
Com sede dos teus abraços?!

Bebes-me em goles
Devagarinho
Eleges-me raínha
Em trono dourado.
Dizes-te por dentro o meu amado
Esboças por dentro um sorriso.

E eu vivo fora
Porque de fora sou
Exuberante como escarlate rosa
Fora ao relento sob o céu estrelado
Fora ao orvalho da doce madrugada
Dentro da lua e assim me dou.

Quero ver dentro e às vezes não posso
Quero-te abraçar e às vezes não ouso
Quero-te falar e os lábios cerram
E fico contigo como barco em porto
Enroscada aos sentires no ninho que é nosso.

Olhas-me em silêncio
Sonhas-me calado
Sonho-te dormindo
Sinto-te a meu lado.

1 428

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