Hei-se
Chegas-me Outono
a saber a Setembro,
a despedir-me
dos estios grávidos de luz,
que me bronzeiam a pele desnuda.
Chegas-me Outono
em coisas perdidas,
na incerteza dos dias,
incerta a vida,
incerto o Inverno...
Sorvo-te Outono,
sôfrega,
enquanto o meu corpo é dia,
noite o meu sonho,
enquanto no meu regaço
couberem as folhas
que se me desprendem do manto.
Hei-de deleitar-me
com as aves últimas,
sobreviventes à queda da folha,
molhadas pelas primeiras chuvas
e resistindo aos crepúsculos.
Hei-de aconchegar-me ao Inverno,
sentindo as cores do Outono...
Não sei
Não sei
se o que avanço é com os passos
que as minhas pernas autorizam
ou se, pelo contrário,
elas entraram em colapso
e caminho
com a inércia dos passos caminhados.
Esmago
a fúria contra os rochedos
dum oceano revolto,
aperto o peito,
sustenho o respirar
para que nos olhos
não cresça a raiva,
em vez de lágrimas.
Suspeito
que o mundo onde me largaste
não é o meu mundo,
o campo onde me movimento
não é o meu espaço.
Ó céus,
para quê tantas estrelas cadentes,
tantos meteoritos a incendiar a terra
e a cavar fossos
cada vez mais profundos
entre as gentes?!
Ó terra,
vendida por mercadores,
hipotecada ao futuro,
sem garantias,
com promessas de Éden,
não deixes!!
Não sei se quero avançar
neste estádio acabado,
ou antes regredir,
voltar a larva
e assim ficar.
Não sei
se caminho
para este futuro incerto
ou se paro,
semente perdida
num deserto!...
Em silêncios
Falas-me no silêncio do teu olhar
Sentado no recanto dos teus laços.
Porque não me beijas tu
Quando desejas
Porque me deixas
Com sede dos teus abraços?!
Bebes-me em goles
Devagarinho
Eleges-me raínha
Em trono dourado.
Dizes-te por dentro o meu amado
Esboças por dentro um sorriso.
E eu vivo fora
Porque de fora sou
Exuberante como escarlate rosa
Fora ao relento sob o céu estrelado
Fora ao orvalho da doce madrugada
Dentro da lua e assim me dou.
Quero ver dentro e às vezes não posso
Quero-te abraçar e às vezes não ouso
Quero-te falar e os lábios cerram
E fico contigo como barco em porto
Enroscada aos sentires no ninho que é nosso.
Olhas-me em silêncio
Sonhas-me calado
Sonho-te dormindo
Sinto-te a meu lado.
Dor da partida
Sento-me no chão para te sentir mais perto
Descalça te caminho, com o passo certo
De nevoeiros me visto, de vestes despida
Sinto-te por drento, choro-te na despedida
Estendo os meus braços num abraço infindo
E assim fico, pensando estar contigo
Ah, se tu soubesses quanto me doi o peito
Ao partir agora, sempre deste jeito
Mas hei-de voltar, prometo-te e juro
Para ancorar em porto seguro
Dedos cruzados beijo, selando a promessa
Para que me esperes, me abraces sem pressa.
Ó terra querida se me quisesses tanto
Quanto eu te quero,e que te deixo em pranto
Prendias-me a uma laçada, na argola da vida
Não me deixavas ir e davas-me guarida
Ó maio
Ó Maio florido
Que me vais trazendo
Ano após ano
As cores do Outono
Veste-me de folhas
Que me vão aquecendo
As noites, os dias
Que me vão correndo
Veste-me de flores
Mesmo que seja Inverno!
Perfuma-me com odores
De estevas e giestas
De rosas bravas e de madressilva
Põe-me na cabeça
Uma grinalda de flores
Veste-me de Maio
Mesmo que sinta dores
Veste-me de cores
Mesmo que seja Inverno!
Meu rio d´ouro
Doce rio a ti não desço
encalhado entre rochedos
olho-te de cima a tremer
eu bem te queria descer
mas no corpo brota-me o medo.
As vertigens
puxam-me tanto
que eu tenho que recuar
meu rio, meu amado
parto logo para outro lado
embora me apeteça ficar.
Um dia encher-me-ei de coragem
para descer os carreiros
salto os rochedos
e sem medo de rebolar
abraço as tuas margens
sigo contigo a viajar.
Meu rio tão sinuoso
e logo abaixo sereno
cavaste vales
desditoso
neste planalto rugoso
mas é aqui que és mais belo.