O SOL LÁ FORA
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu esplendor
Brilha que brilha
Das alturas qual favor!
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu encanto
Brilha que brilha
Das alturas brilhando tanto
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre montes e vales
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre todos os males
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre áfrika e o mundo
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre mim vagabundo.
Alberto Secama 11 de Janeiro de 1998
O MAKONGO DE ZAMBA
Zillah, a esposa, ao vê-lo partir
Em pranto, desatou a lamentar:
" Zamba, por que tanto queres ir
Para tão longe passear?"
Um tal de Winton
Era capitão, e o convidara
A acompanhá-lo à Inglaterra, depois ao Congo
Tramado, numa palntação em Charleston
Quarenta anos, foi quanto lhe custara
O passeio que deu num grande makongo
Alberto Secama 28-Jul-18
PERGUNTEM AO PRUDÊNCIO
Perguntem ao Prudêncio Vital de Lemos
Crudelíssimo capitão do " Feliz Destino "
Se para tanto, o que foi que lhe fizemos?
Se não, por que ousou ser desumano?
Perguntem ao Prudêncio Vital
Crudelíssimo capitão
Se para tanto mal
Qual foi a razão?
Perguntem ao senhor Prudêncio
Crudelíssimo capitão de navio
Se ao invés do fundo do mar
Os 39 não mereciam outro lugar?
Alberto Secama 17-Ago-18
Nota: De todas as viagens do navio negreiro Feliz Destino, a mais mortal foi a de 1821, conduzida pelo capitão Prudêncio Vital de Lemos; dos 416 escravos colhidos a força no oeste de África, apenas 377 chegaram
BAQUAQUA EM CASA DO AMO PADEIRO
Em geral, nas ruas, Baquaqua vendia
Todíssima produção do pão que fazia
Mas, se por acaso, caísse o facturamento
A punição era " chicotes naquele momento "
Em casa do amo padeiro
Baquaqua, o escravo de tabuleiro
Com outros quatro, partilhava o inferno
De trabalhar o dia todo, até as nove da noite
Em casa daquele português católico
Qual desatenção ou sonolência
Eram desaconselhados p'lo comprido açoite
Na hora dos cultos, qu'eram dois por dia;
O sinal da cruz, que tinham de fazer
E palavras estranhas pronunciar
Tão rápido, Baquaqua s'esforçou a entender
E a língua de Camões, cedo aprendeu a falar
Mas, depois d'incontáveis surras
Não fosse o álcool, que passou a beber sem freio
Baquaqua, meu kamba de quantas amarguras
Considerado um "caso difícil", foi revendido
Para um capitão de navio
Alberto Secama 17-Ago-18
EM OLINDA, BAQUAQUA TORNOU-SE ESCRAVO DE TABULEIRO
[ Em homenagem a Mahommah Gardo Baquaqua ]
Trocados por rum, tabaco
E muitas outras mercadorias
À bordo, para o Brasil, em Pernambuco
Pára mim, Baquaqua chorou ao desabafar
Do que viveu em mil agonias
Enfiado no porão daquele navio:
- " Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar
nunca serão apagados da minha memória "
Pela primeira vez, as laranjas que viu
Foi na costa, após o navio tumbeiro atracar
À escassos metros da majestosa residência
Cuj'ornamentação d'humanos crânios
A um Senhor d'imensos feudos pertencia
Marcados a ferro quente
Aí ficámos à venda
Até chegar de Olinda
Um comprador português, que era padeiro
E lá, a zungar pálas ruas, os pães que fazia
Baquaqua tornou-se escravo de tabuleiro
Alberto Secama 08-Agosto-18
MOTIM À BORDO
Dizem que eram cinquenta e três
Sob o comando bravo de Cinqué, o escol
Da tribo de Mende, qual varão serra leonês!
A muitas milhas para lá da costa de Cuba
Firme, estava o mastro do navio espanhol
Quando o capitão gritou: "Deus, por favor nos acuda!"
Com as amarras quebradas, o bravo da tribo de Mende
Com um macete, desferiu um golpe na barriga grande
Do pobre capitão, que ficou estendido ao chão
Onde jaziam falecidos, metade da sua tripulação
Dos restantes, rendeu-se também o navegador experiente
A quem Cinqué ordenou meia-volta, para África
Mas ele, de tão astuto, velejou para outro continente
Alberto Secama 03-Ago-18
AS ANGÚSTIAS DE ANGÉLICA
[ Em homenagem a Maria Josefa "Angélica" ]
Incubada no porão, de Áfrika trazida
Germinou a semente Maria Josefa "Angélica"
Em mil e setecentos, na ilha da Madeira
Do Senhor Nicolas Bleeker foi escolha preferida
Depois, de François Poulin de Francheville, cuja morte trágica
Fê-la posse de Théresè de Francheville, a viúva herdeira
Em Montreal, na pequena plantação da sua Senhora
Dos coitos que teve com o vassalo Jacques cesar
Três sementes, Angélica bem viu germinar:
Um rapaz e duas gêmeas, que cedo a morte deitou fora
Cansada de ser coisa e não pessoa
Na demorada ausência da sua patroa
Em viagem, no afã de cuidar do património familiar
No celeiro da fazenda ao lado, Angélica foi-se refugiar
Para daí encentar fuga, mas muito era o frio
Assim quis o inverno; gélida, estava a água do rio
Que ela, na vã espera que a temperatura fosse aumentar
E ao atravessá-lo, livre ver-se-ia
Não tardou receber a visita dos três capitães da milícia
Devolvida à senhora Théresè, sua dona
Que já se via à rasca com a escrava refilona
Por 600 libras de pólvora com que se propôs adquiri-la
O senhor Cugnet, de Quebec, talvez por isso, o temor
De mais tarde, embarcar rumo às Antilhas
Fê-la estar mais destemida e não tranquila
Mas o fogo, naquela noite de sábado, quem foi lá pôr?
No chalé ao lado, a chama incendiária na cozinha, as chaminés sujas
Foi ou não, desleixo de Marie-Manon, quem espalhou o vago rumor?
Ante o juíz de Montreal, sob as sevícias de Mathieu Leveillé
O "mestre de tortura" que manuseava o polé da colónia
Angélica, sem demora respondeu: "sim, fui eu!"
Defronte as ruínas do fogo e a frontaria da Igreja, era bué
A turba à volta do bailéu, abaixo da forca, onde se despedia
Mais uma filha entre muitas que Áfrika assim perdeu
Alberto Secama 01 Agosto 2018
EU, ZEMBOLA E CUGOANO EMBAIXO DO CONVÉS
[ Em homenagem à Zamba Zembola e Ottobah Cugoano ]
Embaixo do convés
Quem não cantou os choros
Enquanto a masmorra e o açoite
Escamaram do pescoço aos pés
Da negra pele quais desaforos
Quase matei aquele brutamontes
Não fosse tu, ó irmão Zembola
De pressa arrear meus braços
E tu também, ó irmão Cugoano
Sempre calmo, qual bússola
Naquele instante, qu'entre soluços
Apenas quis exprimir o dano
Em ser arrancado da minha terra: Angola
Alberto Secama 19-Jul-18
DIAFORESE
As pedras que foste colocar
Nos alicerces pálo mundo afora
Me fazem merecer o chão
Qu'eles m'impedem de pisar
Não fosse a cangalha em que se transformara
Meu mundo por meio da escravidão
" A Depressão " que aprendeste a cantar
À bordo de negreiras embarcações
Me faz entender a coisa diabólica
Que foram as travessias difíceis, em alto-mar
E o ardor do Sol, nas vastas plantações
Onde na terra, se meteram sementes d'África
O doce de nostalgia com amarga calda
É a labiríntica herança do dia
Que parecia nunca ter fim
Mas, depois de tirada a nojenta fralda
Vê-se agora, claramente, a diaforese da poesia
Que acaba de sair de dentro de mim
Alberto Secama 23 de Junho de 2018
NOS BAIRROS IMUNDOS DA PERIFERIA
Notícias de violação sexual
E assaltos à mão-armada
Recheiam as páginas do jornal
Qu'informa a multidão deseperada
Disparos de arma de fogo
Ouvem-se com doentia frequência
E os cadáveres, ao léu, qual sôo oco
Nos bairros imundos da periferia
Às largas, pelas ruas, está a incerteza a deambular
Nos bairros famigerados da periferia
Onde o luto é um pomar
E a dor, geme deliciosa melodia
No infinito adeus, aos que vão a enterrar
Com o descaso da autoridade policial
A insónia que agora implode
Nos corações aflitos da multidão
À quem, somente o favor de Deus acode
Senão p'las próprias mãos, quem fará
A justiça qu'inexiste cá?
Alberto Secama 25 de Agosto de 2018