CÃO MORTO
Em plena rodovia
Por que passa um belo Mercedes
Sem vida, jaz um cão vadio
Onde os vermes ao banquete, até arrepia
Saber que só vós não vedes
Que a moral já se degrada anos a fio
Alberto Secama 04-Set-18
BOA INTENÇÃO
Ó Guimarães Costa!
Por que deste o seu assento
Para o Anacleto Ferreira?
O que fizestes, foi coisa que não presta
A passeio? É claro que não, depois do julgamento
Num calabouço em Benguela, Cosme Damião Pereira
Preso e torturado, a dez anos d'exílio
Foi condenado p'la " Revolta dos Alfaiates "
E no caminho, foi " Boa Intenção "
Talvez com ess'outro navio
Tenha cruzado, e sem rebates
Para o Rio de Janeiro, seguiu então
Ó capitão Guimarães!
Por que deste ao Anacleto
O comando da " Boa intenção?"
Ouve agora, o choro das Mães
Cujos filhos, como tralha, no porão repleto
À força, levastes para o mundo da escravidão!
Alberto Secama 03 de Setembro de 2018
VINDICTAS ERUPÇÕES
Ao chão, plásticos, papéis e metais
À mistura, sucatas, pneus estragados e sujos pedaços de pano
Em meio a ecossistemas naturais
De cuja laxação escapa natural
O inflamável gás metano
Triatómica, é a variedade alterada do oxigénio, pela acção
De descargas eléctricas nas alturas
Cujo estrago total, com o inventar da máquina à vapor
E o desenvolver da indústria, começou então
O prenúncio de que as gerações futuras
Viveriam no claustro do climatérico pavor
Às vezes, com os abusos, parece que se conforma
Quando nas florestas, indiscriminadamente aos milhões
Patógenos abates, exacerbam o enfisema pulmonar
Do planeta azul, cuja fúria é o magma
Que nada poupa e tudo consome em vindictas erupções
Alberto Secama 15 de Julho de 2015
AS ANGÚSTIAS DE ANGÉLICA
[ Em homenagem a Maria Josefa "Angélica" ]
Incubada no porão, de Áfrika trazida
Germinou a semente Maria Josefa "Angélica"
Em mil e setecentos, na ilha da Madeira
Do Senhor Nicolas Bleeker foi escolha preferida
Depois, de François Poulin de Francheville, cuja morte trágica
Fê-la posse de Théresè de Francheville, a viúva herdeira
Em Montreal, na pequena plantação da sua Senhora
Dos coitos que teve com o vassalo Jacques cesar
Três sementes, Angélica bem viu germinar:
Um rapaz e duas gêmeas, que cedo a morte deitou fora
Cansada de ser coisa e não pessoa
Na demorada ausência da sua patroa
Em viagem, no afã de cuidar do património familiar
No celeiro da fazenda ao lado, Angélica foi-se refugiar
Para daí encentar fuga, mas muito era o frio
Assim quis o inverno; gélida, estava a água do rio
Que ela, na vã espera que a temperatura fosse aumentar
E ao atravessá-lo, livre ver-se-ia
Não tardou receber a visita dos três capitães da milícia
Devolvida à senhora Théresè, sua dona
Que já se via à rasca com a escrava refilona
Por 600 libras de pólvora com que se propôs adquiri-la
O senhor Cugnet, de Quebec, talvez por isso, o temor
De mais tarde, embarcar rumo às Antilhas
Fê-la estar mais destemida e não tranquila
Mas o fogo, naquela noite de sábado, quem foi lá pôr?
No chalé ao lado, a chama incendiária na cozinha, as chaminés sujas
Foi ou não, desleixo de Marie-Manon, quem espalhou o vago rumor?
Ante o juíz de Montreal, sob as sevícias de Mathieu Leveillé
O "mestre de tortura" que manuseava o polé da colónia
Angélica, sem demora respondeu: "sim, fui eu!"
Defronte as ruínas do fogo e a frontaria da Igreja, era bué
A turba à volta do bailéu, abaixo da forca, onde se despedia
Mais uma filha entre muitas que Áfrika assim perdeu
Alberto Secama 01 Agosto 2018
BÂTEGA
Às escâncaras
O céu cinzento e falto de vergonha
Dá espirros esganiçados
E sobre o zinco dos casebres
Especados no chão da montanha
Cai arrogante, a bâtega
Impregnando dáacrimoniosos vapores
Até à pulverulenta substância do solo
Depois dáoligarca bâtega
Com o medo que está agora
A atmosfera humedecida
Até quando essa vida
Misérrima e cheia do que só apavora?
Alberto Secama 14 de Agosto de 2015
O SOL LÁ FORA
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu esplendor
Brilha que brilha
Das alturas qual favor!
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu encanto
Brilha que brilha
Das alturas brilhando tanto
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre montes e vales
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre todos os males
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre áfrika e o mundo
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre mim vagabundo.
Alberto Secama 11 de Janeiro de 1998
ZILLAH AO ENCONTRO DE ZAMBA
Em Charleston, era grande a saudade
Que Zamba, de Zillah sentia
E nas margens do rio Congo, dia após dia
Sentada, Zillah esperava vê-lo de volta
À noite, deitada, imensa era a falta
Que Zamba, seu amor, tanto lhe fazia
Por isso, uma coisa apenas dizia:
" Se d'América, o navio que chegar
Eu juro, hei de m'entregar "
Ao ver atracar " The Hunter "
Proveniente do estado da Carolina
Zillah, sem medo, em surdina
No porão foi se esconder
Por entre o vasto amontoado
Do lastro a base de ferro
Naquele porão bué fundo
Bastou num velho estrado
O prego saliente, e o cheiro a esturro
Para fazê-la suspirar "ah, que lugar imundo!"
Em Charleston, como ígneas chamas
Rápido s'espalhavam as notícias
D'embarcações prestes a chegar
E Zamba foi também, ver as almas
Todas negras de quantas agonias
Fatigadas da sempre difícil travessia
Do porão, à granel, a carga viva saía
Quando em alto sôo
Do fundo uma voz ele ouviu:
- " Zamba, meu amor! "
E num salto, qual vôo
O vendaval d'emoções qu'ele sentiu
Naquele abraço tão forte
Foi mesmo uma grande sorte
Alberto secama 21-Ago-18
PERDOA-ME SENHOR
Perdoa-me Senhor
Pelo uso impróprio
Do dom da palavra
E pála mágoa no coração
Por isso tornado frio
Pela falta de fé
E exagerada vaidade
Quando tudo isso, mais não é
Do que falta de humildade
Obrigado Senhor,
Por mais um dia
Poder estar sobre esta terra
Embora de males tão cheia
Poder gozar de saúde boa
E do suor do meu rosto
Comer o digno pedaço
De broa
Com gosto
Poder desbravar
Este solo que um dia
Há de má acolher
Quando o fôlego me faltar
Alberto Secama 26 de Julho de 2015
EM OLINDA, BAQUAQUA TORNOU-SE ESCRAVO DE TABULEIRO
[ Em homenagem a Mahommah Gardo Baquaqua ]
Trocados por rum, tabaco
E muitas outras mercadorias
À bordo, para o Brasil, em Pernambuco
Pára mim, Baquaqua chorou ao desabafar
Do que viveu em mil agonias
Enfiado no porão daquele navio:
- " Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar
nunca serão apagados da minha memória "
Pela primeira vez, as laranjas que viu
Foi na costa, após o navio tumbeiro atracar
À escassos metros da majestosa residência
Cuj'ornamentação d'humanos crânios
A um Senhor d'imensos feudos pertencia
Marcados a ferro quente
Aí ficámos à venda
Até chegar de Olinda
Um comprador português, que era padeiro
E lá, a zungar pálas ruas, os pães que fazia
Baquaqua tornou-se escravo de tabuleiro
Alberto Secama 08-Agosto-18
ZONG
Dáescravos cruelmente cheio
Estava o habituado porão
De Zong, o maldito navio
Da sanguinária baldeação
Da costa da Ilha de São Tomé
Na margens do oeste africano
À todo vapor, para o arquipélago jamaicano
Zong, o maldito navio
Pôs-se a navegar
E o total de cento e trinta e três
Foi o magote feudatário
Que ao abisso do Atlântico mar
Crudelíssimo capitão mandou atirar
Qual não fosse o surto deletério
Por vontade própria, em seguida
Ao mar, lançou-se uma dezena enfurecida!
Com grilhtetas amarradas nos tornozelos
Ó Deus, quão horrível e brutal
Enquanto o Atlântico, com seus próprios olhos
Via o trato que o homem dava ao seu igual!
Alberto Secama 04 de Setembro de 2015