CÃO MORTO
Em plena rodovia
Por que passa um belo Mercedes
Sem vida, jaz um cão vadio
Onde os vermes ao banquete, até arrepia
Saber que só vós não vedes
Que a moral já se degrada anos a fio
Alberto Secama 04-Set-18
BOA INTENÇÃO
Ó Guimarães Costa!
Por que deste o seu assento
Para o Anacleto Ferreira?
O que fizestes, foi coisa que não presta
A passeio? É claro que não, depois do julgamento
Num calabouço em Benguela, Cosme Damião Pereira
Preso e torturado, a dez anos d'exílio
Foi condenado p'la " Revolta dos Alfaiates "
E no caminho, foi " Boa Intenção "
Talvez com ess'outro navio
Tenha cruzado, e sem rebates
Para o Rio de Janeiro, seguiu então
Ó capitão Guimarães!
Por que deste ao Anacleto
O comando da " Boa intenção?"
Ouve agora, o choro das Mães
Cujos filhos, como tralha, no porão repleto
À força, levastes para o mundo da escravidão!
Alberto Secama 03 de Setembro de 2018
O SOL LÁ FORA
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu esplendor
Brilha que brilha
Das alturas qual favor!
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu encanto
Brilha que brilha
Das alturas brilhando tanto
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre montes e vales
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre todos os males
O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre áfrika e o mundo
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre mim vagabundo.
Alberto Secama 11 de Janeiro de 1998
ALBÍZZIA LEBBECK
Da família das leguminosas
Chamam-lhe Albízzia Lebbeck
DáÁfrica, sua terra natal
Levou-a Dom João VI , para o Brasil
Onde as suas cascas para curtume
Para indústria a sua madeira
E sua folhagem forrageira
São os seus donativos
De aspecto agradável
É a sua folhagem, com flores
Tão pouco visíveis; os frutos dáafro sabores
Que pelo número e dimensão
São vagens amarelas e delgadas
Porém, bastante alongadas
Como longa se tornou a lição
Do pernoite que durou
Quinhentos anos de escravidão
Alberto Secama 19 de Julho de 2015
RITMO RITMADO DE JAZZ
Simples simplicíssima
Doce mensagem quáés minháalma
Num ritmo ritmado de Jazz
Aqui distante ou além próximo
Só um negro nigérrimo
Sabe o ritmo sincopado que paz
Quero como sempre quis
Querendo quão bem te fiz
Um ritmo ritmado de Jazz
Que só o faz um negro negrão
Cá sem dita ou lá suspicaz
Sabe por que entoa triste canção
Ritmo titmado de Jazz
Tem triste tristeza de quem o bem-faz
Quáimporta a hora ou o lugar
Se a negra negrura da negridão
Só um negro saberá negrejar?
Alberto Secama 05 de Agosto de 2018
AS ANGÚSTIAS DE ANGÉLICA
[ Em homenagem a Maria Josefa "Angélica" ]
Incubada no porão, de Áfrika trazida
Germinou a semente Maria Josefa "Angélica"
Em mil e setecentos, na ilha da Madeira
Do Senhor Nicolas Bleeker foi escolha preferida
Depois, de François Poulin de Francheville, cuja morte trágica
Fê-la posse de Théresè de Francheville, a viúva herdeira
Em Montreal, na pequena plantação da sua Senhora
Dos coitos que teve com o vassalo Jacques cesar
Três sementes, Angélica bem viu germinar:
Um rapaz e duas gêmeas, que cedo a morte deitou fora
Cansada de ser coisa e não pessoa
Na demorada ausência da sua patroa
Em viagem, no afã de cuidar do património familiar
No celeiro da fazenda ao lado, Angélica foi-se refugiar
Para daí encentar fuga, mas muito era o frio
Assim quis o inverno; gélida, estava a água do rio
Que ela, na vã espera que a temperatura fosse aumentar
E ao atravessá-lo, livre ver-se-ia
Não tardou receber a visita dos três capitães da milícia
Devolvida à senhora Théresè, sua dona
Que já se via à rasca com a escrava refilona
Por 600 libras de pólvora com que se propôs adquiri-la
O senhor Cugnet, de Quebec, talvez por isso, o temor
De mais tarde, embarcar rumo às Antilhas
Fê-la estar mais destemida e não tranquila
Mas o fogo, naquela noite de sábado, quem foi lá pôr?
No chalé ao lado, a chama incendiária na cozinha, as chaminés sujas
Foi ou não, desleixo de Marie-Manon, quem espalhou o vago rumor?
Ante o juíz de Montreal, sob as sevícias de Mathieu Leveillé
O "mestre de tortura" que manuseava o polé da colónia
Angélica, sem demora respondeu: "sim, fui eu!"
Defronte as ruínas do fogo e a frontaria da Igreja, era bué
A turba à volta do bailéu, abaixo da forca, onde se despedia
Mais uma filha entre muitas que Áfrika assim perdeu
Alberto Secama 01 Agosto 2018
NOS BAIRROS IMUNDOS DA PERIFERIA
Notícias de violação sexual
E assaltos à mão-armada
Recheiam as páginas do jornal
Qu'informa a multidão deseperada
Disparos de arma de fogo
Ouvem-se com doentia frequência
E os cadáveres, ao léu, qual sôo oco
Nos bairros imundos da periferia
Às largas, pelas ruas, está a incerteza a deambular
Nos bairros famigerados da periferia
Onde o luto é um pomar
E a dor, geme deliciosa melodia
No infinito adeus, aos que vão a enterrar
Com o descaso da autoridade policial
A insónia que agora implode
Nos corações aflitos da multidão
À quem, somente o favor de Deus acode
Senão p'las próprias mãos, quem fará
A justiça qu'inexiste cá?
Alberto Secama 25 de Agosto de 2018
VINDICTAS ERUPÇÕES
Ao chão, plásticos, papéis e metais
À mistura, sucatas, pneus estragados e sujos pedaços de pano
Em meio a ecossistemas naturais
De cuja laxação escapa natural
O inflamável gás metano
Triatómica, é a variedade alterada do oxigénio, pela acção
De descargas eléctricas nas alturas
Cujo estrago total, com o inventar da máquina à vapor
E o desenvolver da indústria, começou então
O prenúncio de que as gerações futuras
Viveriam no claustro do climatérico pavor
Às vezes, com os abusos, parece que se conforma
Quando nas florestas, indiscriminadamente aos milhões
Patógenos abates, exacerbam o enfisema pulmonar
Do planeta azul, cuja fúria é o magma
Que nada poupa e tudo consome em vindictas erupções
Alberto Secama 15 de Julho de 2015
PERGUNTEM AO PRUDÊNCIO
Perguntem ao Prudêncio Vital de Lemos
Crudelíssimo capitão do " Feliz Destino "
Se para tanto, o que foi que lhe fizemos?
Se não, por que ousou ser desumano?
Perguntem ao Prudêncio Vital
Crudelíssimo capitão
Se para tanto mal
Qual foi a razão?
Perguntem ao senhor Prudêncio
Crudelíssimo capitão de navio
Se ao invés do fundo do mar
Os 39 não mereciam outro lugar?
Alberto Secama 17-Ago-18
Nota: De todas as viagens do navio negreiro Feliz Destino, a mais mortal foi a de 1821, conduzida pelo capitão Prudêncio Vital de Lemos; dos 416 escravos colhidos a força no oeste de África, apenas 377 chegaram
DIAFORESE
As pedras que foste colocar
Nos alicerces pálo mundo afora
Me fazem merecer o chão
Qu'eles m'impedem de pisar
Não fosse a cangalha em que se transformara
Meu mundo por meio da escravidão
" A Depressão " que aprendeste a cantar
À bordo de negreiras embarcações
Me faz entender a coisa diabólica
Que foram as travessias difíceis, em alto-mar
E o ardor do Sol, nas vastas plantações
Onde na terra, se meteram sementes d'África
O doce de nostalgia com amarga calda
É a labiríntica herança do dia
Que parecia nunca ter fim
Mas, depois de tirada a nojenta fralda
Vê-se agora, claramente, a diaforese da poesia
Que acaba de sair de dentro de mim
Alberto Secama 23 de Junho de 2018