BAQUAQUA EM CASA DO AMO PADEIRO
Em geral, nas ruas, Baquaqua vendia
Todíssima produção do pão que fazia
Mas, se por acaso, caísse o facturamento
A punição era " chicotes naquele momento "
Em casa do amo padeiro
Baquaqua, o escravo de tabuleiro
Com outros quatro, partilhava o inferno
De trabalhar o dia todo, até as nove da noite
Em casa daquele português católico
Qual desatenção ou sonolência
Eram desaconselhados p'lo comprido açoite
Na hora dos cultos, qu'eram dois por dia;
O sinal da cruz, que tinham de fazer
E palavras estranhas pronunciar
Tão rápido, Baquaqua s'esforçou a entender
E a língua de Camões, cedo aprendeu a falar
Mas, depois d'incontáveis surras
Não fosse o álcool, que passou a beber sem freio
Baquaqua, meu kamba de quantas amarguras
Considerado um "caso difícil", foi revendido
Para um capitão de navio
Alberto Secama 17-Ago-18
KIMPA VITA
[ À memória de Kimpa Vita ]
Nas terras do Kongo dya Ntotila
Monte Kibango te viu nascer
Ó destemida filha de fala tranquila
Nganga Marinda do clã Mwana Kongo
No " Antonianismo ", tua crença deste a conhecer
Aos dogmas da fé católica, foste contrária
" Herege! " - a morte condenou-te o clero
Viva, no fogo que tanto ardia
Ainda assim, teu adeus foi sincero
Agora, profundo que é o sono
De louros coroada, na eterna glória
Descansa esquecida do imundo colono
Alberto Secama 13 de Setembro de 2015
LIVRO NUNCA FOLHEADO
No misto de poeira
Que repousa serena
Sobre a velha estante
Encostada, à parede pouco resistente
Da sala apertada de tão pequena
Para a mobília fora de moda
Há tanta bicharia
Como que numa boda
A degustar com insaciável folia
A liberdade da poesia
Nas folhas, em papel reciclado
Dum livro nunca folheado
Alberto Secama 04 de Agosto de 2015
RITMO RITMADO DE JAZZ
Simples simplicíssima
Doce mensagem quáés minháalma
Num ritmo ritmado de Jazz
Aqui distante ou além próximo
Só um negro nigérrimo
Sabe o ritmo sincopado que paz
Quero como sempre quis
Querendo quão bem te fiz
Um ritmo ritmado de Jazz
Que só o faz um negro negrão
Cá sem dita ou lá suspicaz
Sabe por que entoa triste canção
Ritmo titmado de Jazz
Tem triste tristeza de quem o bem-faz
Quáimporta a hora ou o lugar
Se a negra negrura da negridão
Só um negro saberá negrejar?
Alberto Secama 05 de Agosto de 2018
RAPTO
[Em homenagem à Olaudah Equiano]
Olaudah, ainda menino
Com sua irmã e outros petizes
Enquanto brincavam n'aldeia
Um rapto mudou-lhes o destino
E para Bridgetown, Barbados
Em quanta angústia
De Igboland, o Atlântico viu-os partir
Entre 244 cruelmente acorrentados
No apertadíssimo porão
De Ogden, a negreira embarcação
Dias depois, para a Virgínia
Nas margens do rio York
Partiu o miúdo Equiano
Com a alma podre e fria
À bordo de Nancy
Com os pés descalços
E a pesada bagagem
No imaginário sem norte
Equiano calcou no solo americano
O medo da morte
Nada mais temia
E nada mais sentia
Nem dor nem alegria
Alberto Secama 27 de Setembro de 2015
PERGUNTEM AO PRUDÊNCIO
Perguntem ao Prudêncio Vital de Lemos
Crudelíssimo capitão do " Feliz Destino "
Se para tanto, o que foi que lhe fizemos?
Se não, por que ousou ser desumano?
Perguntem ao Prudêncio Vital
Crudelíssimo capitão
Se para tanto mal
Qual foi a razão?
Perguntem ao senhor Prudêncio
Crudelíssimo capitão de navio
Se ao invés do fundo do mar
Os 39 não mereciam outro lugar?
Alberto Secama 17-Ago-18
Nota: De todas as viagens do navio negreiro Feliz Destino, a mais mortal foi a de 1821, conduzida pelo capitão Prudêncio Vital de Lemos; dos 416 escravos colhidos a força no oeste de África, apenas 377 chegaram
MOTIM À BORDO
Dizem que eram cinquenta e três
Sob o comando bravo de Cinqué, o escol
Da tribo de Mende, qual varão serra leonês!
A muitas milhas para lá da costa de Cuba
Firme, estava o mastro do navio espanhol
Quando o capitão gritou: "Deus, por favor nos acuda!"
Com as amarras quebradas, o bravo da tribo de Mende
Com um macete, desferiu um golpe na barriga grande
Do pobre capitão, que ficou estendido ao chão
Onde jaziam falecidos, metade da sua tripulação
Dos restantes, rendeu-se também o navegador experiente
A quem Cinqué ordenou meia-volta, para África
Mas ele, de tão astuto, velejou para outro continente
Alberto Secama 03-Ago-18
EU, ZEMBOLA E CUGOANO EMBAIXO DO CONVÉS
[ Em homenagem à Zamba Zembola e Ottobah Cugoano ]
Embaixo do convés
Quem não cantou os choros
Enquanto a masmorra e o açoite
Escamaram do pescoço aos pés
Da negra pele quais desaforos
Quase matei aquele brutamontes
Não fosse tu, ó irmão Zembola
De pressa arrear meus braços
E tu também, ó irmão Cugoano
Sempre calmo, qual bússola
Naquele instante, qu'entre soluços
Apenas quis exprimir o dano
Em ser arrancado da minha terra: Angola
Alberto Secama 19-Jul-18
NOS BAIRROS IMUNDOS DA PERIFERIA
Notícias de violação sexual
E assaltos à mão-armada
Recheiam as páginas do jornal
Qu'informa a multidão deseperada
Disparos de arma de fogo
Ouvem-se com doentia frequência
E os cadáveres, ao léu, qual sôo oco
Nos bairros imundos da periferia
Às largas, pelas ruas, está a incerteza a deambular
Nos bairros famigerados da periferia
Onde o luto é um pomar
E a dor, geme deliciosa melodia
No infinito adeus, aos que vão a enterrar
Com o descaso da autoridade policial
A insónia que agora implode
Nos corações aflitos da multidão
À quem, somente o favor de Deus acode
Senão p'las próprias mãos, quem fará
A justiça qu'inexiste cá?
Alberto Secama 25 de Agosto de 2018
ALBÍZZIA LEBBECK
Da família das leguminosas
Chamam-lhe Albízzia Lebbeck
DáÁfrica, sua terra natal
Levou-a Dom João VI , para o Brasil
Onde as suas cascas para curtume
Para indústria a sua madeira
E sua folhagem forrageira
São os seus donativos
De aspecto agradável
É a sua folhagem, com flores
Tão pouco visíveis; os frutos dáafro sabores
Que pelo número e dimensão
São vagens amarelas e delgadas
Porém, bastante alongadas
Como longa se tornou a lição
Do pernoite que durou
Quinhentos anos de escravidão
Alberto Secama 19 de Julho de 2015