Alberto Secama

Alberto Secama

n. 1978 AO AO

n. 1978-03-03, Angola

Perfil
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CÃO MORTO

Em plena rodovia
Por que passa um belo Mercedes
Sem vida, jaz um cão vadio
Onde os vermes ao banquete, até arrepia
Saber que só vós não vedes
Que a moral já se degrada anos a fio


Alberto Secama 04-Set-18



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Poemas

22

MOTIM À BORDO

Dizem que eram cinquenta e três
Sob o comando bravo de Cinqué, o escol
Da tribo de Mende, qual varão serra leonês!

A muitas milhas para lá da costa de Cuba
Firme, estava o mastro do navio espanhol
Quando o capitão gritou: "Deus, por favor nos acuda!"

Com as amarras quebradas, o bravo da tribo de Mende
Com um macete, desferiu um golpe na barriga grande
Do pobre capitão, que ficou estendido ao chão
Onde jaziam falecidos, metade da sua tripulação

Dos restantes, rendeu-se também o navegador experiente
A quem Cinqué ordenou meia-volta, para África
Mas ele, de tão astuto, velejou para outro continente

Alberto Secama 03-Ago-18
322

PERDOA-ME SENHOR

Perdoa-me Senhor
Pelo uso impróprio
Do dom da palavra
E pála mágoa no coração
Por isso tornado frio

Pela falta de fé
E exagerada vaidade
Quando tudo isso, mais não é
Do que falta de humildade

Obrigado Senhor,
Por mais um dia
Poder estar sobre esta terra
Embora de males tão cheia

Poder gozar de saúde boa
E do suor do meu rosto
Comer o digno pedaço
De broa
Com gosto

Poder desbravar
Este solo que um dia
Há de má acolher
Quando o fôlego me faltar

Alberto Secama 26 de Julho de 2015
321

EU, ZEMBOLA E CUGOANO EMBAIXO DO CONVÉS

[ Em homenagem à Zamba Zembola e Ottobah Cugoano ]

Embaixo do convés
Quem não cantou os choros
Enquanto a masmorra e o açoite
Escamaram do pescoço aos pés
Da negra pele quais desaforos
Quase matei aquele brutamontes
Não fosse tu, ó irmão Zembola
De pressa arrear meus braços
E tu também, ó irmão Cugoano
Sempre calmo, qual bússola
Naquele instante, qu'entre soluços
Apenas quis exprimir o dano
Em ser arrancado da minha terra: Angola

Alberto Secama 19-Jul-18

309

BÂTEGA

Às escâncaras
O céu cinzento e falto de vergonha
Dá espirros esganiçados
E sobre o zinco dos casebres
Especados no chão da montanha
Cai arrogante, a bâtega
Impregnando dáacrimoniosos vapores
Até à pulverulenta substância do solo

Depois dáoligarca bâtega
Com o medo que está agora
A atmosfera humedecida
Até quando essa vida
Misérrima e cheia do que só apavora?


Alberto Secama 14 de Agosto de 2015
282

BAQUAQUA EM CASA DO AMO PADEIRO

Em geral, nas ruas, Baquaqua vendia
Todíssima produção do pão que fazia
Mas, se por acaso, caísse o facturamento
A punição era " chicotes naquele momento "

Em casa do amo padeiro
Baquaqua, o escravo de tabuleiro
Com outros quatro, partilhava o inferno
De trabalhar o dia todo, até as nove da noite

Em casa daquele português católico
Qual desatenção ou sonolência
Eram desaconselhados p'lo comprido açoite
Na hora dos cultos, qu'eram dois por dia;

O sinal da cruz, que tinham de fazer
E palavras estranhas pronunciar
Tão rápido, Baquaqua s'esforçou a entender
E a língua de Camões, cedo aprendeu a falar

Mas, depois d'incontáveis surras
Não fosse o álcool, que passou a beber sem freio
Baquaqua, meu kamba de quantas amarguras
Considerado um "caso difícil", foi revendido
Para um capitão de navio

Alberto Secama 17-Ago-18
332

RAPTO

[Em homenagem à Olaudah Equiano]

Olaudah, ainda menino
Com sua irmã e outros petizes
Enquanto brincavam n'aldeia
Um rapto mudou-lhes o destino
E para Bridgetown, Barbados
Em quanta angústia
De Igboland, o Atlântico viu-os partir
Entre 244 cruelmente acorrentados
No apertadíssimo porão
De Ogden, a negreira embarcação

Dias depois, para a Virgínia
Nas margens do rio York
Partiu o miúdo Equiano
Com a alma podre e fria
À bordo de Nancy

Com os pés descalços
E a pesada bagagem
No imaginário sem norte
Equiano calcou no solo americano
O medo da morte

Nada mais temia
E nada mais sentia
Nem dor nem alegria

Alberto Secama 27 de Setembro de 2015
308

ZONG

Dáescravos cruelmente cheio
Estava o habituado porão
De Zong, o maldito navio
Da sanguinária baldeação

Da costa da Ilha de São Tomé
Na margens do oeste africano
À todo vapor, para o arquipélago jamaicano
Zong, o maldito navio
Pôs-se a navegar
E o total de cento e trinta e três
Foi o magote feudatário
Que ao abisso do Atlântico mar
Crudelíssimo capitão mandou atirar
Qual não fosse o surto deletério
Por vontade própria, em seguida
Ao mar, lançou-se uma dezena enfurecida!

Com grilhtetas amarradas nos tornozelos
Ó Deus, quão horrível e brutal
Enquanto o Atlântico, com seus próprios olhos
Via o trato que o homem dava ao seu igual!

Alberto Secama 04 de Setembro de 2015
303

LIVRO NUNCA FOLHEADO

No misto de poeira
Que repousa serena
Sobre a velha estante
Encostada, à parede pouco resistente
Da sala apertada de tão pequena
Para a mobília fora de moda
Há tanta bicharia
Como que numa boda
A degustar com insaciável folia
A liberdade da poesia
Nas folhas, em papel reciclado
Dum livro nunca folheado

Alberto Secama 04 de Agosto de 2015
300

KIMPA VITA

[ À memória de Kimpa Vita ]


Nas terras do Kongo dya Ntotila
Monte Kibango te viu nascer
Ó destemida filha de fala tranquila

Nganga Marinda do clã Mwana Kongo
No " Antonianismo ", tua crença deste a conhecer
Aos dogmas da fé católica, foste contrária
" Herege! " - a morte condenou-te o clero
Viva, no fogo que tanto ardia
Ainda assim, teu adeus foi sincero

Agora, profundo que é o sono
De louros coroada, na eterna glória
Descansa esquecida do imundo colono

Alberto Secama 13 de Setembro de 2015
296

ZILLAH AO ENCONTRO DE ZAMBA

Em Charleston, era grande a saudade
Que Zamba, de Zillah sentia
E nas margens do rio Congo, dia após dia
Sentada, Zillah esperava vê-lo de volta

À noite, deitada, imensa era a falta
Que Zamba, seu amor, tanto lhe fazia
Por isso, uma coisa apenas dizia:

" Se d'América, o navio que chegar
Eu juro, hei de m'entregar "

Ao ver atracar " The Hunter "
Proveniente do estado da Carolina
Zillah, sem medo, em surdina
No porão foi se esconder

Por entre o vasto amontoado
Do lastro a base de ferro
Naquele porão bué fundo
Bastou num velho estrado
O prego saliente, e o cheiro a esturro
Para fazê-la suspirar "ah, que lugar imundo!"

Em Charleston, como ígneas chamas
Rápido s'espalhavam as notícias
D'embarcações prestes a chegar
E Zamba foi também, ver as almas
Todas negras de quantas agonias

Fatigadas da sempre difícil travessia
Do porão, à granel, a carga viva saía
Quando em alto sôo
Do fundo uma voz ele ouviu:
- " Zamba, meu amor! "
E num salto, qual vôo
O vendaval d'emoções qu'ele sentiu
Naquele abraço tão forte
Foi mesmo uma grande sorte

Alberto secama 21-Ago-18
366

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