Alicia Salvaterra

Alicia Salvaterra

n. 2008 BR BR

n. 2008-06-21

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Joãozinho

Joãozinho
Tadinho,
Tão anão,
E já se meteu em confusão.

Joãozinho não sabia falar, nem dançar,
Só sabia chorar,
E a mãe, pobrezinha,
Só ouvia, sem saber o que fazer.

Joãozinho não sabia ler, nem escrever,
Mas, sem perceber,
Não pôde nem aprender.

Joãozinho nem sabia o que era “poder”,
Mas não teve tempo de aprender,
Pois os homens armados,
Vestiram os seus fardados,
E não quiseram deixar-lhe conhecer.

Joãozinho nem sabia o que era um canhão,
nem quem tinha razão,
Mas sem querer,
morreu sem saber.

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Biografia

Eu escrevo pois não sei falar.

Poemas

17

Joãozinho

Joãozinho
Tadinho,
Tão anão,
E já se meteu em confusão.

Joãozinho não sabia falar, nem dançar,
Só sabia chorar,
E a mãe, pobrezinha,
Só ouvia, sem saber o que fazer.

Joãozinho não sabia ler, nem escrever,
Mas, sem perceber,
Não pôde nem aprender.

Joãozinho nem sabia o que era “poder”,
Mas não teve tempo de aprender,
Pois os homens armados,
Vestiram os seus fardados,
E não quiseram deixar-lhe conhecer.

Joãozinho nem sabia o que era um canhão,
nem quem tinha razão,
Mas sem querer,
morreu sem saber.

265

Sabrina, a velhinha.

Sabrina, menina,
Sonhava ser bailarina.
Mas a pobrezinha não sabia
Que, para ser dançarina,
Tinha de ser menininha.

Sabrina já era velhinha,
Quase já não valia.
Mas tinha a mania,
De querer ser miúdinha.

Sabrina, coitadinha,
Acreditava em magia,
Sem saber que, por ser velhinha,
Já não podia ser dançarina.

Sabrina era fininha,
Como papel em linha,
Mas tinha a mania
De que já agora nascia.

197

Que infelicidade a minha

Que infelicidade a minha. 
Fui experimentar sofrer,
e acabei por sofrer de verdade.

212

As noites à espera da mãe.

Quando é que a minha mãe vai voltar da casa dos patrões?
Alguém sabe? Não sei.
Ninguém está aqui para me dizer.
Nem mesmo os relógios que marcavam à meia-noite,
me puderiam dizer, 
pois eu não sabia falar com eles. 
Nunca ninguém me ensinara. 

Por isso: 
eu miúda, pequena,
ficava ali só,
à beira da janela 
contando as estrelas 
que escureciam com o tempo.

177

Alguém que não posso ser

Tentei ser alguém, 
sem que fosse eu mesma.
Tentei afastar-me de mim o máximo possível,
para não tropeçar nos meus próprios pés,
e regressar ao que sou.

Se me trancar dentro de algo, será que tropeço?
E se cortar os pés?... Ainda posso tropeçar?

Tenho medo de voltar a ser quem já sou.
Tento mudar de todas as formas imaginadas,
Mas, cruelmente, mudar-me não cabe só a mim.

Depende de um outro fator:
uma voz exterior, adulta, grave, por vezes maldosa.

É ela quem me diz quem devo ser,
O que devo fazer,
E por vezes, o que posso ver.
Ela molda-me à perfeição.
E quando me perco,
ela reencontra-me.
Quase que como um localizador.

191

O miúdo e o cão

Havia um miúdinho,
sem nome nem passado,
nu, esquecidinho,
andava pela rua, 
escaldante de tão gelada,
como sombra crua e nua.

Tinha um corpo em trevas
feito de cortes e pedras.
Quase parecia ter sido mastigado
sem dó nem piedade  pelas calçadas com dentes da cidade,
era um pobre coitado.
Era seguido sempre
por um cão magro,
sofrido e largado.
Igual à ele.

O cão não ladrava,
muito menos cantava,
era inútil.

O miúdo, por sua vez,
também nada sabia,
nada lhe ensinaram.
Era imbecil,
imprestável,
invisível ao mundo.

Ambos só serviam um ao outro, 
a ninguém mais.

Sentavam-se no pedregulho duro
à espera de um fim já impuro.
O miúdo, paciente,
para tentar ser eficiente,
esperou que o cão partisse,
para então poder matá-la —
a fome.

O cão, por sua vez,
até aprendera a contar até dez,
de tanto esperar que o miúdo,
vermelho de tão imundo,
fechasse os olhos
e dormisse de vez.
Assim, ele saciaria a fome
com lógica cruel,
mas destino cego.

Certo momento...
o miúdo, já derrotado,
deitou-se no granito
para poder descansar o seu corpo cansado,
o cão, desesperado,
cravou os  seus dentes podres
no peito nu do miúdo,
com dó e piedade,
pois isso ainda lhe restava.

Mas morreu também,
porque o miúdo,
coitado,
não tinha carne sequer
para alimentar um cão.

203

Cartas para o meu amor #3

Você acende essa chama em mim, 
que eu sem saber como apagar, 
me queimo completamente nela.

46

Que incompetência a minha...

Que incompetência a minha ter nascido num berço de madeira.
Que incompetência a minha ter roubado do peito uma mamadeira.
Que incompetência a minha ter sido morrida de rasteira.
Que incompetência a minha não ter sido herdeira.

50

O peso que sou

O peso que sou, 
já não serve a ninguém.
Nem mesmo a mim. 

62

Cartas para o meu amor #2

Como hei-de amar alguém
sem saber amar?
Não dá.

24

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