Lista de Poemas
Joãozinho
Joãozinho
Tadinho,
Tão anão,
E já se meteu em confusão.
Joãozinho não sabia falar, nem dançar,
Só sabia chorar,
E a mãe, pobrezinha,
Só ouvia, sem saber o que fazer.
Joãozinho não sabia ler, nem escrever,
Mas, sem perceber,
Não pôde nem aprender.
Joãozinho nem sabia o que era “poder”,
Mas não teve tempo de aprender,
Pois os homens armados,
Vestiram os seus fardados,
E não quiseram deixar-lhe conhecer.
Joãozinho nem sabia o que era um canhão,
nem quem tinha razão,
Mas sem querer,
morreu sem saber.
Que infelicidade a minha
Que infelicidade a minha.
Fui experimentar sofrer,
e acabei por sofrer de verdade.
Sabrina, a velhinha.
Sabrina, menina,
Sonhava ser bailarina.
Mas a pobrezinha não sabia
Que, para ser dançarina,
Tinha de ser menininha.
Sabrina já era velhinha,
Quase já não valia.
Mas tinha a mania,
De querer ser miúdinha.
Sabrina, coitadinha,
Acreditava em magia,
Sem saber que, por ser velhinha,
Já não podia ser dançarina.
Sabrina era fininha,
Como papel em linha,
Mas tinha a mania
De que já agora nascia.
As noites à espera da mãe.
Quando é que a minha mãe vai voltar da casa dos patrões?
Alguém sabe? Não sei.
Ninguém está aqui para me dizer.
Nem mesmo os relógios que marcavam à meia-noite,
me puderiam dizer,
pois eu não sabia falar com eles.
Nunca ninguém me ensinara.
Por isso:
eu miúda, pequena,
ficava ali só,
à beira da janela
contando as estrelas
que escureciam com o tempo.
Alguém que não posso ser
Tentei ser alguém,
sem que fosse eu mesma.
Tentei afastar-me de mim o máximo possível,
para não tropeçar nos meus próprios pés,
e regressar ao que sou.
Se me trancar dentro de algo, será que tropeço?
E se cortar os pés?... Ainda posso tropeçar?
Tenho medo de voltar a ser quem já sou.
Tento mudar de todas as formas imaginadas,
Mas, cruelmente, mudar-me não cabe só a mim.
Depende de um outro fator:
uma voz exterior, adulta, grave, por vezes maldosa.
É ela quem me diz quem devo ser,
O que devo fazer,
E por vezes, o que posso ver.
Ela molda-me à perfeição.
E quando me perco,
ela reencontra-me.
Quase que como um localizador.
O miúdo e o cão
Havia um miúdinho,
sem nome nem passado,
nu, esquecidinho,
andava pela rua,
escaldante de tão gelada,
como sombra crua e nua.
Tinha um corpo em trevas
feito de cortes e pedras.
Quase parecia ter sido mastigado
sem dó nem piedade pelas calçadas com dentes da cidade,
era um pobre coitado.
Era seguido sempre
por um cão magro,
sofrido e largado.
Igual à ele.
O cão não ladrava,
muito menos cantava,
era inútil.
O miúdo, por sua vez,
também nada sabia,
nada lhe ensinaram.
Era imbecil,
imprestável,
invisível ao mundo.
Ambos só serviam um ao outro,
a ninguém mais.
Sentavam-se no pedregulho duro
à espera de um fim já impuro.
O miúdo, paciente,
para tentar ser eficiente,
esperou que o cão partisse,
para então poder matá-la —
a fome.
O cão, por sua vez,
até aprendera a contar até dez,
de tanto esperar que o miúdo,
vermelho de tão imundo,
fechasse os olhos
e dormisse de vez.
Assim, ele saciaria a fome
com lógica cruel,
mas destino cego.
Certo momento...
o miúdo, já derrotado,
deitou-se no granito
para poder descansar o seu corpo cansado,
o cão, desesperado,
cravou os seus dentes podres
no peito nu do miúdo,
com dó e piedade,
pois isso ainda lhe restava.
Mas morreu também,
porque o miúdo,
coitado,
não tinha carne sequer
para alimentar um cão.
Cartas para o meu amor #3
Você acende essa chama em mim,
que eu sem saber como apagar,
me queimo completamente nela.
A última dança
A janela estava entre-aberta,
por isso o vento, nada discreto,
cantava como quem sabe cantar.
E a cortina, quase liberta,
bailava como quem não soubesse parar,
coisa rara de se ver.
Parecia que me convidavam a dançar.
Eu, apunhalada pela tristeza,
fui, sem esperteza,
e aceitei dançar.
Mas ao tentar mover,
caí sem perceber,
num certo lugar,
onde já não se ouvia o vento a cantar
e nem se via as cortinas a dançar.
Já não tinham a quem seduzir.
Já não me podiam conduzir.
Naquele instante, o único som que pude ouvir
foi o eco distante
do grito da minha mãe.
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