Alicia Salvaterra

Alicia Salvaterra

n. 2008 BR BR

n. 2008-06-21

Perfil
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Joãozinho

Joãozinho
Tadinho,
Tão anão,
E já se meteu em confusão.

Joãozinho não sabia falar, nem dançar,
Só sabia chorar,
E a mãe, pobrezinha,
Só ouvia, sem saber o que fazer.

Joãozinho não sabia ler, nem escrever,
Mas, sem perceber,
Não pôde nem aprender.

Joãozinho nem sabia o que era “poder”,
Mas não teve tempo de aprender,
Pois os homens armados,
Vestiram os seus fardados,
E não quiseram deixar-lhe conhecer.

Joãozinho nem sabia o que era um canhão,
nem quem tinha razão,
Mas sem querer,
morreu sem saber.

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Biografia

Eu escrevo pois não sei falar.

Poemas

17

Cartas para o meu amor #1

Se eu desaparecer,
irias procurar por mim?
Porque, no fundo,
planejo ser encontrada por ti.

32

Ironia

Ironia,
que magia.

65

Ave Maria...

Ave Maria bendita, 
livrai-nos desta fome maldita,
livrai-nos deste frio da cita,
perdoe-nos pelas ações ilícitas. 
Aceite a nossa crença, 
receba as nossas oferendas de fé. 

Ave Maria maldita, 
dai-nos lugar para leito, 
dai-nos comida para o peito. 
Livrai-nos das oferendas oferecidas a vós, 
que só nos fornecem fome.
Aceite as nossa súplicas.
receba os nossos corpos.

54

Onde está?

O meu amor partiu para bem longe, 
para um lugar onde já não a posso alcançar.
Deixou-me para trás sem despedir-se. 
Não levou nada; nem mesmo roupas, 
nem calçados, e até a sua carteira deixou…

Ela foi-se muda,
quase invisível de tão súbita foi a partida.
Não deixou cartas 
e nem bilhetes.
Apenas se foi… 

E onde estará ela agora?
Ninguém sabe. 
Uns dizem que foi conhecer os anjos nas nuvens,
e outros,
que dissipou-se em pó… 
Eu não digo nada, 
pois eu ainda a espero, 
com o seu retrato,
e os nossos filhos segurados à mão.

37

A última dança

A janela estava entre-aberta, 
por isso o vento, nada discreto,
cantava como quem sabe cantar.
E a cortina, quase liberta,
bailava como quem não soubesse parar,
coisa rara de se ver.
Parecia que me convidavam a dançar. 

Eu,  apunhalada pela tristeza,
fui, sem esperteza,
e aceitei dançar.

Mas ao tentar mover,
caí sem perceber,
num certo lugar,
onde já não se ouvia o vento a cantar
e nem se via as cortinas a dançar.

Já não tinham a quem seduzir.
Já não me podiam conduzir.

Naquele instante, o único som que pude ouvir 
foi o eco distante 
do grito da minha mãe.

83

Amor não correspondido

O meu coração está cansado
de tanto bater por amores 
que não lhe querem amar.

Agora, mal se ouve,
bate sem vontade,
porque todas as batidas sentidas 
foste tu quem as quis gastar...

É como se mo tivessem envenenado, 
deixado fraco, 
sem amparo,
sem saber o que fazer.

Agora está murcho, 
seco e cansado, 
prestes a render.

39

Querer e não poder ter

Eu queria…
Ah, como eu queria ter o que não posso ter.
Queria poder ter, ver, sentir, viver, amar, cansar, despejar, 
e voltar a querer novamente. 
Queria tudo isso…
Quero tudo isso. 
O querer é humano. É normal. 
E o normal nem sempre é querer. 
Mas eu quero muito — Ai como quero.
Deve ser doença querer assim, de tal maneira, 
algo que não se tem e não se pode ter. 
Eu devo estar doente. 
Mas como se chama a esta doença? 
Será gula? 
Não sei. 
Só sei que quero.

31

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