Ana_Pereira87

Ana_Pereira87

n. 1987 PT PT

Inspiro-me para que os outros se deixem levar pelas palavras e digam o que lhes vai na alma.

n. 1987-04-08, Viana do Castelo

Perfil
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A fome continua

Deixa-se a pele

pendurada no cabide.

Esvazia-se o corpo.

Reza-se a missa

de corpo presente.

Enterram-se os corpos

nas valas comuns:

lençóis areados.

Ficam as memórias:

perfil sem voz

atrás do espelho.

Capturadas a cores.

Vivas no flash.

A morte ganha vida.

Reduzimos a distância

no encontro dos corpos:

desvio e embate

para o orgasmo.

No final,

deixaste o melhor de ti.

Vieste-(te).

Nada é negativo.

As pessoas morrem

e a fome continua.

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Poemas

3

Alerta

Não gosto do escuro,

por isso,

recuso fixar o olhar

na chávena do café.

O escuro queima.

Abre-se a porta dos fundos

para poderes entrar.

A noite é uma criança.

Tens de brincar.

São precisos corpos.

Vamos às escondidas

jogar?

Há sempre roupa a mais

a cobrir o céu.

O segredo é o incêndio.

Arde em silêncio.

Encontro-me dentro

do teu pensamento.

Necessito respirar

o perfume líquido das rosas

brancas

que invade os lábios.

Ainda não respirei.

Cortei-me.

Fiz o sangue jorrar.

O poema faz-se

de sangue e carne.

Alerta:

Ser poeta é um ofício

que pode colocar

a vida em risco.

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A Casa

Dedicado à poetisa Célia Meira

Anda, vamos construir uma casa!

O teu corpo de algodão

é o alicerce.

Um lugar (in)comum.

Anda, vamos construir uma casa

neste chão em terra

lavrada pelos pés.

Anda, vamos construir uma casa

com ventos nos telhados

e janelas de chuva.

Anda, vamos construir uma casa

com portas de abraços.

Não há fechaduras.

Tudo se abre sem chave.

Anda, vamos construir uma casa!

Entre a cabeça e a boca

mastigo o cimento.

Quero paredes

enchidas de vozes,

ecos teus e meus.


Anda, vamos construir uma casa

sem métrica nem medida.

Que seja infinita

mas contida

nas suas raízes mais profundas.

Anda, vamos construir uma casa!

Tudo preto no branco.

Tudo branco no preto.

Na neutralidade seremos nós:

únicos.

Anda, vamos construir uma casa

decorada com os silêncios vazios

que se abrem em colcheias.

Anda, vamos construir uma casa!

Vamos aquecer-nos

no fogo dos olhos.

Anda, vamos construir uma casa!

Tenho palavras presas no cabelo.

Precisamos de algo novo

para habitar.

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Queres voar?

Aterro na cama

e não sou um avião.

Deixo a consciência

debaixo o colchão.

O corpo olha-te

de lado,

vivo,

afogado na fantasia

diluída na pele.

Trazes a faca

para me esfaqueares.

Cortas-me a cabeça.

Não penso.

Cerra-me os lábios

Com a língua.

Leva as palavras duras

para a rua.

Atira o meu coração

pela janela.

Deixa lá o peso das estrelas.

Habita,

mortal,

o reverso do que

há em mim.

Queres voar?

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