Lista de Poemas

Tudo Branco

Branco da nuvem
Branco da noiva
Branco da onda
Branco do olho
Branco da pele
Branco da folha
 
Branco da folha de papel que se deixa escrever
Branco da nuvem que fica preta com o temporal
 
Branco da noiva pura de branco
Que pensa que engana o celestial
 
Branco como a onda que quebra no final
Assim como o branco do olho que envermelha com o vício
E da pele que se bronzeia com o artifício.
 
Branco como a nuvem que esconde o sol para o alívio
Branco como a noiva virgem, como a Virgem
Branco como a crista da onda
Como o branco do olho
Como a raça branca que é só pele.
 
Branco da folha que acaba em palavras
Palavras fúteis como essas.
Mas é melhor essas palavras do que deixar tudo branco,
sem palavras ou pensamentos
Pensamentos que ficam brancos no esquecimento.
206

A Torre


Caminho pela rua que acompanha a curva do rio e avisto a torre. O sino que toca lá no alto uma melodia desconhecida, desvia minha atenção da música que embala meu exercício vespertino.
Sinto uma leve angústia enquanto ouço as badaladas e penso que em breve não mais verei a torre ou escutarei o sino. Entristeço
Tudo no meu presente me faz feliz.
A cidade
A companhia
O sorvete
O banco da praça
O mercado
O caminho
As amoras
A cama no sótão
A viagem
O trem
A igreja
A torre
O sino
...
Quero que o tempo pare agora. Quero que essa tristeza vá embora. Quero esse tempo assim, simples, sincero, aventureiro, feliz.
Mas ele é passageiro, eu sei. Como o cheiro, o beijo, como a rua que acompanha a curva do rio, como as badaladas do sino, como a vida.
Quem vai embora sou eu.
Passo pela torre e continuo meu caminho, mas ela fica, fica com um pedacinho da minha alma que já pertence ao som do sino.
 
189

O Olho Mágico


A batida na porta me transporta para a porta.
Quem é?
Com uma piscada de olho, olho no olho e vejo todo um corpo sem resposta, me olhando sem me ver.
É o olho de vidro que de tão pequeno me faz ver grande, como uma lente de aumento que com um olho me deixa ver todo um corpo sem resposta, mas com um esforço extremo levanta a mão e bate na porta outra vez.
Quem é?
Não há resposta, então me transporto de novo para o olho de vidro e olho pelo olho o corpo que não responde.
Sem resposta não há mágica que me faça abrir a porta, pois o corpo que vejo pelo olho de vidro eu desconheço, e abrir a porta sem resposta não há mágica de olho mágico que me faça abrir.
Quem é?
Eu!
Eu quem?
Eu!
Esse Eu que eu não sei quem é vai ficar ali esperando.
Esse olho mágico não faz magia e eu não sei quem Eu sou, então esse corpo do Eu vai ficar ali esperando esse eu que sou eu para sempre, pois eu não vou abrir a porta.
Assim me transporto para onde estava antes da batida na porta e deixo para trás o olho mágico com o Eu que eu não sei quem é.
Escuto passos que vão se distanciando e depois não escuto mais nada.
Foi-se o Eu e ficou o olho mágico a espera da próxima batida na porta.
210

O Amor (Crônica)

Escrever sobre o amor é coisa fácil, trivial para qualquer escritor. Alguém, em algum tempo, em qualquer lugar, já escreveu sobre ele.
O amor em suas mais diferentes formas.
Sim, o amor não é um só, único, como alguns pintam. O amor tem caras, jeitos, trejeitos, formas, voz, idade, condição, vida e morte. O amor cria, destrói, faz a paz e a guerra. Tudo em seu nome.
O amor é subjetivo ao extremo. Cada um, cada qual, ama do seu jeito.
Uns acham que amam para sempre, como o amor de mãe, o amor pelo Criador, o amor de Romeu por sua Julieta, o amor pela família, pelo companheiro, o amor eterno, que transcende.
Outros acham o amor um sentimento efêmero, que vem e vai, conforme os acontecimentos tomam lugar na vida. Eu explico: apaixona-se, desapaixona-se. Se ama pai e mãe até o dia do divórcio, aí é rancor ladeira abaixo, não que o amor acabe, mas fica diferente. Ama-se durante a vida e, após o suspiro final, cai-se no esquecimento. E por aí vai. Cada qual, cada um.
Eu amo muitas pessoas nessa vida. Amo viajar, amo ler, escrever. Mas se esse amor é para sempre, aí já são outros quinhentos. Esse sentimento é variável. Sobre as pessoas, umas eu amo mais, outras já nem tanto. Mas o amor está presente, às vezes mais, às vezes menos. Esse é o meu amor, a forma como eu o sinto.
Conheço pessoas que amam ao extremo, sacrificam o seu eu pelo amor do outro, como se fosse algo saudável, algo que completa o seu ser. A meu ver, um infeliz.
Conheço pessoas que amam a Deus sobre todas as coisas. Que outras coisas seriam essas? Sua vida? Seus filhos? Sua família? Seu lar? Seu time de futebol? Seu carro? Mas Deus não está em tudo isso? Não dá para amar a Deus e todas essas coisas igualmente? Por que tem que ser sobre todas as coisas? Não acho saudável.
Já o amor pelas coisas fungíveis, ah, esse é incondicional. Ama-se tanto as coisas que se mata por elas. Esse amor é das trevas, ou qualquer coisa que se associe ao mau.
Nos últimos tempos, um amor que tem crescido e se expandido é o do homem pelos animais. Parece que o ser humano descobriu no bicho de estimação um amor sem cobranças, um amor que pode até ser unilateral, mas que continuará sendo a mais sincera forma de amor.
O primeiro amor merece atenção especial aqui. O primeiro amor é genuíno, puro, acontece por acaso, acelera o coração, dói o peito, angustia, sente uma saudade imensa, é pura química. Esse amor a gente guarda pra toda a vida. Alguns sortudos o tem para sempre, outros o tem por alguns dias ou semanas. Feliz daquele que já sentiu esse amor e foi correspondido.
O amor impossível, ah, esse já foi retratado em vários romances e filmes. Aquele amor cheio de sofrimento, sacrifício. Orfeu e Eurídice, Tristão e Isolda, Marco Antônio e Cleópatra, Romeu e Julieta, são símbolos de amores levados o extremo de sua existência.
“Enquanto Eros, tirano, nos escraviza às paixões, o amor platônico não é repressor, mas faz o homem procurar saber o que é esse amor.” Essa frase eu li num artigo sobre “O mito do amor impossível”. Achei interessante a referência ao deus do amor com “um tirano”.
Diz-se que vivemos três amores durante nossa passagem por esse planeta: o primeiro, o grande e o eterno amor. Sim, caro leitor, o eterno amor...
E você, já viveu qual deles?
203

A Louca

Pensei em vários títulos para essa história, e depois de lerem o que vou contar, vão concordar comigo.
O dia prometia transcorrer normalmente: acordar num dia de férias, visitar minha mãe e me despedir de minha irmã que retornaria de sua viagem de férias, brincar com minha sobrinha de lindos olhos azuis e comer bolo e pão de queijo com café. Porém, ver uma louca se jogar do quarto andar de um apart-hotel, definitivamente não estava nos meus planos.
Ao atravessar a última esquina que levaria ao prédio de minha mãe, um grito que veio do apart-hotel à minha direita me chamou a atenção, e quando olhei na direção e me deparei com uma mulher de calcinha preta e camiseta vermelha se lançando sobre a pequena sacada do apartamento, me senti como se assistindo a um filme. Cobri os olhos para não ver o que eu realmente via, uma louca se lançando sobre a sacada, mudando de ideia na metade do caminho e se agarrando ao parapeito da sacada para não cair.
Numa questão de segundos pensei na minha covardia em não querer olhar e, quem sabe, poder ajudar aquela louca a mudar de ideia. Voltei meu olhar para a louca pendurada na sacada e lá de dentro do apartamento saiu um homem que rapidamente a agarrou pelos braços. Ela ficou lá, tentando apoiar as pernas em algo e gritando não sei o que.
Começou a juntar gente, eu olhava para a louca pendurada, olhava para baixo onde ela provavelmente cairia, olhava para o homem que tentava segurá-la, olhava para um senhor que surgiu no segundo andar e ficou a olhar a multidão que se formava e comecei a gritar para ele que chamasse a polícia.
Vi quando o porteiro do apart-hotel saiu correndo em direção à portaria, vi quando o homem que segurava a louca pediu que ela tivesse calma, vi quando um senhor de terno azul escuro parou do meu lado com seu celular na mão e vi quando alguns carros pararam na esquina e de dentro deles saíram seus motoristas para ver o que estava acontecendo ali.
Eu gritei novamente para o senhor no segundo andar! “Chame a polícia!” Mas a sensação que eu tinha era de que ninguém me ouvia, e a louca continuava pendurada.
O senhor de terno azul marinho que estava parado ao meu lado, muito calmamente me perguntou se o número do bombeiro era 193. Eu olhei para ele e me dei em conta de que meu celular estava no bolso da minha calça preta. Ao pegá-lo tentei ligar 190, mas eu não me concentrava no teclado e disquei 199. Cancelei a discagem, olhei novamente em direção à louca dependurada na sacada do quarto andar e percebi que o homem que a agarrava pelos braços estava obtendo sucesso em puxá-la para cima e para dentro. Mais uma vez eu tentei discar 190 e quando no meu celular acusou “chamando”, o homem conseguiu salvar a louca de sua queda mortal.
Que alívio! Cancelei a ligação para a polícia.
O senhor de terno azul marinho do meu lado murmurou algo que eu não entendi e seguiu o seu caminho. As pessoas que haviam saído de seus carros para ver a louca cair também seguiram seus caminhos. A multidão que se formara na frente do apart-hotel se dispersou e eu fiquei ali parada por mais alguns instantes, para ver se alguém apareceria na sacada do quarto andar pra dizer que estava tudo bem, mas o homem e a louca sumiram para dentro do apartamento.
Devolvi meu celular para o meu bolso e disse para mim mesma: “que louca”.
Voltei a caminhar na direção do prédio da minha mãe que se encontrava há alguns metros e meus pensamentos fervilhavam. O que poderia ter levado aquela louca a tentar se matar? Sim, porque foi exatamente o que ela fez, ela se jogou lá de cima, mas um milésimo de segundo de bom senso a fez mudar de ideia e se agarrar ao parapeito. Seria desespero por um amor não correspondido? Seria chantagem por um pedido não realizado? Ou seria algum tipo de doença mental que acometia aquela pobre jovem?
Quando cheguei ao meu destino, me pus a chorar abraçada à minha irmã que estava de visitas. Ela pensou que eu tivesse sido assaltada ou coisa parecida, e, aos prantos, contei o que eu acabara de presenciar. Minha outra irmã chegou em seguida e quis saber também o que tinha acontecido.
Agora, contando a história da louca, penso em suicidas pelo mundo afora. Se Deus nos deu o livre arbítrio, então cometer suicídio é uma escolha individual, da qual ninguém deve se intrometer ou impedir, ou não? Eu sou livre e faço da minha vida o que bem entender, inclusive acabar com ela, ou não?
Mas e depois dela, da morte, o que virá? A escuridão para os suicidas? Quem disse?
Seria um covarde aquele que tira a própria vida ou um covarde aquele que não tem coragem de tirá-la?
Para a minha verdade, sei que quero viver. Preferiria viver sem ter que ver pessoas pulando de sacadas, mas se tiver a má sorte de presenciar novamente coisas do tipo, tentarei agir mais rápido com relação ao meu celular no bolso da minha calça.
Nesse dia, mal sabia eu que alguém muito próximo e que eu amava muito, teria o êxito que a louca não teve por causa do milésimo de segundo.
190

A Louca (Crônica)

Pensei em vários títulos para essa história, e depois de lerem o que vou contar, vão concordar comigo.
O dia prometia transcorrer normalmente: acordar num dia de férias, visitar minha mãe e me despedir de minha irmã que retornaria de sua viagem de férias, brincar com minha sobrinha de lindos olhos azuis e comer bolo e pão de queijo com café. Porém, ver uma louca se jogar do quarto andar de um apart-hotel, definitivamente não estava nos meus planos.
Ao atravessar a última esquina que levaria ao prédio de minha mãe, um grito que veio do apart-hotel à minha direita me chamou a atenção, e quando olhei na direção e me deparei com uma mulher de calcinha preta e camiseta vermelha se lançando sobre a pequena sacada do apartamento, me senti como se assistindo a um filme. Cobri os olhos para não ver o que eu realmente via, uma louca se lançando sobre a sacada, mudando de ideia na metade do caminho e se agarrando ao parapeito da sacada para não cair.
Numa questão de segundos pensei na minha covardia em não querer olhar e, quem sabe, poder ajudar aquela louca a mudar de ideia. Voltei meu olhar para a louca pendurada na sacada e lá de dentro do apartamento saiu um homem que rapidamente a agarrou pelos braços. Ela ficou lá, tentando apoiar as pernas em algo e gritando não sei o que.
Começou a juntar gente, eu olhava para a louca pendurada, olhava para baixo onde ela provavelmente cairia, olhava para o homem que tentava segurá-la, olhava para um senhor que surgiu no segundo andar e ficou a olhar a multidão que se formava e comecei a gritar para ele que chamasse a polícia.
Vi quando o porteiro do apart-hotel saiu correndo em direção à portaria, vi quando o homem que segurava a louca pediu que ela tivesse calma, vi quando um senhor de terno azul escuro parou do meu lado com seu celular na mão e vi quando alguns carros pararam na esquina e de dentro deles saíram seus motoristas para ver o que estava acontecendo ali.
Eu gritei novamente para o senhor no segundo andar! “Chame a polícia!” Mas a sensação que eu tinha era de que ninguém me ouvia, e a louca continuava pendurada.
O senhor de terno azul marinho que estava parado ao meu lado, muito calmamente me perguntou se o número do bombeiro era 193. Eu olhei para ele e me dei em conta de que meu celular estava no bolso da minha calça preta. Ao pegá-lo tentei ligar 190, mas eu não me concentrava no teclado e disquei 199. Cancelei a discagem, olhei novamente em direção à louca dependurada na sacada do quarto andar e percebi que o homem que a agarrava pelos braços estava obtendo sucesso em puxá-la para cima e para dentro. Mais uma vez eu tentei discar 190 e quando no meu celular acusou “chamando”, o homem conseguiu salvar a louca de sua queda mortal.
Que alívio! Cancelei a ligação para a polícia.
O senhor de terno azul marinho do meu lado murmurou algo que eu não entendi e seguiu o seu caminho. As pessoas que haviam saído de seus carros para ver a louca cair também seguiram seus caminhos. A multidão que se formara na frente do apart-hotel se dispersou e eu fiquei ali parada por mais alguns instantes, para ver se alguém apareceria na sacada do quarto andar pra dizer que estava tudo bem, mas o homem e a louca sumiram para dentro do apartamento.
Devolvi meu celular para o meu bolso e disse para mim mesma: “que louca”.
Voltei a caminhar na direção do prédio da minha mãe que se encontrava há alguns metros e meus pensamentos fervilhavam. O que poderia ter levado aquela louca a tentar se matar? Sim, porque foi exatamente o que ela fez, ela se jogou lá de cima, mas um milésimo de segundo de bom senso a fez mudar de ideia e se agarrar ao parapeito. Seria desespero por um amor não correspondido? Seria chantagem por um pedido não realizado? Ou seria algum tipo de doença mental que acometia aquela pobre jovem?
Quando cheguei ao meu destino, me pus a chorar abraçada à minha irmã que estava de visitas. Ela pensou que eu tivesse sido assaltada ou coisa parecida, e, aos prantos, contei o que eu acabara de presenciar. Minha outra irmã chegou em seguida e quis saber também o que tinha acontecido.
Agora, contando a história da louca, penso em suicidas pelo mundo afora. Se Deus nos deu o livre arbítrio, então cometer suicídio é uma escolha individual, da qual ninguém deve se intrometer ou impedir, ou não? Eu sou livre e faço da minha vida o que bem entender, inclusive acabar com ela, ou não?
Mas e depois dela, da morte, o que virá? A escuridão para os suicidas? Quem disse?
Seria um covarde aquele que tira a própria vida ou um covarde aquele que não tem coragem de tirá-la?
Para a minha verdade, sei que quero viver. Preferiria viver sem ter que ver pessoas pulando de sacadas, mas se tiver a má sorte de presenciar novamente coisas do tipo, tentarei agir mais rápido com relação ao meu celular no bolso da minha calça.
Nesse dia, mal sabia eu que alguém muito próximo e que eu amava muito, teria o êxito que a louca não teve por causa do milésimo de segundo.
 
170

O Vinho da Vida

A uva cultivada, o vinho envelhecido.
O sabor do vinho degustado, saboreado, como a vida vivida 
Envelhecida, embriagada.
A cada gole, o sabor do vinho vai fantasiando os dias, as noites
Vai tornando a vida gostosa, leve, livre.
A cada gole, o sabor do vinho vai embriagando os dias e as noites
Tornando a vida tonta, sem rumo
Fantasiando, embriagando, o vinho da uva da vida cumpre o seu papel.
E depois de todo o vinho, a morte, para coroar a vida na certeza de ter sido vivida intensamente.
217

Meu Lugar

Apaguei tudo, depois de lido, relido, apaguei tudo. Eram lembranças que decidi não lembrar mais, não que fossem lembranças ruins, mas só não queria lembrar mais.
Lembranças que doíam e de alguma forma apertavam meu coração, me deixavam com uma saudade imensa.
Saudade.
Tudo aqui me dava saudade de lá.
Meu sangue estava lá e lá estava tudo o que eu realmente queria, minha casa, minha família, minha alegria.
Ah, que saudades de lá.
As folhas verdes que balançavam com o vento não estavam me trazendo esperança.
Por que será? A esperança estava me trazendo desesperança daqui, daqui desse lugar que não era meu lar.
Ah, como eu queria o meu lar, meu lugar.
183

A Maratona (Crônica)

Descobri o prazer de correr para me exercitar e relaxar.
Quase todos os dias, entre cinco e seis da tarde saio para a Avenida das Cataratas para fazer isso que denomino o meu mais novo hobby, correr. Já corro oito quilômetros sem parar, claro que dando passadas leves, mas que provocam em meu corpo um suor prazeroso, pois, como mulher já chegando na faixa dos cinquenta anos, nada melhor do que sentir a transformação que esta corrida está fazendo com meu corpo, deixando-o magro e firme.
Toda esta introdução é para chegar na minha mais nova proeza, correr uma maratona.
Pois é, de moto com meu amor pela cidade outro dia, nos deparamos com um outdoor anunciando a "Meia Maratona das Cataratas" que aconteceria em breve. Fiquei toda empolgada, afinal eu já corro oito quilômetros sem parar, então vinte e um seria só uma questão de treino. Grande engano!
Correr uma maratona, mesmo que seja meia, requer um treino de meses, o que eu não tinha até o acontecimento, mas lá fui eu, continuando com a minha corrida da tarde, só que aumentando o percurso, mas nunca a velocidade. Outro grande engano.
Cinco dias antes da largada saí de viagem a trabalho para São Paulo e Rio, foi uma maratona, mas de visitas a livrarias e lojas de pedras preciosas, o que eu não quero entrar em detalhes nesta crônica.
Cheguei no Sábado a tempo de pegar o Kit do Atleta com camiseta, boné, um chip para ser colocado no tênis para medir o tempo de corrida e um vale jantar no Hotel que patrocinava a Meia Maratona, tudo por cem reais com a inscrição inclusa, é claro. No sábado à tarde, saí para treinar, sem forçar, para salvar energias para o grande dia que seria o seguinte.
E o seguinte chegou bem cedo.
Às sete horas da manhã meu amor me deixou no local indicado pela organização da prova para a largada.
Havia umas mil pessoas no local, entre mulheres e homens, uns famosos do ramo, outros nem tanto, e eu.
Helicóptero sobrevoando o local nos filmando, televisão entrevistando os atletas profissionais e os anônimos, e eu, só a observar, solitária em meu short verde, camiseta do meu patrocinador, o Brasas English Course, que é minha escola, meu iPod de estimação, meu tênis Nike já surrado, meu chapéu branco de tecido e todo um desejo de completar a Meia Maratona das Cataratas.
Foi dada a largada e saí no meio do pelotão geral. Nossa, que sensação gostosa ver toda aquela gente correndo ao meu lado, na minha frente, atrás de mim, todos correndo, fazendo aquilo que descobri ser uma delícia, uma brisa batendo de leve no meu rosto, Phil Collins cantando nos meus ouvidos, o trânsito todo parado, pessoas acenando e torcendo, motos passando com fotógrafos na garupa e eu fazendo pose, correndo e fazendo o V da vitória com os dedos.
Comecei com minhas passadas curtas e regulares, como estava acostumada a fazer nas minhas tardes de relaxamento, mas notei que muitos corredores estavam me ultrapassando, e eu ficando para trás. Resolvi acelerar meu passo e acompanhar um senhor que ia ao meu lado. Pensei comigo, ‘um senhor de uns setenta anos vai ser fácil acompanhar, assim manterei um ritmo'.
Havia homens e mulheres atrás de mim e muita gente à minha frente. Veio a primeira descida, a primeira subida, e eu mantive o passo acelerado para acompanhar o senhor de setenta anos e ficar à frente da turma que vinha atrás de mim.
Mais outra descida e outra subida e começou uma leve garoa. Avistei a placa do quilômetro cinco. Nossa, como eu já me sentia cansada, mas ordenei ao meu cérebro que se lembrasse das minhas corridas anteriores, da minha corrida até o portão da maior hidrelétrica do mundo, ida e volta, de todo o pouco treino que eu havia feito até então. Ele se lembrou e minhas pernas conseguiram continuar correndo. Avistei o quilômetro sete e o portão do Parque Nacional já estava perto. Chegar até o Parque era uma questão de honra. Pois cheguei. O senhor de setenta anos parou e eu pensei comigo, 'deve ter desistido', mas ele só tinha ido ao banheiro. Continuei minha corrida já rodeada de árvores, num asfalto precário que exigia de cada passada um esforço maior. A garoa continuava a cair e a me molhar toda, mas a expectativa de chegar logo era um estímulo!
Pensei no meu amor que já estava à minha espera lá nas Cataratas. Olhei meu relógio e vi que talvez não conseguisse cumprir a maratona no tempo máximo estipulado, duas horas e trinta minutos, pois ainda estava no quilômetro doze, e já corria há quase duas horas. Mais nove quilômetros. Será que consigo?
De repente, o senhor que tinha parado para ir ao banheiro passou a toda por mim. 'Mas como?' Eu pensei, 'onde ele acha tanta energia já a essa altura da corrida?' Os corredores à minha volta já eram bem escassos, uns oito para trás, uns cinco à minha frente, inclusive o senhor de setenta anos que agora usava uma capa de chuvas transparente. Pensei em dar uma caminhada com passadas largas para descansar, mas se diminuísse ainda mais o ritmo, os oito corredores atrás de mim me ultrapassariam e eu chegaria em último lugar.  Sem chances, em penúltimo talvez, mas não em último! E mantive o passo da corrida me sentindo muito cansada. Eu não fazia ideia do quanto vinte e um quilômetros era longe para correr, para caminhar, longe pra tudo naquela altura do meu cansaço. No quilômetro quatorze, uma mulher que vinha atrás de mim me ultrapassou e a turma que ainda era visível à minha frente sumiu correndo. Minha solidão foi intensa neste momento. Desejei que meu amor viesse me buscar, me tirasse dessa agonia, eu não aguentava mais correr.
Decidi caminhar para descansar, eu precisava descansar se quisesse chegar. Mais dois corredores passaram por mim neste momento. Avistei ao longe mais um posto de água. Pensei em ficar por ali mesmo, de tão cansada, mas como que ligada no automático, voltei a correr, passei pela turma solidária, agarrei um copo de água e continuei minha jornada. Era meu cérebro no comando.
Já não queria ouvir Coldplay que cantava nos meus ouvidos, eu já não queria correr mais, queria estar no aconchego do meu lar, quentinha, tomando um chocolate quente. Queria pegar uma carona até a chegada, eu queria sentar e esperar que viessem me buscar, pois meu corpo já não aguentava mais correr.
Meu corpo não aguentava, mas meu cérebro ordenava que minhas pernas continuassem correndo e que logo chegaríamos, cérebro e corpo juntos.
No quilômetro dezoito fui alcançada por uma mulher de Natal, Rio Grande do Norte, que já estava correndo sua terceira meia maratona. Buscamos forças e conversamos pelos próximos dois quilômetros. Ela me disse que veio de Natal com um grupo de três pessoas e que todos estavam correndo a meia maratona, só que já estavam à sua frente. Ela ficara para trás pois teve que atender ao chamado da natureza. Ela tinha a minha idade. Neste momento, um ônibus cheio de turistas passou por nós em direção às Cataratas e gritaram para nós: "Força! Vocês estão chegando!" Abanei a mão em agradecimento, mas meu desejo era outro, eu queria minha casa! Minha mais nova amiga de Natal continuava ali, ao meu lado e a placa do quilômetro vinte apareceu. Uma movimentação intensa em frente ao grande hotel à minha esquerda se instalara e à minha direita um cenário deslumbrante apareceu, as Cataratas do Iguaçu. 'Estou chegando', pensei. Minha amiga acelerou o passo pra chegar em grande estilo e eu fiquei pra trás neste último quilômetro. Havia uma derradeira subida à minha frente e a sensação foi de estar escalando o Evereste, não que eu o tenha escalado, mas se lê muito sobre o esforço sobre humano que exige esta escalada. Meus joelhos doíam, meus pés doíam, mas meu cérebro imperava no comando do meu corpo. Escalei o Evereste e lá longe avistei um tapete vermelho vazio de humanos e o cronômetro do relógio abaixo da palavra mais linda do mundo "chegada" marcava duas horas e cinquenta e nove minutos. Vi quando mudou para três horas, três e um, e eu continuava correndo. Neste momento procurei pelo meu amor, queria abraçá-lo com meus olhos, queria beijá-lo com meus braços, mas o tapete estava vazio, solitário como eu. Avistei um homem vestido numa capa de chuvas toda branca vindo na minha direção no tapete vermelho com um sorriso lindo nos lábios, um olhar de alívio estampado no rosto e uma máquina fotográfica nas mãos. Era o meu amor! Com toda a ocupação do meu cérebro em fazer meu corpo chegar até a linha de chegada, não reconheci meu amor de longe. Mas ele estava lá, à minha espera, preocupado com minha demora, agoniado com minha ausência no tapete vermelho, mas com o sorriso mais lindo que eu já vi.
Foi pura emoção cruzar a linha de chegada sob o aplauso dos poucos organizadores que ainda se encontravam em seus postos. Pura emoção!
Fiz pose mostrando nos dedos o V da vitória para as fotos que meu amor tirava de mim, uma atrás da outra. Ele ficava repetindo que eu era maluca, perguntando se eu estava bem, dizendo para eu caminhar mais um pouco para as pernas se acostumarem com o andar, enfim, ele estava ali, para me amparar, me abraçar, me parabenizar pela proeza de completar a Meia Maratona das Cataratas, vinte e um quilômetros de...  como definir... vinte e um quilômetros de expectativa, de pura superação. Adorei!
237

O Anjo (Crônica)

Onde estás, oh criação, que dorme pesadelos e vive sonhos tresloucados, contando com o perdão divino?
Uma vez vivi uma experiência um tanto surreal. Saí do meu corpo enquanto dormia e me deparei com monstros alados e chifrudos e estes, quando me fitaram, colocaram fogo pela goela para me queimar as pestanas. 
Corri, corri muito para me livrar das criaturas na esperança de encontrar um riacho pra apagar o incêndio que o fogo cuspido pelos dragões me crestava.
Acordei vertendo água pelos poros mas aliviada de ter me livrado de tais seres fabulosos.
Aí minha vida começou naquele dia, um dia divino, cheio de luz do sol. Vivi um sonho acordada. Sonhei que pisava firme no chão dentro do meu corpo e resolvi banhar-me dele, do sol, pra captar energias e seguir a diante em busca de respostas para minhas inquirições. Esperava respostas convincentes sobre a vida, a morte, Eu, Deus... Eu me escrevo com letra maiúscula, pois uma resposta Eu consegui naquele dia, que Eu sou Deus, sou o meu Deus e que todos nós temos um dentro do corpo vivo. Um Deus tão poderoso que julga, condena, absolve, dá à luz, tira a vida, faz e acontece, ama, odeia, cria e destrói. Esse Deus que Eu tenho dentro do meu corpo vivo é o Deus todo poderoso e Eu tenho todo controle sobre ele. Deus sou Eu. Sabe quem me deu essa resposta? Foi um anjo.
Bom, consegui respostas sobre Eu e Deus naquele dia, mas a vida e a morte ficaram para a noite depois do dia que estava por vir, a noite em que eu dormiria pesadelos de novo, mas agora sabendo que só esse Eu despacharia os dragões para outro planeta.
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