anamariabasso

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Professora, escritora e apaixonada por viagens.

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E Se (Crônica)

Fim de ano, época de planejar aquela viagem no Natal e Ano Novo naquele lugar especial.
Era o ano de 2004 e depois de discutirmos as opções, decidimos pela Ilha de Sumatra, na Indonésia. Somos loucos por mergulho de cilindro e lá era o lugar perfeito para observar peixes exóticos, com uma visibilidade incrível e pouca corrente marítima essa época do ano. Um sonho de viagem que há tempos estava nos nossos planos. Tudo conspirava a nosso favor: férias de final de ano coincidindo com as do marido e das filhas e um pacote de viagem com tudo incluso por um preço tentador. A viagem perfeita!
Chegamos dia 24 de dezembro, já véspera de Natal, meu esposo Gilmar, minhas duas filhas já adultas, Mariana e Clarissa e eu no aeroporto de Banda Aceh, no extremo norte da Ilha de Sumatra. Uma van nos aguardava para nos levar até nosso hotel.
Passamos a noite de Natal acompanhados de turistas de todo canto, Austrália, Estados Unidos, França, Croácia e uma ceia natalina divina foi servida!
Tínhamos tudo planejado com um guia local que nos levaria em seu barco para o melhor mergulho de nossas vidas na manhã seguinte, dia 25. Mas um imprevisto impossibilitou nosso passeio. Algo aconteceu com o guia, talvez uma ressaca natalina, não sei bem o que houve. Depois de desculpas e um bônus extra no pacote de ilhas que conheceríamos, marcamos para o dia seguinte.
Na manhã do dia 26 o sol apareceu impecável, poucas nuvens no céu nos garantia uma visibilidade de mais de dez metros nas profundezas próximo à ilha de Palau Tuan.
Tomamos um leve café da manhã e nos encontramos com Rimba, nosso guia, na recepção do hotel. Eram oito horas da manhã quando seguimos de barco num mar estranhamente calmo em direção ao local próximo a ilha onde ancoramos. Comentamos sobre o quão baixa estava a maré naquela manhã.
Conseguíamos ver a silhueta da costa de onde estávamos.  Ao longe, as edificações marcavam a vila repleta de pousadas, nosso hotel, que era a maior construção da vila e pontinhos pretos se mexendo, que claro, eram os turistas misturados aos moradores, iniciando mais um dia agitado.
Rimba se preparou para mergulhar conosco. Entramos na água, conferimos nosso equipamento e o seguimos num mergulho colorido e espetacular a uma profundidade de cerca de vinte e cinco metros. Seu auxiliar, Satria, ficou no barco como era de praxe.
Estávamos há vinte minutos no fundo, deslumbrados com tanta cor, beleza, peixes nunca vistos, quando sentimos uma forte corrente marítima nos atingir. A água, a princípio transparente, ficou turva, nos impossibilitando de ver dois metros a nossa frente.
Rimba sinalizou que deveríamos subir à superfície. Com a água turva, nos perdemos no caminho de volta pois não encontrávamos o barco quando olhávamos do fundo. Levamos mais ou menos dez minutos para chegarmos à superfície e no caminho de volta, nosso grupo foi separado pela forte corrente que jogou Mariana e Gilmar para longe. O medo tomou conta de todos. Rimba sinalizou para que Clarissa e eu continuássemos nossa subida, e que ele iria aguardar por meu esposo e Mariana que tentavam nadar de volta na nossa direção, mas sem sucesso. A corrente estava muito forte e o contato visual péssimo. Para aumentar ainda mais nosso desespero, algas começaram a se enroscar no cilindro da Clarissa, nos meus óculos de mergulho e eu não conseguia mais ter contato visual com Mariana e Gilmar. Entrei em desespero. “Eles sumiram!”, eu tentava me comunicar com Clarissa por mímica. Ela, mais calma, pegou no meu braço e apontou em direção à superfície. Eu a segui.
Quando finalmente conseguimos emergir, Gilmar e Mariana já estavam na superfície, separados da gente por uns cem metros, mas juntos, o que foi um alívio. Em seguida Rimba também apareceu logo ao nosso lado, muito assustado. A água transparente tinha se tornado escura, suja, com algas por toda parte. Procuramos pelo barco, por Sátria, o auxiliar, e nada. Olhamos em direção à vila e o mar pareceu não ter mais fim. Era tudo água, a vila, as árvores, as pousadas, o hotel de luxo. Tudo virou um emaranhado de tudo.
Era o fim da vila, o fim do barco, o fim de Sátria, o auxiliar.
Nos salvamos do pior tsunami já registrado na Ásia justamente por estarmos no fundo do mar, uma ironia.
A correnteza teimava em nos separar, mas com uma corda amarrada no pulso de cada um, conseguimos nadar chegar juntos até a vila devastada. Esse percurso levou quase duas horas. Exaustos e sem fôlego, nos deparamos com corpos boiando, entulhos de todos os tipos por todos os lados. Pessoas que sobreviveram ao tsunami gritavam por pessoas desaparecidas, uns choravam, outros socorriam os sobreviventes feridos, todos em estado de choque. No caminho até chegarmos ao local mais alto da ilha, socorremos muitas pessoas e resgatamos alguns corpos dos entulhos. Perdemos tudo, mas estávamos vivos.
Até hoje me pergunto: se tivéssemos saído para o mergulho no dia 25 como estava combinado a princípio, será que Satria ainda estaria vivo? Será que teríamos sobrevivido ao tsunami em terra?
E se...
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Poemas

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E Se (Crônica)

Fim de ano, época de planejar aquela viagem no Natal e Ano Novo naquele lugar especial.
Era o ano de 2004 e depois de discutirmos as opções, decidimos pela Ilha de Sumatra, na Indonésia. Somos loucos por mergulho de cilindro e lá era o lugar perfeito para observar peixes exóticos, com uma visibilidade incrível e pouca corrente marítima essa época do ano. Um sonho de viagem que há tempos estava nos nossos planos. Tudo conspirava a nosso favor: férias de final de ano coincidindo com as do marido e das filhas e um pacote de viagem com tudo incluso por um preço tentador. A viagem perfeita!
Chegamos dia 24 de dezembro, já véspera de Natal, meu esposo Gilmar, minhas duas filhas já adultas, Mariana e Clarissa e eu no aeroporto de Banda Aceh, no extremo norte da Ilha de Sumatra. Uma van nos aguardava para nos levar até nosso hotel.
Passamos a noite de Natal acompanhados de turistas de todo canto, Austrália, Estados Unidos, França, Croácia e uma ceia natalina divina foi servida!
Tínhamos tudo planejado com um guia local que nos levaria em seu barco para o melhor mergulho de nossas vidas na manhã seguinte, dia 25. Mas um imprevisto impossibilitou nosso passeio. Algo aconteceu com o guia, talvez uma ressaca natalina, não sei bem o que houve. Depois de desculpas e um bônus extra no pacote de ilhas que conheceríamos, marcamos para o dia seguinte.
Na manhã do dia 26 o sol apareceu impecável, poucas nuvens no céu nos garantia uma visibilidade de mais de dez metros nas profundezas próximo à ilha de Palau Tuan.
Tomamos um leve café da manhã e nos encontramos com Rimba, nosso guia, na recepção do hotel. Eram oito horas da manhã quando seguimos de barco num mar estranhamente calmo em direção ao local próximo a ilha onde ancoramos. Comentamos sobre o quão baixa estava a maré naquela manhã.
Conseguíamos ver a silhueta da costa de onde estávamos.  Ao longe, as edificações marcavam a vila repleta de pousadas, nosso hotel, que era a maior construção da vila e pontinhos pretos se mexendo, que claro, eram os turistas misturados aos moradores, iniciando mais um dia agitado.
Rimba se preparou para mergulhar conosco. Entramos na água, conferimos nosso equipamento e o seguimos num mergulho colorido e espetacular a uma profundidade de cerca de vinte e cinco metros. Seu auxiliar, Satria, ficou no barco como era de praxe.
Estávamos há vinte minutos no fundo, deslumbrados com tanta cor, beleza, peixes nunca vistos, quando sentimos uma forte corrente marítima nos atingir. A água, a princípio transparente, ficou turva, nos impossibilitando de ver dois metros a nossa frente.
Rimba sinalizou que deveríamos subir à superfície. Com a água turva, nos perdemos no caminho de volta pois não encontrávamos o barco quando olhávamos do fundo. Levamos mais ou menos dez minutos para chegarmos à superfície e no caminho de volta, nosso grupo foi separado pela forte corrente que jogou Mariana e Gilmar para longe. O medo tomou conta de todos. Rimba sinalizou para que Clarissa e eu continuássemos nossa subida, e que ele iria aguardar por meu esposo e Mariana que tentavam nadar de volta na nossa direção, mas sem sucesso. A corrente estava muito forte e o contato visual péssimo. Para aumentar ainda mais nosso desespero, algas começaram a se enroscar no cilindro da Clarissa, nos meus óculos de mergulho e eu não conseguia mais ter contato visual com Mariana e Gilmar. Entrei em desespero. “Eles sumiram!”, eu tentava me comunicar com Clarissa por mímica. Ela, mais calma, pegou no meu braço e apontou em direção à superfície. Eu a segui.
Quando finalmente conseguimos emergir, Gilmar e Mariana já estavam na superfície, separados da gente por uns cem metros, mas juntos, o que foi um alívio. Em seguida Rimba também apareceu logo ao nosso lado, muito assustado. A água transparente tinha se tornado escura, suja, com algas por toda parte. Procuramos pelo barco, por Sátria, o auxiliar, e nada. Olhamos em direção à vila e o mar pareceu não ter mais fim. Era tudo água, a vila, as árvores, as pousadas, o hotel de luxo. Tudo virou um emaranhado de tudo.
Era o fim da vila, o fim do barco, o fim de Sátria, o auxiliar.
Nos salvamos do pior tsunami já registrado na Ásia justamente por estarmos no fundo do mar, uma ironia.
A correnteza teimava em nos separar, mas com uma corda amarrada no pulso de cada um, conseguimos nadar chegar juntos até a vila devastada. Esse percurso levou quase duas horas. Exaustos e sem fôlego, nos deparamos com corpos boiando, entulhos de todos os tipos por todos os lados. Pessoas que sobreviveram ao tsunami gritavam por pessoas desaparecidas, uns choravam, outros socorriam os sobreviventes feridos, todos em estado de choque. No caminho até chegarmos ao local mais alto da ilha, socorremos muitas pessoas e resgatamos alguns corpos dos entulhos. Perdemos tudo, mas estávamos vivos.
Até hoje me pergunto: se tivéssemos saído para o mergulho no dia 25 como estava combinado a princípio, será que Satria ainda estaria vivo? Será que teríamos sobrevivido ao tsunami em terra?
E se...
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A Arte de Esperar

Quando você se vê contando os minutos para o anoitecer, para o próximo dia chegar, isso é um mal sinal. A ansiedade chega com tudo e te arrebata. Ela te manda direto para a geladeira, e mesmo não tendo nada “gostoso” para comer, você inventa. É uma torrada que estava encostada há dias no armário ou mesmo aquela bolacha recheada muito doce e enjoativa, tudo fica uma delícia. Depois de saciada a fome da ansiedade, agora é a insônia que bate à porta. O livro romântico, o filme marcado para assistir de madrugada ou mesmo aquela rede social cheia de “amigos” ficam desinteressantes e chatos. E o tempo não passa!
A ansiedade tem causa na espera impaciente. Você espera por tanta coisa, por tanta gente nessa vida, que adoece o corpo e muitas vezes a alma esperando.
Paciência é uma aliada de poucos, dos controlados, eu diria. Mas para aquele impaciente, esperar é sinônimo de angústia.
Como saber esperar sem sofrer é um paradoxo para muitos, inclusive para mim.  A definição filosófica de paradoxo: “contradição que chega, em certos casos, a se opor às razões do pensamento humano ou nega o que a maioria tende a acreditar”. Analisando: contradição que chega a se opor às razões do pensamento é nada mais do que saber que tem que esperar, mas não querer esperar. Negar o que a maioria tende a acreditar não se refere àquela máxima de que “quem espera sempre alcança”? Pronto, simples assim! Ninguém quer esperar por nada. Vivemos na idade do imediatismo, onde cartas viraram e-mails e cruzam oceanos num piscar de olhos. A notícia então, essa além de chegar instantaneamente, chega muitas vezes distorcida, aumentada, e não como a gente “esperava”.
O nosso tempo é agora. Não há tempo para a espera. Não há tempo a perder. E definitivamente, não há tempo para viver calmamente.
A impaciência modifica a vida, alimenta o desânimo e frustra a vitória.
Já a arte de esperar derruba incertezas, ouve um “não” quando na verdade quer dizer “espere”, e a recompensa da espera é grandiosa, eterna.
Então espere, acalme sua alma.
Confie.
Eu, particularmente, espero por muitas coisas nessa vida. Recentemente esperei pacientemente com o meu amor por longos e aventureiros três meses um acontecimento importante nas nossas vidas, e alcançamos o resultado esperado.
Resumindo... O que depender de mim está ao alcance da minha mão, já o que depender de outro, vai precisar da minha mão.
Eu confio. E você?
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A Louca (Crônica)

Pensei em vários títulos para essa história, e depois de lerem o que vou contar, vão concordar comigo.
O dia prometia transcorrer normalmente: acordar num dia de férias, visitar minha mãe e me despedir de minha irmã que retornaria de sua viagem de férias, brincar com minha sobrinha de lindos olhos azuis e comer bolo e pão de queijo com café. Porém, ver uma louca se jogar do quarto andar de um apart-hotel, definitivamente não estava nos meus planos.
Ao atravessar a última esquina que levaria ao prédio de minha mãe, um grito que veio do apart-hotel à minha direita me chamou a atenção, e quando olhei na direção e me deparei com uma mulher de calcinha preta e camiseta vermelha se lançando sobre a pequena sacada do apartamento, me senti como se assistindo a um filme. Cobri os olhos para não ver o que eu realmente via, uma louca se lançando sobre a sacada, mudando de ideia na metade do caminho e se agarrando ao parapeito da sacada para não cair.
Numa questão de segundos pensei na minha covardia em não querer olhar e, quem sabe, poder ajudar aquela louca a mudar de ideia. Voltei meu olhar para a louca pendurada na sacada e lá de dentro do apartamento saiu um homem que rapidamente a agarrou pelos braços. Ela ficou lá, tentando apoiar as pernas em algo e gritando não sei o que.
Começou a juntar gente, eu olhava para a louca pendurada, olhava para baixo onde ela provavelmente cairia, olhava para o homem que tentava segurá-la, olhava para um senhor que surgiu no segundo andar e ficou a olhar a multidão que se formava e comecei a gritar para ele que chamasse a polícia.
Vi quando o porteiro do apart-hotel saiu correndo em direção à portaria, vi quando o homem que segurava a louca pediu que ela tivesse calma, vi quando um senhor de terno azul escuro parou do meu lado com seu celular na mão e vi quando alguns carros pararam na esquina e de dentro deles saíram seus motoristas para ver o que estava acontecendo ali.
Eu gritei novamente para o senhor no segundo andar! “Chame a polícia!” Mas a sensação que eu tinha era de que ninguém me ouvia, e a louca continuava pendurada.
O senhor de terno azul marinho que estava parado ao meu lado, muito calmamente me perguntou se o número do bombeiro era 193. Eu olhei para ele e me dei em conta de que meu celular estava no bolso da minha calça preta. Ao pegá-lo tentei ligar 190, mas eu não me concentrava no teclado e disquei 199. Cancelei a discagem, olhei novamente em direção à louca dependurada na sacada do quarto andar e percebi que o homem que a agarrava pelos braços estava obtendo sucesso em puxá-la para cima e para dentro. Mais uma vez eu tentei discar 190 e quando no meu celular acusou “chamando”, o homem conseguiu salvar a louca de sua queda mortal.
Que alívio! Cancelei a ligação para a polícia.
O senhor de terno azul marinho do meu lado murmurou algo que eu não entendi e seguiu o seu caminho. As pessoas que haviam saído de seus carros para ver a louca cair também seguiram seus caminhos. A multidão que se formara na frente do apart-hotel se dispersou e eu fiquei ali parada por mais alguns instantes, para ver se alguém apareceria na sacada do quarto andar pra dizer que estava tudo bem, mas o homem e a louca sumiram para dentro do apartamento.
Devolvi meu celular para o meu bolso e disse para mim mesma: “que louca”.
Voltei a caminhar na direção do prédio da minha mãe que se encontrava há alguns metros e meus pensamentos fervilhavam. O que poderia ter levado aquela louca a tentar se matar? Sim, porque foi exatamente o que ela fez, ela se jogou lá de cima, mas um milésimo de segundo de bom senso a fez mudar de ideia e se agarrar ao parapeito. Seria desespero por um amor não correspondido? Seria chantagem por um pedido não realizado? Ou seria algum tipo de doença mental que acometia aquela pobre jovem?
Quando cheguei ao meu destino, me pus a chorar abraçada à minha irmã que estava de visitas. Ela pensou que eu tivesse sido assaltada ou coisa parecida, e, aos prantos, contei o que eu acabara de presenciar. Minha outra irmã chegou em seguida e quis saber também o que tinha acontecido.
Agora, contando a história da louca, penso em suicidas pelo mundo afora. Se Deus nos deu o livre arbítrio, então cometer suicídio é uma escolha individual, da qual ninguém deve se intrometer ou impedir, ou não? Eu sou livre e faço da minha vida o que bem entender, inclusive acabar com ela, ou não?
Mas e depois dela, da morte, o que virá? A escuridão para os suicidas? Quem disse?
Seria um covarde aquele que tira a própria vida ou um covarde aquele que não tem coragem de tirá-la?
Para a minha verdade, sei que quero viver. Preferiria viver sem ter que ver pessoas pulando de sacadas, mas se tiver a má sorte de presenciar novamente coisas do tipo, tentarei agir mais rápido com relação ao meu celular no bolso da minha calça.
Nesse dia, mal sabia eu que alguém muito próximo e que eu amava muito, teria o êxito que a louca não teve por causa do milésimo de segundo.
 
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O Olho Mágico


A batida na porta me transporta para a porta.
Quem é?
Com uma piscada de olho, olho no olho e vejo todo um corpo sem resposta, me olhando sem me ver.
É o olho de vidro que de tão pequeno me faz ver grande, como uma lente de aumento que com um olho me deixa ver todo um corpo sem resposta, mas com um esforço extremo levanta a mão e bate na porta outra vez.
Quem é?
Não há resposta, então me transporto de novo para o olho de vidro e olho pelo olho o corpo que não responde.
Sem resposta não há mágica que me faça abrir a porta, pois o corpo que vejo pelo olho de vidro eu desconheço, e abrir a porta sem resposta não há mágica de olho mágico que me faça abrir.
Quem é?
Eu!
Eu quem?
Eu!
Esse Eu que eu não sei quem é vai ficar ali esperando.
Esse olho mágico não faz magia e eu não sei quem Eu sou, então esse corpo do Eu vai ficar ali esperando esse eu que sou eu para sempre, pois eu não vou abrir a porta.
Assim me transporto para onde estava antes da batida na porta e deixo para trás o olho mágico com o Eu que eu não sei quem é.
Escuto passos que vão se distanciando e depois não escuto mais nada.
Foi-se o Eu e ficou o olho mágico a espera da próxima batida na porta.
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O Vinho da Vida

A uva cultivada, o vinho envelhecido.
O sabor do vinho degustado, saboreado, como a vida vivida 
Envelhecida, embriagada.
A cada gole, o sabor do vinho vai fantasiando os dias, as noites
Vai tornando a vida gostosa, leve, livre.
A cada gole, o sabor do vinho vai embriagando os dias e as noites
Tornando a vida tonta, sem rumo
Fantasiando, embriagando, o vinho da uva da vida cumpre o seu papel.
E depois de todo o vinho, a morte, para coroar a vida na certeza de ter sido vivida intensamente.
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O Lado Fiel da Balança (Crônica)

A polarização política que há no Brasil nos dias de hoje, acrescento também moral e ética, chega a patamares assustadores. Ataques pessoais, desentendimentos entre familiares, principalmente via grupos de redes sociais, desrespeito ao pensamento alheio e ao posicionamento político, têm estado em evidência.  É natural e saudável haver contrapontos, mas os níveis atuais são alarmantes. Há de ter direita e esquerda para haver um nivelamento. Imaginemos uma balança: de um lado a direita e do outro a esquerda. Agora imaginemos essa balança trabalhando nos últimos trinta anos e o lado esquerdo sendo alimentado ininterruptamente, engordando instituições como Universidades, ONGS, partidos, políticos, formadores de opinião e intelectuais, infiltrando lenta e gradualmente o ideal comunista, sempre pela via pacífica, legal, constitucional, usando uma propaganda subliminar, imperceptível aos incautos, sem nunca declarar que isso estava sendo feito e, paralelamente, assaltando tudo e todos, roubando estatais, posando de salvadores de uma sociedade eternamente condenada à pobreza e à dependência do Estado.
Já o lado direito da balança perdido, encolhido, medroso, magro de liderança, raquítico de ideal, amordaçado. Conclusão: o lado esquerdo, pesado como barras de ouro, abastecido por todos os meios possíveis de uma corrupção sistêmica, antiético e completamente amoral, triunfou numa vitória que parecia eterna, aos olhos deles. O plano de poder perfeito. Antônio Gramsci explica na sua teoria da hegemonia e a ocupação de espaços.
Como se deu a reviravolta?
Tudo começou, a meu ver, com vinte centavos. Imagine, vinte centavos aos olhos de barras e barras de ouro. Quem acreditaria que um movimento iniciado pelo lado esquerdo da balança seria o gatilho para tamanha reviravolta do lado direito?!
Como diz a velha máxima: “Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas o tempo todo.”
Fomos ludibriados por décadas. Mas o peso mudou de lado. A sociedade organizada e de bem acordou e buscou forças para virar o peso da balança. Agora é a hora de alimentar o lado direito, do conservadorismo, da família, da política econômica liberal, da liberdade de possuir uma arma se for de sua escolha, de menos Estado e mais Brasil,  de mais deveres, de mais respeito, de mais educação sem viés ideológico, de menos impostos, de menos bolsas tudo e mais oportunidades reais. De respeito ao privado, de incentivo à iniciativa privada para geração de empregos. Eu poderia discorrer aqui por várias linhas para expressar o desejo do lado direito da balança.  Mas o grande diferencial é o Estado mínimo.
O país ideal é ter a balança em nível. Um nível político, não de esquerda ou de direita, mas de respeito com a sociedade, com o dinheiro público.  Com a verdade acima de tudo.  Já com relação à ética e à moral, não há nível, ou se é ou não o é. Aqui a balança não tem espaço.
O meu lado fiel da balança tende para o direito, sempre. E o seu, caro leitor, qual é?”
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O Amor (Crônica)

Escrever sobre o amor é coisa fácil, trivial para qualquer escritor. Alguém, em algum tempo, em qualquer lugar, já escreveu sobre ele.
O amor em suas mais diferentes formas.
Sim, o amor não é um só, único, como alguns pintam. O amor tem caras, jeitos, trejeitos, formas, voz, idade, condição, vida e morte. O amor cria, destrói, faz a paz e a guerra. Tudo em seu nome.
O amor é subjetivo ao extremo. Cada um, cada qual, ama do seu jeito.
Uns acham que amam para sempre, como o amor de mãe, o amor pelo Criador, o amor de Romeu por sua Julieta, o amor pela família, pelo companheiro, o amor eterno, que transcende.
Outros acham o amor um sentimento efêmero, que vem e vai, conforme os acontecimentos tomam lugar na vida. Eu explico: apaixona-se, desapaixona-se. Se ama pai e mãe até o dia do divórcio, aí é rancor ladeira abaixo, não que o amor acabe, mas fica diferente. Ama-se durante a vida e, após o suspiro final, cai-se no esquecimento. E por aí vai. Cada qual, cada um.
Eu amo muitas pessoas nessa vida. Amo viajar, amo ler, escrever. Mas se esse amor é para sempre, aí já são outros quinhentos. Esse sentimento é variável. Sobre as pessoas, umas eu amo mais, outras já nem tanto. Mas o amor está presente, às vezes mais, às vezes menos. Esse é o meu amor, a forma como eu o sinto.
Conheço pessoas que amam ao extremo, sacrificam o seu eu pelo amor do outro, como se fosse algo saudável, algo que completa o seu ser. A meu ver, um infeliz.
Conheço pessoas que amam a Deus sobre todas as coisas. Que outras coisas seriam essas? Sua vida? Seus filhos? Sua família? Seu lar? Seu time de futebol? Seu carro? Mas Deus não está em tudo isso? Não dá para amar a Deus e todas essas coisas igualmente? Por que tem que ser sobre todas as coisas? Não acho saudável.
Já o amor pelas coisas fungíveis, ah, esse é incondicional. Ama-se tanto as coisas que se mata por elas. Esse amor é das trevas, ou qualquer coisa que se associe ao mau.
Nos últimos tempos, um amor que tem crescido e se expandido é o do homem pelos animais. Parece que o ser humano descobriu no bicho de estimação um amor sem cobranças, um amor que pode até ser unilateral, mas que continuará sendo a mais sincera forma de amor.
O primeiro amor merece atenção especial aqui. O primeiro amor é genuíno, puro, acontece por acaso, acelera o coração, dói o peito, angustia, sente uma saudade imensa, é pura química. Esse amor a gente guarda pra toda a vida. Alguns sortudos o tem para sempre, outros o tem por alguns dias ou semanas. Feliz daquele que já sentiu esse amor e foi correspondido.
O amor impossível, ah, esse já foi retratado em vários romances e filmes. Aquele amor cheio de sofrimento, sacrifício. Orfeu e Eurídice, Tristão e Isolda, Marco Antônio e Cleópatra, Romeu e Julieta, são símbolos de amores levados o extremo de sua existência.
“Enquanto Eros, tirano, nos escraviza às paixões, o amor platônico não é repressor, mas faz o homem procurar saber o que é esse amor.” Essa frase eu li num artigo sobre “O mito do amor impossível”. Achei interessante a referência ao deus do amor com “um tirano”.
Diz-se que vivemos três amores durante nossa passagem por esse planeta: o primeiro, o grande e o eterno amor. Sim, caro leitor, o eterno amor...
E você, já viveu qual deles?
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Meu Lugar

Apaguei tudo, depois de lido, relido, apaguei tudo. Eram lembranças que decidi não lembrar mais, não que fossem lembranças ruins, mas só não queria lembrar mais.
Lembranças que doíam e de alguma forma apertavam meu coração, me deixavam com uma saudade imensa.
Saudade.
Tudo aqui me dava saudade de lá.
Meu sangue estava lá e lá estava tudo o que eu realmente queria, minha casa, minha família, minha alegria.
Ah, que saudades de lá.
As folhas verdes que balançavam com o vento não estavam me trazendo esperança.
Por que será? A esperança estava me trazendo desesperança daqui, daqui desse lugar que não era meu lar.
Ah, como eu queria o meu lar, meu lugar.
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O Anjo (Crônica)

Onde estás, oh criação, que dorme pesadelos e vive sonhos tresloucados, contando com o perdão divino?
Uma vez vivi uma experiência um tanto surreal. Saí do meu corpo enquanto dormia e me deparei com monstros alados e chifrudos e estes, quando me fitaram, colocaram fogo pela goela para me queimar as pestanas. 
Corri, corri muito para me livrar das criaturas na esperança de encontrar um riacho pra apagar o incêndio que o fogo cuspido pelos dragões me crestava.
Acordei vertendo água pelos poros mas aliviada de ter me livrado de tais seres fabulosos.
Aí minha vida começou naquele dia, um dia divino, cheio de luz do sol. Vivi um sonho acordada. Sonhei que pisava firme no chão dentro do meu corpo e resolvi banhar-me dele, do sol, pra captar energias e seguir a diante em busca de respostas para minhas inquirições. Esperava respostas convincentes sobre a vida, a morte, Eu, Deus... Eu me escrevo com letra maiúscula, pois uma resposta Eu consegui naquele dia, que Eu sou Deus, sou o meu Deus e que todos nós temos um dentro do corpo vivo. Um Deus tão poderoso que julga, condena, absolve, dá à luz, tira a vida, faz e acontece, ama, odeia, cria e destrói. Esse Deus que Eu tenho dentro do meu corpo vivo é o Deus todo poderoso e Eu tenho todo controle sobre ele. Deus sou Eu. Sabe quem me deu essa resposta? Foi um anjo.
Bom, consegui respostas sobre Eu e Deus naquele dia, mas a vida e a morte ficaram para a noite depois do dia que estava por vir, a noite em que eu dormiria pesadelos de novo, mas agora sabendo que só esse Eu despacharia os dragões para outro planeta.
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Um Livro


Não tenho um livro, um livro não tenho.
Ando, como, bebo, escuto bobagens e um livro não tenho.
Não tenho um livro para me livrar deste marasmo
Um livro não tenho.
Quero um livro para viajar, imaginar, conhecer.
Quero um livro para flutuar, historiar.
Mas um livro não tenho e continuo ouvido bobagens,
Comendo, bebendo, assistindo e falando.
Que marasmo é um domingo sem um livro.
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