andreza g. a. alves

andreza g. a. alves

n. 1999 -- --

Há 20 anos resistindo em vida. Intensa em demasia. Escritora porque é preciso, leitora porque as estrelas do céu lembram letras no papel. Estudante de psicologia pela PUC Minas e admiradora sem precedentes de Pablo Neruda e Leminski.

n. 1999-12-25, 25/12/1999

Perfil
9 723 Visualizações

Como se o coração tivesse azia

Meu sentimento vem me ardendo no peito
como se meu coração tivesse azia.
Mas eu até gosto da sensação
Gosto porque veio de onde veio

Gosto de carregar essa criaturinha no meu nome,
e inventar elos ancestrais infinitos entre nós.
De te aproveitar nas pequenezas, nas incertezas
vacilantes

Gosto como tu me vê daí como eu te veria com seus olhos, mole de admiração
Admiração tamanha que se ajunta com o passar dos sóis e verões.

Ela tem desse negócio extraordinário de girar o pensamento
em lugares muitos e nunca pegar atalhos dentro das ideias.
Ela tem dessas de prolongar despedidas
De não deixar se apanhar pelo vício
De deixar o peso da terra leve
Ela tem coragem do amor, coragem da vida
De cair em si e não levantar, dentre outras

Nessa quimera concluo
assim então
Duas coisas: a primeira que tenho certeza é que esses pensamentos sobre ela
chegam de um súbito em ocasiões impróprias

A segunda é que a primeira é verdadeira
Ler poema completo

Poemas

1

A minha vontade é de sair gritando.

A minha vontade é sair gritando
Muito prazer, eu tô aqui. Aqui em baixo. Aqui, aqui em baixo na sua sola.
Eu sou a pedra no seu sapato. Eu sou a ferida em si mesmo que você se recusa
a ver. Eu tô aqui. Não consegue ver? Não quer? Sua lei me tornou ilegal. Suja.
Louca. Sem moral!
Preta suja! Preto sujo! Não te quero dentro da minha família não, não quero, não.
Claro que respeito, não tenho preconceito coisa nenhuma. Tenho até amigos que são.
Só não tem nenhum vivo mais. Claro que não sou homofóbico. A criatura gay é uma das
criaturas mais fascinantes. É só a minha opinião, porra.
Não tem paz, tem não. A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. A paz é seleta. Tem nome, cor, orientação sexual normativa e endereço. Não visita qualquer um não. Nada. Não sou da paz, não sou boba. Não vou ficar quieta, não vou calar a boca. Não sou louca, maluca, surtada. Não vou perdoar! Não quero! Não vou desfazer minha cara de cu 
não vou mesmo. Não vou rezar. Reza você aí na sua casa. Bate na porta, pede licença, entra e senta no sofá aquela senhora. Conversa, conversa e conversa. Respeito, mas não concordo. Não fala assim comigo, respeita os mais velhos. Sua mãe não te deu educação, sua sapatão macumbeira do caralho? Foda-se sua crença, foda-se sua crença. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os pretos. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos os viados. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Menos sapatão. O senhor é meu pastor e nada me faltará. Amai-vos uns aos outros. Vem que ele te salva. Ah, não quer? Então vai queimar no fogo e enxofre no nono círculo do inferno.
Morreu mais um traveco ali ó. Nem foi tão grave, não teve arma, só usaram as mãos. Uau. Pra que serve essa mão tão grande? Pra dar soco na costela de viado. E as duas duas tiram esganam, tiram o fôlego, tiram o ar dos pulmões e inflam o ego. As mãos, os braços, as pernas circundando o corpo como urubus em cima da carniça. E aí num sopro a vida se foi. Que pena! Não vai nem sair no jornal, ninguém liga. Tanta coisa pior pra sair na capa. Hannah arendt já foi clara que notícia ruim vende porque o bem ainda é coisa rara. Ninguém tá nem aí pro dia internacional contra a homofobia. Tenho tanta coisa pra fazer. Arroz e feijão. Arroz e feijão.
375

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.