Laços que nos fez nós
Sonhei com o cheiro da tua pele
Teu corpo
de essência deliciosa e salivante
o atrito corpo-teu-corpo-meu nos acendeu
Na penumbra soltamos centelhas que incendiaram o quarto, fogos de artifício e nas labaredas te acendi um cigarro
Na fumaça e luz rúbea vacilante
me dei por vencida
Enfeitiçada
Adiei o amanhã
Afim de te ter no espaço espremido que se faz o hoje
Vai, mas volta
Fica
Te guardo dentro de mim
Me rasgo por fora, me abro só pra te manter aqui
Me eterniza no teu olhar
Me chama, me acende
Me tira pra dançar Gilsons
num ritmo descompassado errante
Pisoteado descalçado
Eu e tu ao centro da circunferência circular
Infinita do ciclo que se cria num elo entre nós
Hoje me prendo nos laços
que nos fez nós.
Me demoro no pesar de
esperar por teu convite pra uma ocasião
Uma ocasião especial como a vida
Uma última dança contigo na festa
que foi ter te encontrado.
Ventus Est
Me interessa esse lado teu
Fiz desse meu lugar favorito
do lado de cá
Onde viver é estar
Estar sonhando e contando
quantos sonhos cabem numa vida
Me interessa alcançar o que ainda inexiste
Intrigar multidões por que passo
Meu lugar favorito é nas incertezas dos dias correntes
Feito enxurrada de verão
No espaço entre um verso e outro
Na curva de um ombro amigo de amor moldado
Moro no cheiro de quem a gente quer bem
No olhar desbravador recostado na janela do carro
No ato de enxergar o outro como um ato político
Moro na vontade de manter vivo
o sentido escasso das coisas
Moro por curta estadia nos olhares silenciosos
nos olhos que se devoram
nos beijos que conversam
No amor
Eventualmente
Meu lugar favorito é definitivamente no amor
Sentimento ignorante que extravia os juízos
Essa inclinação humana de arrastar erros por décadas
Nesse amor
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros de carlito
é nele que habito.
Jorginho
"Eu continuo firmemente pensando
em modificar o mundo
e acho que a literatura tem uma grande importância."
Jorge Amado
Sorri amarelo
Há algo na fome que nos priva do raciocínio.
Há fome de algo que a mente não sente.
Há gente que mente que os olhos não veem
que mente que sente pena de carente.
Mente tão bem que passa despercebido
pela porta de entrada.
Se esgueira no mundo de quem não tem muito,
de quem é refém do tanto que tem.
Entra nas entrelinhas
e ousa fazer jura mais vazia que barriga de mãe de sete.
Abraça quem quer e faz uma foto sorrindo amarelo.
Os dias seguem azuis, o sol rachando o solo e a boca.
Fica posto assim então que é difícil alimentar a razão se não tem terra pra grão.
Ora, Carlos
Ora, menina, sossegue, amar é assim mesmo: hoje beija, amanhã não beija, ontem cuidava de lá, hoje cuida daqui, mas com a mesma ternura e vontade exagerada.
Hoje sente falta, amanhã sente mais e vai assim aumentando a dose até preencher o peito todo de ânsia por encher-se dela. Aí mata.
Quando mata mata direito, pra não deixar nenhuma lasca da braba. Mata a saudade e a vontade, assim nessa ordem
Como se o coração tivesse azia
Meu sentimento vem me ardendo no peito
como se meu coração tivesse azia.
Mas eu até gosto da sensação
Gosto porque veio de onde veio
Gosto de carregar essa criaturinha no meu nome,
e inventar elos ancestrais infinitos entre nós.
De te aproveitar nas pequenezas, nas incertezas
vacilantes
Gosto como tu me vê daí como eu te veria com seus olhos, mole de admiração
Admiração tamanha que se ajunta com o passar dos sóis e verões.
Ela tem desse negócio extraordinário de girar o pensamento
em lugares muitos e nunca pegar atalhos dentro das ideias.
Ela tem dessas de prolongar despedidas
De não deixar se apanhar pelo vício
De deixar o peso da terra leve
Ela tem coragem do amor, coragem da vida
De cair em si e não levantar, dentre outras
Nessa quimera concluo
assim então
Duas coisas: a primeira que tenho certeza é que esses pensamentos sobre ela
chegam de um súbito em ocasiões impróprias
A segunda é que a primeira é verdadeira
E tentar de novo
Nascer. Abrir os olhos. Contemplar. Vislumbrar. Chorar. Espichar, alargar. Se desenvolver. Compreender. Observar. Questionar. Exigir. Espernear. Obedecer. Desobedecer. Descobrir. Esconder. Se maravilhar. Amedontrar. Assimilar e atenuar. Contemplar. Mergulhar. Ferir a cabeça no mergulho. Aprender, desaprender. Guardar. Assimilar. Tentar. Se ferir. Entender. Prevenir-se. Praticar. Tentar de novo. Aproveitar o sol. Correr. Pular. Divertir-se. Abraçar e ser abraçado. Encompridar. Agora cresceu. Quanto? O suficiente. Aprendeu? Não o bastante. De novo e de novo. Mas agora diferente. Chorar (muito). Se descobrir. Olhar ao redor, se identificar. Julgar. Caçoar. Zombar. Sofrer zombarias. Se rebelar. Não compreender, e assim se frustrar. Chorar de novo. Resistir. (Re) existir. Metamorfosear. Transfigurar. Transformar. Se identificar. Detestar. Penar. Mudar. Se renovar. Aceitar. Rasgar-se. Remendar-se. Apaixonar-se. Desapaixonar-se. Amar. Não ser amado. Se armar. Chorar demais. Se desenvolver. Amadurecer. Reconhecer. Surtar. Estudar. Decidir. Mudar de ideia. Mudar de ideia três vezes. Aquietar. Crescer. Se contentar. Lucrar. Não lucrar. Lutar. Perder a luta. Ganhar outra. Repetir. Olhar nos olhos, permanecer. Olhar nos olhos e não permanecer. Seguir. Multiplicar, sorrir, construir. Não multiplicar, sorrir, construir. Desacelerar. Acomodar. E abraçar o que vier. Morrer não. Transcender.
Sabe onde está sua alma gêmea?
Isso de alma gêmea é um negócio estranho. Você passa a vida toda procurando a bendita por todo canto.
Olha debaixo do tapete de tricô da sala, todo furadinho e permeável. Levanta uma poeira toda na caçada. Confere dentro dos bolsos da calça jeans de sexta-feira, dentro da carteira e nada. Arreda (que inclusive descobri que essa palavra só a gente mineiro usa!!!!) os móveis de lugar pra olhar atrás. O
nos dvds e na caixa de fotos que sempre tem em guarda-roupa de mãe. Essa andança é contínua, não deram previsão de ter fim por sinal. Vai ver a alma gêmea nem é gêmea, ou sequer quer ser encontrada. Imagina só dar de cara com o amor da sua vida e ele já ser o amor da vida de outra pessoa. Essa busca que só Deus sabe onde é o meio e o fim encontrou até o que não devia ser encontrado. Mas esse tempo todo ela tava lá no banheiro na sua frente todo dia quando você vai escovar os dentes e respinga tudo, tá no retrovisor, no vidro escuro do carro pelo qual você passa na rua.
Esse título fica a critério do leitor
Onde nascem poetas? Perguntou afoito afim de saciar a dúvida que
lhe martelava a cabeça desde que se vê como homem.
-Não onde e sim o que. O que faz de ti poeta se não a própria poesia. Genérico demais. Talvez nao engulam, é de pouco entendimento de fato.
Nasci no século passado, mas nao nasci poeta.
Não se nasce poeta. Se nasce despido, aos berros, sem ideias, e sem consciência moral. Fui poeta desde os onze anos, desde então não é qualquer um que me converte. Sorte aos que tentarão. Quantos versos se contam num curto infinito? O desdém tem sabor de poesia tanto quanto deveria. O aroma cortante que sangra os olhos também deleita os que o amam. Os que o parafraseam a gosto. Com estes olhos é que se vê
A poesia.
o céu chorou e eu chovi
Dia desses eu tava chorando e o céu me acompanhou. Num desses dias que a gente carrega todo o sentimento do mundo. É um negócio pra ter peito, inflado de coragem mesmo.
Não sei quem foi que andou espalhando por aí que tem de engolir choro e manter a postura. Mas se engole choro demais no final a gente vai ter um mar inteiro de dentro pra fora. Tudo tem que transbordar. Eu tenho um monte de conhecido pela vida, e aí um deles, que é desempregado, por razões lógicas ou dependendo vai que não, né.
O menino disse que chorar é quando o olho tá vazando. O fato é só esse mesmo, não tem caso, não. A gente fica engolindo coisa não dita, engole desaforo, engole até sapo.
E pra que isso aí? Sei que coragem é uma bravura limitada pra poucos, que nem todo mundo é herói, que nem todo mundo tem a mãnha. Mas tem aquela sentença de que ninguém é de ferro, que não paga imposto, dito isso tá mais que permitido vazar pelos olhos que não enferruja. A gente precisa mostrar que a gente é de verdade.