NÉCTAR
Da portada semiaberta corre uma brisa fresca e desponta um feixe de luz rosado.
Acordo e penso em ti... A forma e os contornos do teu rosto aparece como uma miragem na parede gasta do quarto...
Cansado de tantas lutas antigas, sinto-me fraco e nem esboço um levantar...
Do lado direito da cama o beija flor tenta a ultima recolha de néctar na flor que repousa na velha jarra e eu sorrio perante a companhia...
Puxo o lençol de seda para junto do peito e sinto saudade da tua voz e sorriso e peço a quem te colocou no meu caminho que nunca mais te volte a afastar!
Cura
Fractura de vida que nunca saraste, exposta permaneces de recordo dos erros e excessos... Brutal castigo!
Dor, âmago do rosário dos dias, penitência ladra o vizinho sem nunca se confessar!
E eu que nada entendo de fisioterapia, nem medicina, benzo-me crendo que possa em última análise ter sido maldição ...
Corre o riacho da loucura cada vez com mais corrente, vou depressa banhar a ferida na ânsia da possível cura...
Sem sucesso !!!
Escorpião e o ferrão
Suicídio, sim tu que me puxas a blusa a cada momento inadvertidamente e eu sorrio sempre à tua chegada, desconfiando sempre da duração da visita...
O teu toque é calmo, é antes um roçar na porta de madeira antiga calcinada pelo sol...
Faço-te sempre lugar como um velho amigo e tens sempre a chave da porta e sabes bem, ela nunca está trancada!!!
Já agora, não te tenho visto muito ultimamente!?
Caído
Avisos, avisos, avisos... Chamas a estes choques frontais no betão da nova catedral, esse nome? - Não! - Chama-me a atenção de forma meiga, passa-me a mão no queixo e num só acto levanta-me deste lamaçal que nunca seca!!!
Não tenhas todo o tempo do mundo, não vires a ampulheta mais uma vez, que estou tonto de tantas viragens!!!
Não acredito que sou feito de barro, isso é conversa de bêbados em bordéis sem dinheiro...
Não me deixes mais tempo assim, leva-me contigo!!!
Banho
Chuva incandescente de mágoas invade-me hoje o espírito, que não se cansa de nadar no teu lago de esquecimento ...
Na margem imóvel contemplo tamanha resiliência e penso em como os pássaros também não têm consciência da hipótese de perecerem em pleno voo...
E assim fico a fumar a neblina da manhã e à espera que saias da água pelo teu pé!!!
Febre
O gelo da tua ausência marca o compasso deste relógio que me fere a alma a cada batida...
Fica o eco da tua promessa, a febre que me conduz a esta loucura infindável...
Só
A porta do castelo da minha alma está aberta e emperrou...
Sentinela ausente, joga baralho e perde sempre não volta ao posto...
Fico assim sem guarda, não faz mal- penso, também ninguém consegue chegar aqui !!!