GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018
SHITSEEING (Bertholt Friedrich Brecht , o senhor tinha razão)
Acabou a drogaria. Apareceu a creperie. Não era comigo, não me importei. Fechou a velha retrosaria. É agora uma boulangerie Alsaciana. Não era comigo, não dei relevância. O sapateiro desapareceu. Instalou-se naquele lugar uma gelataria. Não era comigo, não me preocupei. A taberna fechou. É agora um bistrot com palavras esquisitas. O alfarrabista foi assassinado por uma loja de artesanato português, feito num país qualquer, que nada sabe do galo de Barcelos. A livraria enforcou-se com um nó de coragem ressequida. Não era comigo, não me incomodei. Fui corrido da minha casa. Tarde demais. &... Não acontece só aos outros.
2018Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
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CORAÇÃO DESVIRGULADO
Senta-te no meu colo. Agora mesmo. Quero sentir o intervalo das tuas nádegas. Gostar da tua beleza não fundamental. Do sexo acidental. Da tristeza não absorvente. Da púbis sem detergente. Do oral conveniente. E de um bom esfreganço Cozinhado ao vapor. Gosto da procissão no adro. Do cântico desafinado. Do santo sem andor. Gosto de um crucifixo filigranado. De um padre aleijado. Do peditório enfeitado Com notas falsas para as obras do prior. Gosto de ti, Se não gostares de mim, Quando sou assim, Distante dos sentimentos baratos. Gosto das velas solteironas. Dos recheios dos sutiãs. Das cópulas em poltronas. Das peles com o toque Do coração desvirgulado.
2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA
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A ÚLTIMA VEZ
Diz-me que não estou errado, quando consigo falar com os anjos. Só pretendo o abandono desta dor que mostra a luz definitiva. “sister morphine”, reza comigo, nesta cama, para o breve sonho da morte. Beija-me a febre, com o alegre suor das lágrimas vermelhas. Posso agora contar-te o meu único segredo: em nada pretendi ser exemplar.
2019out_aNTÓNIODEmIRANDA
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(SEM PROBLEMA)
Vamos construindo o caminho
As minas estão claramente Identificadas
Alinhadas por ordem fonética
Ansiando pelo directo Previamente combinado
,2022Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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E O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU
Luz seca corta o céu em bocados de desespero Fugir sem sair Morrer abraçado a um grito Chorar numa cama de sombras vadias Humedecer a tristeza Acordar a espera Distrair a angústia Agarrar a fisga Rezar o último segundo Queimar o prazo da validade Regar ausências Explodir frequentemente Enraivecer Conferir Suturar esperanças Despoletar por aí
,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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CUIDADO! OS DARDOS ESTÃO LANÇADOS
Gosto das noites que desenham convites atrevidos Gosto de rachar segredos Gosto de passear o futuro com os pés ausentes da cabeça.
E nos momentos em que a espera me escreve, Gosto de afagar a memória num saudável desalinho
Gosto de embebedar-me exaustivamente, Uivar Saudar a ousadia das estrelas, Despoletar o cinto, Escrever (mesmo com sangue na alma) que o amor que engana nem sempre é mentiroso.
Genuinamente só, Gosto de baralhar o conflito de uma qualquer intenção fraudulenta.
Adoro esticar a corda até o nó ficar desfeito continuar a não desperdiçar tempo no baile de borboletas nocturnas.
Gosto dos convites escritos nos decotes audaciosos. Gosto de sedição sem defeito.
Das estrangeiras sem depilação? Não!
Gosto da ovelha ronhosa
Nunca da mania ranhosa
,2022Out_aNTÓNIODEmIRANDA
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ESTANTE VAZIA
Tinha comprado aquele livro para ti.
Nas páginas estava escrita a anomalia da ausência.
Rasguei-as palavra a palavra e assim queimei para sempre o circo da saudade que já não és.
Agora tenho um novo.
Suave companhia com todos os sabores da respeitada cumplicidade.
Oferece a calma no roupão da solidão companheira dos instantes para sempre importantes.
Segue a decepção para o ocaso do desprezo.
Certas noites embalam as certezas menos mentidas aconchegadas no abraço da flor sem tempo.
A pele estica-se fora da dor, fugindo do sangue atropelado pela lama da vida.
Tenho na mão o hálito salgado dos tempos morridos desta espera constante.
Não posso pedir ajuda a esta importância que me julga, neste cambalear com que embalo o meu vazio,
pensando iluminar as agruras onde tanto me desanimei.
Estendo sorrisos como se a eles alguém acenasse e assim me envolvo em bolhas de cotão.
Vou passando em todas as ruas como a areia do deserto que sobrevive à falta da mais pequena ternura.
Chego sempre cansado demasiado cansado carregando o peso da minha ausência.
Descalço o olhar escondo o desejo alisando a memória nas ilustrações esbranquiçadas da minha ilusão.
Infinito é o bocejar do meu passado feito com o polimento das pedras que me atiraram.
Continuo apartado.
...depois de todo este tempo.
,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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O TEMPO DA CANÇÃO FELIZ
Guardava sempre no bolso aquela ideia que constantemente lhe fugia da cabeça. _Encostado à parede das sensações saborosas, enroscava o carinho que vestia os seus passos. _Depois, sentado na espera habitual, mirava a própria sombra que lhe mostrava o caminho. _Serrava o olhar num assomo de respeito, e desenhava na memória a estrada que lhe apetecia. _Nunca olhava para trás._ Seguia página a página, a estrela que um anjo, há muito tempo pintara._ Leu de relance os livros que lhe forraram a vida, e num ápice majestoso, abraçou os blues que lhe vestiam a pele. _ Pegou em si, com toda a precaução, e seguiu na companhia do tempo que tanto o estimou.
,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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SILÊNCIO VERMELHO
Infernos íntimos sem ponto de fuga. Há quem nunca tenha saboreado o significado da esperança. Construímos ninhos noutros corpos, com a mão que treme quando te tiro a roupa, fazendo da pele uma luva qualquer, que lentamente enternece todo o amor solitário, entre paredes que miram o nosso voo, como se fosse secreto este desejo. Ninguém verá a nossa máscara. São tão pontuais estes dias que a pausa não pode acontecer. O que impede outros passos? Quero que continues a vir todas as tardes e dizer-me este silêncio vermelho das rosas. Quando partiremos a jarra com este cheiro bolorento, onde murcham as outras flores?