ANTÓNIO DE MIRANDA

ANTÓNIO DE MIRANDA

n. 1955 PT PT

GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018

n. 1955-03-03, Barcelos

Perfil
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SOSSEGO

Velha fraga escondida

                                    Enternece com o olhar

                                                                O voo de quem a                                                                            procura




,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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Poemas

16

SHITSEEING (Bertholt Friedrich Brecht , o senhor tinha razão)

Acabou a drogaria.
Apareceu a creperie.
Não era comigo,
não me importei.
Fechou a velha retrosaria.
É agora uma boulangerie Alsaciana.
Não era comigo,
não dei relevância.
O sapateiro desapareceu.
Instalou-se naquele lugar uma gelataria.
Não era comigo,
não me preocupei.
A taberna fechou.
É agora um bistrot com palavras esquisitas.
O alfarrabista foi assassinado
por uma loja de artesanato português,
feito num país qualquer,
que nada sabe do galo de Barcelos.
A livraria enforcou-se
com um nó de coragem ressequida.
Não era comigo,
não me incomodei.
Fui corrido da minha casa.
Tarde demais.
&...
Não acontece só aos outros.



2018Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
143

CORAÇÃO DESVIRGULADO

Senta-te no meu colo.
Agora mesmo.
Quero sentir o intervalo das tuas nádegas.
Gostar da tua beleza não fundamental.
Do sexo acidental.
Da tristeza não absorvente.
Da púbis sem detergente.
Do oral conveniente.
E de um bom esfreganço
Cozinhado ao vapor.
Gosto da procissão no adro.
Do cântico desafinado.
Do santo sem andor.
Gosto de um crucifixo filigranado.
De um padre aleijado.
Do peditório enfeitado
Com notas falsas para as obras do prior.
Gosto de ti,
Se não gostares de mim,
Quando sou assim,
Distante dos sentimentos baratos.
Gosto das velas solteironas.
Dos recheios dos sutiãs.
Das cópulas em poltronas.
Das peles com o toque 
Do coração desvirgulado.




2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA
144

A ÚLTIMA VEZ

Diz-me que não estou errado, 
quando consigo falar com os anjos.
Só pretendo o abandono
desta dor que mostra
a luz definitiva.
“sister morphine”,
reza comigo, nesta cama,
para o breve sonho da morte.
Beija-me a febre,
com o alegre suor das lágrimas
vermelhas.
Posso agora contar-te
o meu único segredo:
em nada pretendi ser exemplar.


2019out_aNTÓNIODEmIRANDA
144

(SEM PROBLEMA)

Vamos construindo o caminho

As minas estão claramente
                Identificadas

Alinhadas por ordem fonética

Ansiando pelo directo
            Previamente combinado



,2022Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
154

E O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU

Luz seca corta o céu 
em bocados de desespero
 Fugir sem sair
Morrer abraçado a um grito
Chorar numa cama de sombras vadias
 Humedecer a tristeza 
Acordar a espera 
Distrair a angústia 
Agarrar a fisga 
Rezar o último segundo 
Queimar o prazo da validade 
Regar ausências 
Explodir frequentemente
Enraivecer
Conferir
Suturar esperanças
Despoletar por aí



,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
148

CUIDADO! OS DARDOS ESTÃO LANÇADOS

Gosto das noites que desenham convites atrevidos 
Gosto de rachar segredos
Gosto de passear o futuro
com os pés ausentes da cabeça.
 
E nos momentos em que a espera 
me escreve, 
Gosto de afagar a memória 
num saudável desalinho

Gosto de embebedar-me exaustivamente, 
Uivar          Saudar a ousadia das estrelas, 
Despoletar o cinto,  
Escrever (mesmo com sangue na alma) 
que o amor que engana 
nem sempre é mentiroso.
 
Genuinamente só,  
Gosto de baralhar o conflito de uma qualquer
intenção fraudulenta.

Adoro esticar a corda até o nó ficar desfeito 
continuar a não desperdiçar tempo 
no baile de borboletas nocturnas. 

Gosto dos convites escritos nos decotes audaciosos.   Gosto de sedição sem defeito.

Das estrangeiras sem depilação?          Não!

Gosto da ovelha ronhosa

Nunca da mania ranhosa

 

,2022Out_aNTÓNIODEmIRANDA
159

ESTANTE VAZIA




Tinha comprado aquele livro
para ti.

Nas páginas estava escrita a
anomalia da ausência.

Rasguei-as palavra a palavra
e assim queimei para sempre 
o circo da saudade que já não
és.

Agora tenho um novo.

Suave companhia com todos os
sabores da respeitada
cumplicidade.

Oferece a calma no roupão da
solidão companheira dos
instantes para sempre
importantes. 

Segue a decepção para o ocaso
do desprezo.
 
Certas noites embalam as
certezas menos mentidas 
aconchegadas no abraço da flor
sem tempo.



,2023Out27_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com                                   
.


33

O HÁLITO SALGADO

Está frio no meio do meu sonho.

A pele estica-se fora da dor,
fugindo do sangue atropelado 
pela lama da vida.

Tenho na mão
o hálito salgado 
dos tempos morridos
desta espera constante.

Não posso pedir ajuda
a esta importância que me julga,
neste cambalear
com que embalo o meu vazio,

pensando iluminar as agruras
onde tanto me desanimei.

Estendo sorrisos
como se a eles alguém acenasse
e assim me envolvo em bolhas de cotão.

Vou passando em todas as ruas
como a areia do deserto
que sobrevive à falta da mais pequena ternura.

Chego sempre cansado
demasiado cansado
carregando o peso da minha ausência.

Descalço o olhar
escondo o desejo
alisando a memória
nas ilustrações esbranquiçadas
da minha ilusão.

Infinito é o bocejar do meu passado
feito com o polimento das pedras
que me atiraram.

Continuo apartado.

...depois de todo este tempo.



,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
172

O TEMPO DA CANÇÃO FELIZ

Guardava sempre no bolso aquela ideia
que constantemente lhe fugia da cabeça.
_Encostado à parede das sensações saborosas,
enroscava o carinho que vestia os seus passos.
_Depois, sentado na espera habitual,
mirava a própria sombra que lhe mostrava o caminho.
_Serrava o olhar num assomo de respeito,
e desenhava na memória a estrada que lhe apetecia.
_Nunca olhava para trás._
Seguia página a página, a estrela que um anjo,
há muito tempo pintara._
Leu de relance os livros que lhe forraram a vida,
e num ápice majestoso,
abraçou os blues que lhe vestiam a pele.
_ Pegou em si, com toda a precaução,
e seguiu na companhia do tempo que tanto o estimou.



,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
166

SILÊNCIO VERMELHO

Infernos íntimos sem ponto de fuga. 
Há quem nunca tenha saboreado 
o significado da esperança. 
Construímos ninhos noutros corpos, 
com  a mão que treme quando te tiro a roupa, 
fazendo da pele uma luva qualquer, 
que lentamente enternece todo o amor solitário, 
entre paredes que miram o nosso voo, 
como se fosse secreto este desejo. 
Ninguém verá a nossa máscara. 
São tão pontuais estes dias 
que a pausa não pode acontecer. 
O que impede outros passos? 
Quero que continues a vir todas as tardes 
e dizer-me este silêncio vermelho das rosas. 
Quando partiremos a jarra com este cheiro 
bolorento, onde murcham as outras flores?




2015aNTÓNIODEmIRANDA

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