GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018
A pele estica-se fora da dor, fugindo do sangue atropelado pela lama da vida.
Tenho na mão o hálito salgado dos tempos morridos desta espera constante.
Não posso pedir ajuda a esta importância que me julga, neste cambalear com que embalo o meu vazio,
pensando iluminar as agruras onde tanto me desanimei.
Estendo sorrisos como se a eles alguém acenasse e assim me envolvo em bolhas de cotão.
Vou passando em todas as ruas como a areia do deserto que sobrevive à falta da mais pequena ternura.
Chego sempre cansado demasiado cansado carregando o peso da minha ausência.
Descalço o olhar escondo o desejo alisando a memória nas ilustrações esbranquiçadas da minha ilusão.
Infinito é o bocejar do meu passado feito com o polimento das pedras que me atiraram.
Continuo apartado.
...depois de todo este tempo.
,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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FARPAS
Desenhava grandes viagens na almofada
Suaves voos de arpejos trocavam sorrisos com o céu
Mas, o tempo, nem sempre se mostra como o amigo necessário
Uma a uma enterrou as farpas no luar onde a lua se esconde da poesia
,2023Out_aNTÓNIODEmIRANDA
192
SOSSEGO
Velha fraga escondida
Enternece com o olhar
O voo de quem a procura
,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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POEMA PARA UMA PASSAGEM DE ANO COM FINAL FELIZ
Lembro-me de certos dias, De um sonho sem retorno, De alguns passos desviados, e Da matança integral Dos fracassos com doses de naftalina. Da aparição púdica do homem barata, e Da alfabetização Da ejaculação colectiva. Dos buracos ocasionais Da estrada Da glória, De alguns erros De palmatória que não pude escusar, De certas acções De castidade mal sucedidas, De elogios frios como o mármore, De favores perfeitamente dispensáveis, De poucas curvas sem muita gravidade, De aparições cósmicas sem serem convidadas, De senilidades não vigiadas, De carícias tímidas, De poucas conversas envergonhadas, De algumas urgências atrapalhadas, De poucos convites para a deserção social. Também me lembro Dos dias restantes. Mas esses serão sempre pertença minha. Permitam-me que me apresente: sou um homem que em mim tem fé, e, pelo qual nutro a simpatia suficiente.
,2017dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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SAL!
Sal!Incendiando-me as teias, chorar nas veias e esconder-me na sarjeta da tua saia. Vale o que vale, até porque tu continuas a não saber o fel deste meu gosto que está à venda no mini mercado mais perto de ti. Porque será que me custam a respirar as palavras que nunca entendes? Não é a má vontade do meu desinteresse, até porque me cansei de ser santo, naquela vocação que me abrandava os joelhos na inglória e exacta hora, em que todas as orações eram tão sujas como o nosso não acontecer.Matei-me tantas vezes no chão numa espera sempre crescente onde só cabiam ausências indignas.Atropelei-me queimando uma pele cansada da falta de confortos e viciei-me em oráculos venenosos.Ninguém me ajuda a pegar neste andor com resumos de todas as vontades contrafeitas, pregados numa cruz encristada de pecados que não são os meus.Sal queimado na fogueira dos abrenúncios, coados nas ternuras sem sinónimos, onde lamentos acachapados escorriam de uma barrela embutida nas paletes do desespero sílica mente conservado.E a morte empalada em todas as horas do tempo que recuso viver.Por muito que me digam que gostavam de ser assim, só porque não estimo as segundas vias, prometo-vos que Isto dá-me mais canseira do que o trabalho. Até porque a vida é uma cópula institucional que não respeita a idade.Eu me saúdo no centro mundial da identidade adulterada e aguardo angústias disfarçadas de anjos maus contemplando o tempo que não me presta.Alguém que me salve sem desgosto.Sal!Incendiando-me as telas que eu continuo a rasgar com sopros que me esburacam a algibeira.E eu envolto no sal, pilhando nenúfares ao Monet do meu mar tão desassossegado.Sal e mais sal!Que ilha ainda me restará?Tenho uma sensação necrológica necessitada de uma operação urgente. E falta-me paciência para preencher o formulário da fila de espera.Reclamo o meu desespero embora saiba que ele continuará a ocupar um vão de escada onde choram outros sem abrigo.Ai de mim, ferozmente assado neste sal.Estou cansado de secar lágrimas num varal onde pousam imagens que já não sei retocar.Sal no guisado amargo da minha vida, demasiadas vezes gasta na vã ambição de cortejar a inquietude em tons diferentes.Descontinuo-me escrevendo num moral anónimo liturgias desequilibradas.Sal!Incendiando-me as veias, entupindo as teias da solidão que dorme na minha porta bagagens.Por favor, avisem quem me espera no cais que não encontro para atracar.Sabes quem és?A puta submissa da constante violação.
2016,09aNTÓNIODEmIRANDA
151
A SOMBRA DE DEUS
Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras. As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado. Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos. Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas. Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente. Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos. Fui sequestrado por um arco-íris. Na minha cabeça há um comboio de inquietações sem catalogação possível, escondendo visões numa maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas grito que afaga suavemente confeitos envinagrados argamassa roída coma esquelético ossos braseados cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio, apalpando o êxtase das entranhas deixadas ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso. Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas. Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade. Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos num bordel de virgens electrificadas. Psicoestimulante colérico escravizado pelos embaixadores da maldade. A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim. Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias da nojenta oligarquia do Kremlin. Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão. Confissão mágica emprenhando paixões distraídas acampadas no viaduto da burocracia. Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz de onde fugiu um manequim que nunca aceitou a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões. Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas em postes benzidos. De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível. A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta. Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente da sombra de deus.
Quando te tratarem sempre como um brinquedo Desconfia da intenção Ainda não chegou Dezembro A ferrugem nunca dorme Entretém-se a espalhar cruelmente a infâmia Que consome os nossos dias Enrouquece-nos os sentidos Não esquece um só pormenor Pinta-nos no corpo O som da dor E Por vezes Impede-nos de passar a ferro As pregas da saia da Marilyn Sabemos Sempre que é necessário Que para morrer um grande amor É preciso continuar a viver A ferrugem nunca dorme Compunge-nos com um hálito cínico Fingindo uma preocupação melíflua Exaurida na mentira abundante Com um amanhã Provavelmente tímido Sem nada para acontecer A ferrugem nunca dorme Transforma qualquer vontade Em torno deste tempo Num penhasco onde te possas inclinar.
2016,03 aNTÓNIODEmIRANDA
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CUIDADO! OS DARDOS ESTÃO LANÇADOS
Gosto das noites que desenham convites atrevidos Gosto de rachar segredos Gosto de passear o futuro com os pés ausentes da cabeça.
E nos momentos em que a espera me escreve, Gosto de afagar a memória num saudável desalinho
Gosto de embebedar-me exaustivamente, Uivar Saudar a ousadia das estrelas, Despoletar o cinto, Escrever (mesmo com sangue na alma) que o amor que engana nem sempre é mentiroso.
Genuinamente só, Gosto de baralhar o conflito de uma qualquer intenção fraudulenta.
Adoro esticar a corda até o nó ficar desfeito continuar a não desperdiçar tempo no baile de borboletas nocturnas.
Gosto dos convites escritos nos decotes audaciosos. Gosto de sedição sem defeito.
Das estrangeiras sem depilação? Não!
Gosto da ovelha ronhosa
Nunca da mania ranhosa
,2022Out_aNTÓNIODEmIRANDA
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A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE
Vejo a fome distribuída em longas filas. Máscaras com um choro envergonhado. Olhares perdidos na lama da desilusão. Não é minha esta paisagem, esta certeza que já nada abriga. Um saco de lágrimas. É o que tenho para oferecer ao caixote solidário. A fome não quer mais a morte. Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos da aproximação desconfiada. Olho para os rostos, mas, não tenho memória para gostar. Passa por mim um cão. Não abana o rabo, simplesmente ignora-me, obedecendo à vontade do olfacto, farejando a ausência do vírus. Tornei-me num eu sem mim. Alojei-me no lugar que partiu, despido de qualquer lembrança. Sigo descalço para a fonte dos ocasos. Desejo uma coisa estranha. Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço. A gravação não funciona. A fita iludiu a cassete. Ignoro o convite da porta. Estou confortavelmente fechado nos golpes das curiosidades que não me aliciam. Escondi os cadeados da ousadia. Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos. Desconheço quem irá suicidar-me, depois de embriagar o desalento. A fome não quer mais a morte. Isto não está a correr bem. Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta, mas, o ar condicionado não funciona, e a vontade vai-se finando. A fome não quer mais a morte. Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito. Atiro a má disposição para as persianas. Dou voltas enroladas neste sofá, escrito com recordações pantanosas. Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal. Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida. Convivo bem com os arautos da tempestade. Abraço-me nos seus gritos. Agora já nada me custa. Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados, que não compreendem o apelo ao perdão. Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério. Já escrevi o meu elogio fúnebre. E, ele não comporta mais palavras. A fome não quer mais a morte. Andei tanto aos tombos que nem me lembro das paredes que sangrei. Bebi nas noites longas, o amparo que tudo prometia. Beijei noivas hesitantes, conspurquei os futuros mais risonhos. Continuo a levantar-me num acordar alegre. Tiro a ramela dos olhos, pisco os olhos para o gajo do espelho, alvejamo-nos no ritual costumeiro. Despedimo-nos delicadamente. Sento-me na sanita para aliviar a vontade. A fome não quer mais a morte. Diz a canção que preciso de alguém para amar. A melhor oração para um defunto. Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas, que não me respeitem. Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões, do jackpot das hipóteses aputalhadas, dos conselhos respeitáveis que constantemente batem à porta. Viajo nos lugares que não conheço. Tenho saudades de ti, velho amigo. A fome não quer mais a morte. Onde teremos andado, agora que não encontro o nosso passar? Quando voltaremos a beber o som daquele sax que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo? Paramos nesta página.
,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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E O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU
Luz seca corta o céu em bocados de desespero Fugir sem sair Morrer abraçado a um grito Chorar numa cama de sombras vadias Humedecer a tristeza Acordar a espera Distrair a angústia Agarrar a fisga Rezar o último segundo Queimar o prazo da validade Regar ausências Explodir frequentemente Enraivecer Conferir Suturar esperanças Despoletar por aí