GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018
Gosto das noites que desenham convites atrevidos Gosto de rachar segredos Gosto de passear o futuro com os pés ausentes da cabeça.
E nos momentos em que a espera me escreve, Gosto de afagar a memória num saudável desalinho
Gosto de embebedar-me exaustivamente, Uivar Saudar a ousadia das estrelas, Despoletar o cinto, Escrever (mesmo com sangue na alma) que o amor que engana nem sempre é mentiroso.
Genuinamente só, Gosto de baralhar o conflito de uma qualquer intenção fraudulenta.
Adoro esticar a corda até o nó ficar desfeito continuar a não desperdiçar tempo no baile de borboletas nocturnas.
Gosto dos convites escritos nos decotes audaciosos. Gosto de sedição sem defeito.
Das estrangeiras sem depilação? Não!
Gosto da ovelha ronhosa
Nunca da mania ranhosa
,2022Out_aNTÓNIODEmIRANDA
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E O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU
Luz seca corta o céu em bocados de desespero Fugir sem sair Morrer abraçado a um grito Chorar numa cama de sombras vadias Humedecer a tristeza Acordar a espera Distrair a angústia Agarrar a fisga Rezar o último segundo Queimar o prazo da validade Regar ausências Explodir frequentemente Enraivecer Conferir Suturar esperanças Despoletar por aí
,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE
Vejo a fome distribuída em longas filas. Máscaras com um choro envergonhado. Olhares perdidos na lama da desilusão. Não é minha esta paisagem, esta certeza que já nada abriga. Um saco de lágrimas. É o que tenho para oferecer ao caixote solidário. A fome não quer mais a morte. Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos da aproximação desconfiada. Olho para os rostos, mas, não tenho memória para gostar. Passa por mim um cão. Não abana o rabo, simplesmente ignora-me, obedecendo à vontade do olfacto, farejando a ausência do vírus. Tornei-me num eu sem mim. Alojei-me no lugar que partiu, despido de qualquer lembrança. Sigo descalço para a fonte dos ocasos. Desejo uma coisa estranha. Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço. A gravação não funciona. A fita iludiu a cassete. Ignoro o convite da porta. Estou confortavelmente fechado nos golpes das curiosidades que não me aliciam. Escondi os cadeados da ousadia. Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos. Desconheço quem irá suicidar-me, depois de embriagar o desalento. A fome não quer mais a morte. Isto não está a correr bem. Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta, mas, o ar condicionado não funciona, e a vontade vai-se finando. A fome não quer mais a morte. Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito. Atiro a má disposição para as persianas. Dou voltas enroladas neste sofá, escrito com recordações pantanosas. Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal. Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida. Convivo bem com os arautos da tempestade. Abraço-me nos seus gritos. Agora já nada me custa. Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados, que não compreendem o apelo ao perdão. Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério. Já escrevi o meu elogio fúnebre. E, ele não comporta mais palavras. A fome não quer mais a morte. Andei tanto aos tombos que nem me lembro das paredes que sangrei. Bebi nas noites longas, o amparo que tudo prometia. Beijei noivas hesitantes, conspurquei os futuros mais risonhos. Continuo a levantar-me num acordar alegre. Tiro a ramela dos olhos, pisco os olhos para o gajo do espelho, alvejamo-nos no ritual costumeiro. Despedimo-nos delicadamente. Sento-me na sanita para aliviar a vontade. A fome não quer mais a morte. Diz a canção que preciso de alguém para amar. A melhor oração para um defunto. Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas, que não me respeitem. Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões, do jackpot das hipóteses aputalhadas, dos conselhos respeitáveis que constantemente batem à porta. Viajo nos lugares que não conheço. Tenho saudades de ti, velho amigo. A fome não quer mais a morte. Onde teremos andado, agora que não encontro o nosso passar? Quando voltaremos a beber o som daquele sax que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo? Paramos nesta página.
,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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(SEM PROBLEMA)
Vamos construindo o caminho
As minas estão claramente Identificadas
Alinhadas por ordem fonética
Ansiando pelo directo Previamente combinado
,2022Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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CORAÇÃO DESVIRGULADO
Senta-te no meu colo. Agora mesmo. Quero sentir o intervalo das tuas nádegas. Gostar da tua beleza não fundamental. Do sexo acidental. Da tristeza não absorvente. Da púbis sem detergente. Do oral conveniente. E de um bom esfreganço Cozinhado ao vapor. Gosto da procissão no adro. Do cântico desafinado. Do santo sem andor. Gosto de um crucifixo filigranado. De um padre aleijado. Do peditório enfeitado Com notas falsas para as obras do prior. Gosto de ti, Se não gostares de mim, Quando sou assim, Distante dos sentimentos baratos. Gosto das velas solteironas. Dos recheios dos sutiãs. Das cópulas em poltronas. Das peles com o toque Do coração desvirgulado.
2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA
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O TEMPO DA CANÇÃO FELIZ
Guardava sempre no bolso aquela ideia que constantemente lhe fugia da cabeça. _Encostado à parede das sensações saborosas, enroscava o carinho que vestia os seus passos. _Depois, sentado na espera habitual, mirava a própria sombra que lhe mostrava o caminho. _Serrava o olhar num assomo de respeito, e desenhava na memória a estrada que lhe apetecia. _Nunca olhava para trás._ Seguia página a página, a estrela que um anjo, há muito tempo pintara._ Leu de relance os livros que lhe forraram a vida, e num ápice majestoso, abraçou os blues que lhe vestiam a pele. _ Pegou em si, com toda a precaução, e seguiu na companhia do tempo que tanto o estimou.
,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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APARAS DO TEMPO
Vazio
Era o seu nome
Só uma vez sorriu
& isso foi o maior incómodo da sua vida
Anda por aí lapidando aparas do tempo
2018Out_aNTÓNIODEmIRANDA
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NA CAMA DA POESIA
Na cama da poesia nunca se dorme sem sonhar.
E é assim, que o poeta descansa enquanto as palavras enfeitam os sons do silêncio e pintam caminhos a condizer com a maginação.
& o poeta, assiste a isto tudo, nem sempre com um sorriso nos lábios.
2017,jul_aNTÓNIODEmIRANDA
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SILÊNCIO VERMELHO
Infernos íntimos sem ponto de fuga. Há quem nunca tenha saboreado o significado da esperança. Construímos ninhos noutros corpos, com a mão que treme quando te tiro a roupa, fazendo da pele uma luva qualquer, que lentamente enternece todo o amor solitário, entre paredes que miram o nosso voo, como se fosse secreto este desejo. Ninguém verá a nossa máscara. São tão pontuais estes dias que a pausa não pode acontecer. O que impede outros passos? Quero que continues a vir todas as tardes e dizer-me este silêncio vermelho das rosas. Quando partiremos a jarra com este cheiro bolorento, onde murcham as outras flores?
2015aNTÓNIODEmIRANDA
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SONETO DO AMOR AUSENTE
De ti me fica a lembrança Do amor por nós não entendido Do tempo sempre sofrido Passado nas ausências da esperança
Nesta estranha forma de dança Mais do que eu, triste é o meu fado Que se perde no beijo desesperado Escorrendo do tempo a mudança
Foi-se a hora da paixão Gasta nos abraços clandestinos O que nos uniu foi o fracasso
Feito no engano da ilusão Nos abusados desatinos Num amor tão breve e escasso