ANTÓNIO DE MIRANDA

ANTÓNIO DE MIRANDA

n. 1955 PT PT

GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018

n. 1955-03-03, Barcelos

Perfil
3 315 Visualizações

SOSSEGO

Velha fraga escondida

                                    Enternece com o olhar

                                                                O voo de quem a                                                                            procura




,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
Ler poema completo

Poemas

3

A SOMBRA DE DEUS

Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras.
As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado.
Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos
resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos.
Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas
pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas.
Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente.
Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos.
Fui sequestrado por um arco-íris.
Na minha cabeça há um comboio de inquietações
sem catalogação possível, escondendo visões numa
maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas
grito que afaga suavemente confeitos envinagrados
argamassa roída coma esquelético ossos braseados
cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio,
apalpando o êxtase das entranhas deixadas
ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso.
Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas.
Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas
rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos
do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade.
Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos
num bordel de virgens electrificadas.  Psicoestimulante colérico
escravizado pelos embaixadores da maldade. 
A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim.
Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias
da nojenta oligarquia do Kremlin.
Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão.
Confissão mágica emprenhando paixões distraídas
acampadas no viaduto da burocracia.
Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas
a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz
de onde fugiu um manequim que nunca aceitou
a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões.
Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas
em postes benzidos.
De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível.
A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta.
Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente
da sombra de deus.




,2023Dez06e7_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com
148

SAL!

Sal!Incendiando-me as teias, chorar nas veias e esconder-me na sarjeta da tua saia. Vale o que vale, até porque tu continuas a não saber o fel deste meu gosto que está à venda no mini mercado mais perto de ti. Porque será que me custam a respirar as palavras que nunca entendes? Não é a má vontade do meu desinteresse, até porque me cansei de ser santo, naquela vocação que me abrandava os joelhos na inglória e exacta hora, em que todas as orações eram tão sujas como o nosso não acontecer.Matei-me tantas vezes no chão numa espera sempre crescente onde só cabiam ausências indignas.Atropelei-me queimando uma pele cansada da falta de confortos e viciei-me em oráculos venenosos.Ninguém me ajuda a pegar neste andor com resumos de todas as vontades contrafeitas, pregados numa cruz encristada de pecados que não são os meus.Sal queimado na fogueira dos abrenúncios, coados nas ternuras sem sinónimos, onde lamentos acachapados escorriam de uma barrela embutida nas paletes do desespero sílica mente conservado.E a morte empalada em todas as horas do tempo que recuso viver.Por muito que me digam que gostavam de ser assim, só porque não estimo as segundas vias, prometo-vos que Isto dá-me mais canseira do que o trabalho. Até porque a vida é uma cópula institucional que não respeita a idade.Eu me saúdo no centro mundial da identidade adulterada e aguardo angústias disfarçadas de anjos maus contemplando o tempo que não me presta.Alguém que me salve sem desgosto.Sal!Incendiando-me as telas que eu continuo a rasgar com sopros que me esburacam a algibeira.E eu envolto no sal, pilhando nenúfares ao Monet do meu mar tão desassossegado.Sal e mais sal!Que ilha ainda me restará?Tenho uma sensação necrológica necessitada de uma operação urgente. E falta-me paciência para preencher o formulário da fila de espera.Reclamo o meu desespero embora saiba que ele continuará a ocupar um vão de escada onde choram outros sem abrigo.Ai de mim, ferozmente assado neste sal.Estou cansado de secar lágrimas num varal onde pousam imagens que já não sei retocar.Sal no guisado amargo da minha vida, demasiadas vezes gasta na vã ambição de cortejar a inquietude em tons diferentes.Descontinuo-me escrevendo num moral anónimo liturgias desequilibradas.Sal!Incendiando-me as veias, entupindo as teias da solidão que dorme na minha porta bagagens.Por favor, avisem quem me espera no cais que não encontro para atracar.Sabes quem és?A puta submissa da constante violação.

2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

148

POEMA PARA UMA PASSAGEM DE ANO COM FINAL FELIZ

Lembro-me de certos dias,
De um sonho sem retorno,
De alguns passos desviados,
e Da matança integral
Dos fracassos com doses de naftalina.
Da aparição púdica do homem barata,
e Da alfabetização
Da ejaculação colectiva.
Dos buracos ocasionais
Da estrada Da glória,
De alguns erros De palmatória que não pude escusar, 
De certas acções De castidade mal sucedidas,
De elogios frios como o mármore,
De favores perfeitamente dispensáveis,
De poucas curvas sem muita gravidade,
De aparições cósmicas sem serem convidadas,
De senilidades não vigiadas,
De carícias tímidas,
De poucas conversas envergonhadas,
De algumas urgências atrapalhadas,
De poucos convites para a deserção social.
Também me lembro Dos dias restantes.
Mas esses serão sempre pertença minha.
Permitam-me que me apresente:
sou um homem que em mim tem fé,
e, pelo qual nutro a simpatia suficiente.



,2017dez_aNTÓNIODEmIRANDA
167

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.