ANTÓNIO DE MIRANDA

ANTÓNIO DE MIRANDA

n. 1955 PT PT

GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – JunhoPRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – JunhoLIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – MarçoQUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – DezembroSÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018

n. 1955-03-03, Barcelos

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SOSSEGO

Velha fraga escondida

                                    Enternece com o olhar

                                                                O voo de quem a                                                                            procura




,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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Poemas

22

E O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU

Luz seca corta o céu 
em bocados de desespero
 Fugir sem sair
Morrer abraçado a um grito
Chorar numa cama de sombras vadias
 Humedecer a tristeza 
Acordar a espera 
Distrair a angústia 
Agarrar a fisga 
Rezar o último segundo 
Queimar o prazo da validade 
Regar ausências 
Explodir frequentemente
Enraivecer
Conferir
Suturar esperanças
Despoletar por aí



,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
148

CUIDADO! OS DARDOS ESTÃO LANÇADOS

Gosto das noites que desenham convites atrevidos 
Gosto de rachar segredos
Gosto de passear o futuro
com os pés ausentes da cabeça.
 
E nos momentos em que a espera 
me escreve, 
Gosto de afagar a memória 
num saudável desalinho

Gosto de embebedar-me exaustivamente, 
Uivar          Saudar a ousadia das estrelas, 
Despoletar o cinto,  
Escrever (mesmo com sangue na alma) 
que o amor que engana 
nem sempre é mentiroso.
 
Genuinamente só,  
Gosto de baralhar o conflito de uma qualquer
intenção fraudulenta.

Adoro esticar a corda até o nó ficar desfeito 
continuar a não desperdiçar tempo 
no baile de borboletas nocturnas. 

Gosto dos convites escritos nos decotes audaciosos.   Gosto de sedição sem defeito.

Das estrangeiras sem depilação?          Não!

Gosto da ovelha ronhosa

Nunca da mania ranhosa

 

,2022Out_aNTÓNIODEmIRANDA
159

ESTANTE VAZIA




Tinha comprado aquele livro
para ti.

Nas páginas estava escrita a
anomalia da ausência.

Rasguei-as palavra a palavra
e assim queimei para sempre 
o circo da saudade que já não
és.

Agora tenho um novo.

Suave companhia com todos os
sabores da respeitada
cumplicidade.

Oferece a calma no roupão da
solidão companheira dos
instantes para sempre
importantes. 

Segue a decepção para o ocaso
do desprezo.
 
Certas noites embalam as
certezas menos mentidas 
aconchegadas no abraço da flor
sem tempo.



,2023Out27_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com                                   
.


33

O HÁLITO SALGADO

Está frio no meio do meu sonho.

A pele estica-se fora da dor,
fugindo do sangue atropelado 
pela lama da vida.

Tenho na mão
o hálito salgado 
dos tempos morridos
desta espera constante.

Não posso pedir ajuda
a esta importância que me julga,
neste cambalear
com que embalo o meu vazio,

pensando iluminar as agruras
onde tanto me desanimei.

Estendo sorrisos
como se a eles alguém acenasse
e assim me envolvo em bolhas de cotão.

Vou passando em todas as ruas
como a areia do deserto
que sobrevive à falta da mais pequena ternura.

Chego sempre cansado
demasiado cansado
carregando o peso da minha ausência.

Descalço o olhar
escondo o desejo
alisando a memória
nas ilustrações esbranquiçadas
da minha ilusão.

Infinito é o bocejar do meu passado
feito com o polimento das pedras
que me atiraram.

Continuo apartado.

...depois de todo este tempo.



,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
172

O TEMPO DA CANÇÃO FELIZ

Guardava sempre no bolso aquela ideia
que constantemente lhe fugia da cabeça.
_Encostado à parede das sensações saborosas,
enroscava o carinho que vestia os seus passos.
_Depois, sentado na espera habitual,
mirava a própria sombra que lhe mostrava o caminho.
_Serrava o olhar num assomo de respeito,
e desenhava na memória a estrada que lhe apetecia.
_Nunca olhava para trás._
Seguia página a página, a estrela que um anjo,
há muito tempo pintara._
Leu de relance os livros que lhe forraram a vida,
e num ápice majestoso,
abraçou os blues que lhe vestiam a pele.
_ Pegou em si, com toda a precaução,
e seguiu na companhia do tempo que tanto o estimou.



,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
166

SILÊNCIO VERMELHO

Infernos íntimos sem ponto de fuga. 
Há quem nunca tenha saboreado 
o significado da esperança. 
Construímos ninhos noutros corpos, 
com  a mão que treme quando te tiro a roupa, 
fazendo da pele uma luva qualquer, 
que lentamente enternece todo o amor solitário, 
entre paredes que miram o nosso voo, 
como se fosse secreto este desejo. 
Ninguém verá a nossa máscara. 
São tão pontuais estes dias 
que a pausa não pode acontecer. 
O que impede outros passos? 
Quero que continues a vir todas as tardes 
e dizer-me este silêncio vermelho das rosas. 
Quando partiremos a jarra com este cheiro 
bolorento, onde murcham as outras flores?




2015aNTÓNIODEmIRANDA

176

NA CAMA DA POESIA

Na cama da poesia
nunca se dorme
sem sonhar.

E é assim,
que o poeta descansa
enquanto as palavras
enfeitam os sons do silêncio
e pintam caminhos
a condizer com a maginação.

&
o poeta,
assiste a isto tudo,
nem sempre
com um sorriso
nos lábios.


2017,jul_aNTÓNIODEmIRANDA
155

SONETO DO AMOR AUSENTE

De ti me fica a lembrança
Do amor por nós não entendido
Do tempo sempre sofrido
Passado nas ausências da esperança

Nesta estranha forma de dança
Mais do que eu, triste é o meu fado
Que se perde no beijo desesperado
Escorrendo do tempo a mudança

Foi-se a hora da paixão
Gasta nos abraços clandestinos
O que nos uniu foi o fracasso

Feito no engano da ilusão
Nos abusados desatinos
Num amor tão breve e escasso



jul03/2006,aNTÓNIODEmIRANDA 
178

SOSSEGO

Velha fraga escondida

                                    Enternece com o olhar

                                                                O voo de quem a                                                                            procura




,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
174

OS DIAS DO FIM

Embalados gota-a-gota 
exibidos em raids de drones 
na sebenta realidade 

Todos os sangues 
acontecem no cenário 
assassino 
dos gritos repetidos

Até quando?

Estratégias falsificadas 
condenam hipocritamente 
o fiasco habitual

    Morre-se em todos os momentos 

Sobretudo nos lugares 
onde a vida há muito desistiu 
de aparecer



,2023Out19_aNTÓNIODEmIRANDA
165

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