AntoniodeMiranda

AntoniodeMiranda

Nasci em Março de 1955, em Barcelos.Fui um amante inveterado da “boleia”. Dei assim, asas à minha alma de beatnick. Foi aliás este movimento que naquela altura mais me influenciou. Continuo a adorar poesia.

Perfil
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A ÚLTIMA NOITE

Sentado numa poeirenta poltrona de cabedal a imitar napa,
lia jornais atrasados com noticias da última hora.
A melancolia cheirava a loção de barbeiro,
a pele tingida com cor de shopping,
iluminava a calma de um sol desanimado.
Bebia aquele silêncio morto com passos ocos,
que enchiam os corredores encharcados de lixivia.
Sonhos mudos embalados em cartão,
retardando a lentidão da solicitude de uma vontade
há muito tempo escapada.
Chovia sempre que escolhia aquele caminho,
onde pássaros atrasados buscavam o ninho.
Rasgava com toda a raiva poemas,
enquanto ouvia Leadbelly cantar "my girl, my girl, donát lie to me".
E dizia para si próprio: também não quero saber,
onde ela passou a última noite.
O musgo dormia abençoadamente na lareira


,2015
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Março de 1955, em Barcelos. Alguns dos meus poemas foram esporadicamente publicados em diversas revistas e jornais ( Républica, onde tive o prazer de conhecer Raúl Rego e Álvaro Guerra). Recentemente foram publicados os seguintes livros : GERÓNIMO`S BLUES – Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – Junho PRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – Junho LIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – Março QUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 - Dezembro Adoro poesia, e o facto do meu pai ter tido uma livraria (Livraria Buenos Aires, Lisboa), possibilitou-me a hipótese de ter à mão os livros que gostaria de ler. Embora trabalhando desde muito jovem, comecei aos 14 anos, tal facto não me impediu de realizar várias voltas à Europa ( Inter-Rail ), assim como percorrer Portugal de lés a lés. Fui um amante inveterado da “boleia”. Dei assim, asas à minha alma de beatnick. Foi aliás este movimento que naquela altura mais me influenciou, Continuo a adorar poesia.

Poemas

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A ÚLTIMA NOITE

Sentado numa poeirenta poltrona de cabedal a imitar napa,
lia jornais atrasados com noticias da última hora.
A melancolia cheirava a loção de barbeiro,
a pele tingida com cor de shopping,
iluminava a calma de um sol desanimado.
Bebia aquele silêncio morto com passos ocos,
que enchiam os corredores encharcados de lixivia.
Sonhos mudos embalados em cartão,
retardando a lentidão da solicitude de uma vontade
há muito tempo escapada.
Chovia sempre que escolhia aquele caminho,
onde pássaros atrasados buscavam o ninho.
Rasgava com toda a raiva poemas,
enquanto ouvia Leadbelly cantar "my girl, my girl, donát lie to me".
E dizia para si próprio: também não quero saber,
onde ela passou a última noite.
O musgo dormia abençoadamente na lareira


,2015
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CIÁTICA

Não minto quando te digo que dezembro é uma estação fria
e o inverno é um mês com demasiada solidão.
Dirás então, que o calendário continua errado,
e, as flores que florescem na primavera,
aparecem em postais compulsivamente mentirosos.
É este o tempo moderno, condicionado
por um ar vendido em ampolas com sabor a ciática.
Os antigos ficam confusos com esta falta de lealdade.
Queimam a saudade saltando fogueiras
onde ardem memórias, até então religiosamente guardadas.
É chegada a hora de bebermos desconfiadamente o chão das cinzas.
Haveremos de ilustrar outros postais.

,2015

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