Eu quero mostrar ao mundo
Nem que seja num segundo
Toda a minha solidão
Eu quero que o mundo veja
P'ra que ninguém tenha inveja
Deste pobre coração
Que sofre dia após dia
Calado... ninguém podia
Imaginar tal razão
Eu quero que cada qual
Não queira eu, como igual
No sabor duma paixão
Há quanto tempo sofria
Sempre na mesma agonia
O meu pobre coração
Eu não sei o que diria
Nem sequer o que faria
No silêncio da paixão.
Eu quero mostrar ao mundo
Como mostrei num segundo
O frio da solidão
P'ra que cada qual acorde
A maçã quando se morde
Pode dar sofreguidão!
São Paulo, 24/09/2004
Armando A C. Garcia
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780
ESTRELA
ESTRELA
Reluzente estrela, luz do meu caminho
Não és a luz que se consome ou se esvai
Mas o farol que clareia o nosso ninho
Quando a tristeza bate e a noite cai
És a flor da primavera, o sol do amor
A imensidão do mar, o canto da sereia
O áureo caminho, a esperança e o calor
O sol que rútila e se espraia na areia
O repouso, o afeto e o sutil carinho
És o brando arminho o amor predileto
Rogativa ardente me chama a seu ninho
E eu louco de amor, não sei ser discreto
És a brisa suave por dentre os pinhais
O roseiral que chora a rosa colhida
O aroma da rosa, o pipilar dos pardais
O perfume da flor na estrada da vida.
Tu és enfim a estrela que ilumina
Meu coração apaixonado e feliz
Tens no sangue a natureza messalina
Tens em ti o colírio, a cor e a matiz
São Paulo, 15/07/92
Armando A. C. Garcia
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667
Estratagema
Estratagema
De estratagema, em estratagema
Usando iscas e ardis camuflados
Certas igrejas, o usam como tema
Explorando na fé, pobres coitados
Nas tentadoras ofertas materiais
Tais mirabolantes lojas de varejo
Oferecem privilégios excepcionais
Aqueles que pagam pelo pastorejo
O engodo se multiplica sem cessar
E ardilosamente atraem os fracos
Não se cansam de Deus apregoar
E em seu nome, de grana, enchem o saco
A verdade precisa ser divulgada
Fizeram um negócio das igrejas
E, para cada uma, a ser instalada
É servida a franquia nas bandejas
Meu Deus ! Olha o que se faz em teu nome
Sem temeridade da tua punição
A tua palavra na mentira se consome
Está desvirtuada tua sagrada unção
Senhor! Como é falso tal estratagema
De em Teu nome propalarem maravilhas
Enganando Teu rebanho, com os temas
Que, todos lêem pela mesmas cartilhas
Que fique claro que a fé de cada um
Merece respeito e consideração
A cobrança desenfreada é incomum
Selvagem, gananciosa e sem razão
Esta é a razão de minha censura
Fazer da igreja um comércio paralelo
Nos desígnios de Deus, não pode haver usura
Apenas boas ações, para enaltecê-lo
São aqueles estratagemas que condeno
Como o Cristo condenou os vendedores
Que faziam da casa de Deus seu terreno
São falsos profetas, falsos seguidores
Não vos deixeis enganar com tal cobrança
Deus, vos dá tudo de graça nesta vida
O Sol, a chuva, o dia, a noite e a bonança
E nada vos pede em contrapartida.
Estrada pedregosa no curso da vida
Difícil de transpor, intricado percurso
Aluvião de pó a revolutear tangida
Pelo vento, que põe o veleiro em curso
O mesmo que toca moinhos de vento
Estrada pedregosa que pesa e contrista
A longa caminhada, o douto pensamento
Diadema de esperanças que o ser conquista
Espiral dos sonhos, de idéia e ambição
Alento de brandura, após virtual castigo
Havemos de arrancar-lhe o fel da ingratidão
E dar à humanidade estrada sem perigo
Em vez de problemas, haja solução
E aquele que te odeia, seja teu amigo
*Estos do amor, luz que logo brilhou
Alcance **transcendente da magia
Relance de imagens que o olhar focou
E nada achou, quando os olhos abria
O tempo caminha, no tropel humano
No ***fanal da vida, passam gerações
Sempre o amor seduz, sempre o desengano
Encanta, persuade, destrói corações
Uns felicidade, p'ra outros desventura
Esperanças mil acende, no pobre coração
À paixão se rende a alma boa e pura
- Ocultai dos lábios tal profanação
Tenho a meu favor teu olhar discreto
Cultivo na saudade, felicidade pura
Ó doce formosura, ó meu amor secreto
Enlear-te-ei um dia, nos laços da ternura
Minha amada, serei teu escravo e rei
Sempre pronto para te encontrar e ter
Do mastro do veleiro, ao mar eu pularei
- A hora do encontro, um dia, vou saber !
São Paulo, 07/09/2011
Armando A. C. Garcia *ardor; paixão; grande calor
**muito elevado; superior
*** farol
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674
Estática Paixão
Estática Paixão
No amor foste minha última esperança
Que igual ao primeiro se desintegrou
Tu, que parecias elo de bonança
Foste a espada que meu coração sangrou
Ainda gemo surdos ais pela desdita
O medo esfria, porém a dor aumenta
Lágrimas de angustia, coração palpita
Transborda o pranto na gruta da tormenta
Nas juras desse doce amor, inda cotejo
Esperança, pelo tempo fenecida
Do que foi na vida meu maior desejo.
No meu peito não cicatriza a ferida.
E a quem coubeste, para sempre invejo.
Por este mísero sonho, que tive na vida !
Quero sentir do teu corpo o veludo
Carpir desejos de todos sonhos meus
Quero sentir o roçar dos seios teus
Persuasão que alivia o conteúdo
Fino cristal a tilintar em meus dedos
Espuma que o mar lança à areia da praia
Quero-te desnudar, sem blusa, sem saia
Mesmo que tenha de subir serras ou penedos
E, se a razão do amor em tal consente
Quero-te, alegre e jovial, não descontente
Junto a mim, na vida e na eternidade
Pois és tu, a alma gêmea que invade
Meus pensamentos desde a tenra idade
E por isso, amar-te-ei, eternamente.
Ó quantas tive ao longo desta vida
Hoje sinto o peso das lembranças
Pena cruel que lhe dá guarida
No refúgios das ternas esperanças
E no caminho da mágoa de quem sente
No coração o peso de tal ferida
Representa ou uma paixão latente
Ou uma desesperança imerecida
Ressuscita qual sonho das lembranças
Pensamentos de fantasia pura
Se o sonho se firma na esperança
Vivo feliz enquanto o sonho dura
20/12 2003
Armando A. C. Garcia
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761
Esperança !
Esperança !
Minha alma ainda sustenta a esperança
De voltar a ver aquele bem tão desejado
Nem que seja uma tormenta ou um pecado
Nela repousa minha última lembrança
Suspiros, lamentos, o preço do desejo
Paixão, emoção, fogo que dilacera
Desatino de amor, sonho, quimera
Sentimentos que crescem de sobejo
A dor que sufoca o meu peito triste
Só nela encontra alívio e consolo
E se no sentimento o amor esmolo
É porque o amor no peito ainda persiste
Se morto na aparência, o mal condena
Penitência minha, desculpa extinta
Pois não resta do amor que eu não sinta
Na memória a razão de dor e pena
Resistência, pena cruel, tormento
Venenos de amor que o coração sorve
No silêncio repousado que absorve
Saudade do perpétuo sentimento
O socorro, a aflição, ninguém procura
Porque falta à minha alma contentamento
E se a causa é eterno esquecimento
Quanto resta desta minha desventura
Não há tormentas que o amor não vença
Nem lágrimas de fel que amedronte
Quando é forte nada dobra a sua fronte
E perdoa esquecendo agruras e ofensa
Esquece dos espinhos e amargores
Dos prantos derramados soluçando
Mesmo com a alma tristonha e chorando
O coração suplanta todas as dores!
São Paulo, 14/04/2003
Armando A. C. Garcia Visite meu blog:http://brisadapoesia.blogspot.com
697
Escravos
Escravos
Um corpo massacrado, carnes rasgadas
Carnes rubras, cortadas pelo chicote
Como se o corpo do homem fosse lingote
Capaz de suportar tantas chibatadas
A vida é um sopro que a pouco se esvai
E nenhum ser humano é um farrapo
Pra ter dele a repugnância de um sapo
Ao ponto de chicoteá-lo, até que cai.
E o pobre do escravo desfalecido
Escorrendo sangue nos cantos da boca
Os lábios inchados, como coisa oca
Vai ficando febrilmente adormecido.
Já cobrem seu corpo nuvens de mosquitos
Que encontram pasto fácil num indefeso
Que além de acorrentado, não está ileso
Sendo forçado a puxar os monólitos
E enquanto isso, seus senhores, os poderosos
Deleitam-se das agruras dos coitados
Que sobre as ricas leiteiras, recostados
Vêm os escravos morrer sequiosos.
E os pobres tresloucados, sem ais, sem gritos
São vítimas de mordazes salafrários
Que satisfazem seus gozos cruciferários
Construindo fabulosas montanhas de granitos
Baldados esses trabalhos desumanos
Desse múmias de pensamentos insanos
Que além da morte, amam obstinadamente
O mísero corpo, que deixarão para sempre
Na pequenez de suas almas etéreas
Cheias de pestilência, cheias de misérias
Acobertadas de vinganças impiedosas,
Fazem de seus corpos, múmias majestosas!
Sem Lembrarem de seu espírito imortal
E de praticarem o bem, em vez do mal
Trazem acorrentados como condenados
Homens e mulheres que a troco de ducados
Lhes compraram, os corpos e a liberdade
De seres humanos, fizeram animais
Criaram monstros, feras, coisas brutais
Sem um mínimo anelo de humanidade.
Desses pobres coitados, tenho piedade
Porque eternamente serão mais desgraçados
Do que mesmo, essa falange de coitados
De quem hoje escarnecem a liberdade
E os pobres escravos, sempre açoitados...
Sempre forçados a puxar monólitos
Para construir monumentos de granito
Onde serão os seus senhores sepultados
Maltratados, vão sendo dia após dia
Mas um dia... eles serão recompensados!
E os seus senhores, serão então condenados
Por tão maldosa e perversa tirania .
São Paulo, 09/05/1964
Armando A. C. Garcia Visite meu blog: http://brisadapoesia.blogspot.com