asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

29

Diabo pródigo

Sobre curta noção de algoz
largo-me no precipício de precipitações,
sem estar e sem ser, à mercê das compaixões.
Onde poderei dormitar minha cabeça cansada,
lugar onde o lumiar não seja de oblíqua demanda.
Consorte meu coração de retrancas
alcança a solução líquida e a derrama.
Com sorte o corte desinflama,
pequeno para o céu, grande para a lama,
dos vermes da terra faço uma cama,
Deus não me engana, não sou mais o que clama.
318

Paradoxo da mentira

Arde goela e flama boca,
rasga lábio e logo exclama:
Minha língua sempre mente.
209

Caduceus

Corpo amálgamo em aliteração,
do ultraemotivo e a precognição,
o alcaeste é solvente universal,
salve meu decantado coração.
Chordata arterial e caduceus.

Fundidos no crisol,
da teurgia à dissolução,
do vinho, transforma amor,
transvia mônada em grãos.
Estou vivo e sou, respiro e vou,
para além desse Aeon.
320

Negação

Eu, que tranquei minhas portas
para lhe ouvir entrar pelas janelas,
sonho o amor ladino: santo como a cruz
e mortal como os pregos do perigo.

Rastejo em tijolos frios, caçando ar para inalar,
trêmulo de frio, sem garganta para gritar,
não ouço o rio que hei de afundar.
mas eu, pelo bem do coração, nego meus sentidos.
279

Ladainha

Existe uma ablação
dilacerada em meu peito,
presto-me a me rasgar
para que me entenda,
pois não há verbo
que me explique.
Pelo sangue escorrido,
leia-me por dentro
para saber o porquê
do que há fora de mim.
294

Diga adeus que fico

Encontre-me agora no
juízo dos seus fardos.
Nos intravivenciamos,
o pecado amou o anjo,
teu céu loiro e violento
me esconde da tua paz.
Desvesti meu plenilúnio
pra achar que não me viu
e abracei-me ao despedir.
Caso me peça pra ficar,
eu irei lhe ouvir.
Diga a deus,
que fico.
445

Gato preto


Ronronar do peito,
sexta-feira é o nome
do precioso gato preto.
Jaz em 13 de setembro,
apunhalado pelo vento,
sem aspirar o ar direito,
narinas cheias de pelo,
na orla da minha cama,
me assistindo fenecendo
frio por fora e por dentro,
o dia se acabando
e eu morrendo.
475

Ausência

Me deitei cedo e
jurei que dormiria,
estou ao relento,
debaixo de um teto,
abaixo do trovão,
metade do edredom
eu deixei para você
na sua ausência.
351

Nosso dia acaba assim

Abraços frouxos descolam os corpos
que nunca haviam em vida, se tocado.
Perto para vê-lo e longe para sentí-lo.
Ví-me nos olhos da tua esperança,
que antes de tua, era minha também.
Igualmente temeroso, bravamente nu,
rasgando de mim, os tecidos do corpo.
Desvestido me exponho para que vejas.
Perto para ver-me, longe para sentir-me.
Nosso dia acaba assim.
407

Samsara

Respirou como quem grita
puxando a vida para dentro,
estufando o peito para cima,
eletrizando os seus sentidos.
Estava vivo.
 
Antepôs balas ao peito,
recolocando-as no lugar
para o sangue não vazar.
Gemendo a dor da vida,
das balas criou um lar
e chamou de Samsara.

Expirou como um bocejo,
soprando a vida para fora,
afundou pra baixo, o peito,
afongando o seu sentido.
Ele morreu.

Respirou como quem grita
e expirou como um bocejo,
vida a fora e vida a dentro,
estufa e afunda o peito,
morrendo ainda vivo,
dança a Samsara e
lindo é o movimento,
vida fora e vida dentro,
expira como um bocejo
e respira como um grito.
401

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!