asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

19

Orquestra de um megaton

Esse vozerio,
coro das vozes assuadas,
imaginadas, ecos das auroras,
lapsos das memórias,
me canta o tímpano
como orquestra desafinada,
hino dos palavrões,
prosas desprezadas
desprezíveis, corruptíveis,
descabíveis deste momento.
Mesmo assim canta grave
o vocal do trovão,
oração, petição,
salvação, mas abandono.
Que mazela, vida minha.
221

Céu de Narciso - reivindicação

O céu está para mim
como o espelho está para narciso,
alego hoje para quem me queira,
que todas as estrelas são minhas conjunturas.
A aurora da vida é a morte,
aquela ancestral que a tudo deu origem.
Como herdeira desse trono,
revogo o cinismo para continuar sendo feliz,
o mesmo que um imperador: uma Imperatriz.
Abaixe a cabeça para mim
e me curvarei em forma de honra,
pois os dragões se reconhecem na caçada.
379

Libélula en la tormenta

Continuo pairando
nas lufadas opacas do furacão,
soy una libélula en la tormenta.
Quando toda a carne definhar em putrefação,
minha alma fará metástase,
minha história lavará minha caveira
y yo seré una libélula en el huracán.
381

Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
375

Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
370

Damiana

Caminha no véu, com medo do céu
fechar os portões antes de entrar.
Seu interceder luta pra esperar,
o seu dedo verde me plantou
pra prosperar.

Lutou pra viver, tentou respirar.
Faz sobreviver a história pra contar.
Eu te machuquei, tu me machucou,
mas lhe perdoei, você me perdoou?
Quando estiver sem teu corpo aqui,
suba para o céu, não esqueça de mim.
Confesse pra deus que tentou mudar,
aceito as desculpas se tu as aceitar.
Eu lutei pra viver, eu tentei respirar,
vou sobreviver com vida pra cantar;
tenha esperança, Damiana,
continue andando
antes do céu fechar.
279

Credos, noites e filiação - retaliação

Com um pé atrás
eu não ando direito,
tropeço mentiras,
te jogo no avesso,
o mar no céu,
o céu na terra
e a terra à mercê.
Pra dormir no teu colo
sem desconfiar de você,
me reprimo, me renego,
te encanto para me crer.
Envergonho de ser insincero,
mas se preciso,
rompo meu credo
para viver.
278

Orpheu

Do meu tato, a distância te recolheu,
noutros braços além dos teus;
da tua imagem esculpi uma harpa,
para tocar coisas que queria te dizer:
me chamo Orpheu, prazer.
Estou gigante demais para essa ilha
cuja única direção que resta é o mar,
mas depois que a maré me afogou,
nunca mais voltei a nadar.
Se és um navio e estás vindo a mim,
lhe direi que não espero ninguém,
esconderei de ti o meu tato,
cantarei para ti as mágoas,
levarei-te ao teu amor,
esperando você ficar.
256

Matrioska dos 70's

Dentro da anciã chora uma órfã,
incumbiu paternidade a deus
para não morrer sozinha,
mas antes dele já havia
uma cosmogonia de mulheres fortes.
A mãe da anciã nasceu de uma jovem,
se emaranhou nesse puerpério perpétuo
e virou estatística na mão dos patriarcas;
a jovem no ventre da mãe
será avó de si mesma um dia,
sem mais imposições
ou copulações impositivas.
O filho é um, as avós são várias.
247

Sirenas da areia

Me divirto nos movimentos
dos grãos na ampulheta,
deixo a gravidade me juntar
com outros grãos de areia.
No vem e no vai, o tempo não esvai
e o que se perde encontra o que apraz;
sou um grão vivo de terra,
uma pedra da pedreira,
sou o sopro nas ondas,
sou um teco de areia.
228

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!