asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
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Poemas

29

Castidade e amargura

Verto valor a troco do ouro,
pois de nada serviu o amor,
que distante do teu apalpe,
ao celibato me apregoou.
És antônimo de saudade,
meu reverso da verdade
e no berço do teu escuro,
solto a mão da claridade.
Esfaqueio o teu espectro
na babilônia da realidade,
falou-me o que não queria,
isento da minha maldade
por aqueles que dado dia
me afogaram à iniquidade.
Puro sangue desgraçado
das plêiades sorgiñak,
respeite meu peito sofrido,
respeite a minha coragem,
cada passo é dolorido,
cada erro é a castidade,
casto rente ao teu sorriso:
motriz da minha calamidade.
463

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
418

Cena do crime

Líquido em corpo morto,
carne em torno do osso,
crânio por trás do corvo,
silhueta esboça o corpo
do jovem casulo velho
gestante da borboleta.
Pele que a chuva beija,
água que olho despeja,
sangue ilhando a bela
estrela da boulevard.
445

Funeral ao contrário

Abri um portão para o inferno em meu antebraço,
esborrou da artéria a vida, florescendo a flora morta da flor de lis,
velório mais perfumado que já vivi.
Quem viu não entendeu, quem entendeu sorriu para a candura,
aquela que deu asa para a força que tanto rezou a alquimia.
Foi na roda da mesma ladainha do enterro, que me exumaram,
intacto como um filho parido da Terra.
Tribal, cigana, nativa americana, aceito às cegas as vidas passadas,
em nome do amor que não deixou o corpo fenecer,
da lembrança que o desamor me fez fazer, nunca mais me enterrarão.
454

Casa de areia

Freud nos chamou pela casa que somos,
minhas paredes deixam cair os rebocos,
mais uma vez a casa da areia
perde para a casa de tijolos, a briga é contra o vizinho ou contra o vento?
Este corpo mal me guarda,
tão imenso que esfrangalho,
tanta treva que a arcada amarela brilha
na boca aberta de espanto,
desespero de estar novamente, desmoronando.
Seria a luz do inconsciente, aquele sorriso que ri constrangido?
Conscientemente padecendo,
pois os vizinhos a nada se obrigam
e como nenhuma outra novidade, cai prematuro,
novamente solitário, mais uma vez sozinho.
478

Confidências de Scipio e Laelius

Quando o amor inaudível toma as batidas do peito,
o que se escuta é um gemido dialético esquisito,
água fria em ferro quente, o corpo febril,
o choque das nuvens vigentes que o anjo vidente previu.
Meu peito rasgado e lavado no vinho,
gosto doce, emocional, vermelho e sutil.
Agora que tudo escorreu, tudo volta para dentro,
se arrastando por debaixo da tectonia mirabolante das placas,
como a poeira é varrida das solas dos tapetes
e meu corpo Laelius, recolhido em teus lençóis de Scipio.
435

Catarse

Pandora deu-me o caos para a catarse que matou de Sige, o seu silêncio,
engavetando cadáveres na infinidade da caixa preta dos desenganos,
foi numa dessas gavetas, que esqueci
a sensibilidade ultraromântica de dois semânticos: o Eu falou Te para o Amo
e toda a divina comédia gargalhou,
a água inundou melhor nos sonhos.
Me doeu como dói um parto, deixar em teus braços, a luz do sentimento frágil
que é aprender a desaprender
da maneira que aprendi a te amar.
Lhe tornei para mim, o carcereiro dos meus monstros, mas para ti,
fui o abominável cerberus que na cela do próprio inferno, quis lhe aprisionar.
Prefiro-te livre como o pássaro cósmico, que tem o espaço-tempo para voar.
486

Eterna confissão

Quão vulneráveis nos permitiríamos estar
se soubéssemos que o adeus viria breve?
Quanto amor daríamos ao adeus,
se soubéssemos que ele o seria?
Deixo a história esquecer meu nome, para manter vivos meus costumes.
O anonimato será minha legação?
Quando odiar, odeie em vida, para que teu furor não interrompa teu descanso
e o mesmo sentimento sistematiza o amor, defuntos insatisfeitos sofrem
na eternidade do próprio saudosismo.
O dialeto de quem fenece o corpo soa diferente aos ouvidos de quem resta
e estes, libam suas memórias em taças
afogadas em saudades alcoólicas,
pela falta de ouvir a voz amorosa dos faltosos que não fizeram da vida,
uma eterna confissão.
458

Suspiro-dos-jardins

Cronos interferiu minha
compreensão do teu fenômeno,
William James mentiu para mim,
nossa síntese não há fim.
A priori da aparência,
dispensei de perceber,
pois de uma eternidade a outra,
meu ego engendrara você.
Processo senil me doía o peito,
por amor à vida, deixo o viver.
Estava aqui, a coisa-de-si
que Immanuel queria entender.
De eternidade a eternidade,
nada existe fora de mim,
salvo a minha vontade,
que contra a razão,
insiste em lhe ver.
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Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!