Luiz Carlos Cichetto nasceu em 1958, em São Paulo e começou a escrever na adolescência, quando também passou a participar de publicações mimeografadas. Desde então, escreveu mais de 1.000 poemas e milhares de crônicas e ensaios.
Luiz Carlos Cichetto nasceu em 1958, em São Paulo e começou a escrever na adolescência, quando também passou a participar de publicações mimeografadas. Desde então, escreveu mais de 1.000 poemas e milhares de crônicas e ensaios, que resultaram em 24 livros, a maior parte autopublicados, sendo 14 de poesia, uma auto-ficção, um de microcontos e um infantil. Tem ainda , prontos e à espera de publicação, três romances, três novelas curtas e mais de cem contos inéditos. Além da literatura, dedicou-se também às artes gráficas, como pintura e designer, e também a criação de programas em webradio, além de ter criado, há quase dez anos uma editora artesanal, pela qual lançou a maior parte de seus livros, além de títulos de outros autores. Atua também como letrista, e entre suas criações, estão seis musicas e três óperas rock. É casado pela quarta vez e tem dois filhos do primeiro casamento. Atualmente reside na cidade de Araraquara, SP.
"La Poesia no muere pero los Poetas tienen que sobrevivir." - Alejandra Arce D Fenelon
Poetas não são pequenos deuses, assim disse Pablo, poeta maior E não são, pois não existem nem deuses nem ser humano menor. Se não julgam deuses os padeiros, também não me julgo poeta Estamos quites então, queridos deuses, padeiros e velho profeta.
Somos todos, querido Poeta, todos nós trabalhadores Dos padeiros aos poetas, trabalham até os ditadores.
Afirma ainda o poeta amigo do carteiro, que poeta é o padeiro E eu que nem conheço direito da farinha e do trigo o paradeiro. O suor do padeiro é o mesmo da meretriz, do pedreiro, do atleta Mas todos comem de seu suor, enquanto morre de fome o poeta.
Somos todos nós, caríssimo Poeta, todos nós panificadores Dos padeiros aos poetas, merecem o pão até os senadores.
Porque tem o poeta que entregar seu pão de graça a brutos Se todos os trabalhadores do mundo recebem de seus frutos? E o que falaria um padeiro ao receber o Nobel da Panificação Decerto que pequeno deus não é ele, mas o mestre da Poesia?
Somos todos, querido vate, todos nós somos transpiradores Dos carteiros aos poetas, transpiram mesmo os sofredores.
Eu não coloco aos poetas no panteão dos pequenos deuses Mas naquele onde são enterrados os que morrem duas vezes. E somos todos, médicas, enterradores de defuntos e parteiras Seres que merecem por trabalho dinheiro em suas carteiras.
Somos todos, doce Poeta, todos nós merecedores Dos pedreiros e poetas aos pequenos pecadores.
07/03/2013
180
A Solidão é Uma Ratazana Cinzenta
Sinto dia a dia crescer a minha penosa solidão Feito rato de esgoto alimentado por podridão Diariamente aumenta, engorda e cria gordura E seus dentes afiados rasgam minha armadura.
A solidão é feito ratos, com carinhas afetuosas Com seu jeito meigo e garras sujas e perigosas Roendo meu estômago e expondo meus intestinos E ainda há gente que acredita em sortes e destinos.
Cresce a desgraçada, maldita ratazana acinzentada A caminhar pelas madeiras do telhado desorientada Aos berros tento espantá-la ao seu buraco imundo Mas a rata pensa que sou apenas pobre vagabundo.
Sinto agora a desalmada a roer o que resta de mim Uma dor explodindo meu coração, cérebro e o rim E o roedor maldito não deseja minha morte somente Roendo o resto de poesia que resta em minha mente.
28/06/2015
183
Tercetos Tortos de Primogênitos Mortos
1 - Eu, que fui abortado antes mesmo da concepção Neto de José o empreiteiro e de dona Conceição Um feto eu não seria, mas apenas outra decepção.
Eu, que sofri dores do próprio parto, a dura rendição Expulso dos seios, das bucetas e casas de prostituição Sabiam que eu era o espelho de sua própria maldição.
Eu, que fui posto na rua sem nenhuma outra opção Negado por seis vezes e enforcado sem condenação Mas estar vivo era minha única forma de sonegação.
2 - Eu, que fui maior antes de crescer, subi antes de descer Jogado na rua vencia, mas sabia que não podia vencer Pois jamais me permitiriam ter o que fazia por merecer.
Eu, que obedecia a tudo o que era proibido de obedecer E desobedecia à lei dos belos e dos que queriam aparecer E à margem do mundo, restava-me apenas o desaparecer.
Eu, filho de quem não conhecia, não podia me esquecer Sabia de muito e nada mais, então, eu poderia conhecer E assim fui escondido, antes do primeiro dia amanhecer.
3 - Eu, que diante do tributal fui condenado sem direito Agora grito que fazer o certo sempre foi o meu defeito Não aquilo que eu queria, mas que tinha que ser feito.
Eu, que fui jogado às moscas por um inseto imperfeito Busquei nas lendas meu futuro e no pretérito o perfeito Sem saber que era preciso antes eleger um bom prefeito.
Eu, que escondido nas entrelinhas de um oculto sujeito Tracei em linhas tortas o que foi chamado de preconceito E eu nem sabia o que era a dor de andar nu e insatisfeito.
4 - Eu, que das trevas fiz a própria luz, e do medo a coragem Fui despachado na estação sem dinheiro, e nem bagagem E ainda disseram que minha dor era uma imensa bobagem.
Eu, que dei de comer a porcos, e alimentado com lavagem Sabia que ninguém é feito por semelhança a uma imagem E que ninguém é passageiro, mas condutor de sua viagem.
Eu, que do trabalho fiz conduta, condenado por vadiagem E enquanto minhas cicatrizes cresciam feito tosca tatuagem O escolhido sorria sem que percebessem sua vagabundagem.
5 - Eu, que não sou o bem, mas muito menos o mal encarnado Tenho a energia do vento e a força herdada de um tornado Encontrei a muita gente perdida, antes de ser abandonado.
Eu, que poderia ser um rei, fui deposto antes de entronado Usurparam-me a coroa, fazendo-me de demônio condenado E agora na partilha das almas, resto apenas como o finado.
Eu, que pela natureza pura sou impuro, sofro indignado Por negação dura, vago pelas ruas por loucura dominado E ainda cometo minha poesia morrendo de dor alucinado.
6 - Eu, que sou apenas um predicado sem sujeito Simples, composto e oculto, é do que sou feito E nenhuma sentença determina meu conceito.
Eu, que não sou bala, confete, e nem confeito Um pouco amargo, nada do que seja perfeito Renego seu afago, nada que possa ser desfeito.
Eu, pretérito preterido do indicativo imperfeito No travesseiro duro do passado busco o desfeito Busco nas entrelinhas das frases ser do meu jeito.
7 - Eu, que fui o meu próprio pai, a imagem e semelhança Não pareço com ninguém qual ainda tenha lembrança E sequer tenho olhos claros para ostentar como herança.
Eu, que a doença diverte feito um brinquedo desde criança Fiz da morte a crença e a porcos dei de comer a esperança Pisei nas sandálias de Deus e nunca dancei a mesma dança.
Eu, que tive o coração arrancado, empacoto minha mudança E sem eira e nem beira, apenas o desespero tendo por fiança Termino do jeito que comecei, como o alvo de uma matança.
8 - Eu, que nunca fui enxergado feito ao glaucomatoso E às cegas, sem ser pederasta, fui ser macho culposo Soube pelas entrelinhas fofoqueiras que era famoso.
Eu, que teria desistido pela doença do mentiroso Enxerguei às expensas da crente o ódio insidioso Mas agora sinto que chegou a hora de ser o idoso.
Eu, que com a idade sinto um tumor gangrenoso Abandono a cidade com o humor do monstruoso Buscando fugir ao rumor e do meu circulo vicioso.
9 - Eu, que uma peste fui feito em forma de gente Soterro meu coração nas sepultura da serpente E na morte encontro a sanidade de um doente.
Eu, parte homem, parte espírito de um indigente Nunca encontrei abrigado nas asas de um parente E agora, encontro na morada o sol independente.
Eu, que sempre fui eu, apenas outro ser diferente Deixo para trás toda a injustiça, parca e demente E traço meu destino, seguindo sempre em frente.
12/07/2018
162
In(con)victus
I'm the master of my fate, the captain of my soul! - William Ernest Henley
Minh'alma é fragata pelos mares perdida A deriva, feito mão por pedido estendida. O meu destino perde a esperança do porvir E deriva do choro de criança que há de vir.
Às sereias jogam traidores, poetas ao fundo Nau dos piratas caolhos ao redor do mundo E se não for por seu meu aquilo que mereço Prefiro a sepultura sem lápide nem endereço.
Se lamento por ser indigno dos portos além Nunca nesses lamentos ouso acusar alguém, Pois se há na terra quem espere pelo meu fim Esse alguém que espere muitos antes de mim.
Ah, e a minha luta, quanto luto foi meu custo Que deveras mereço uma estátua ou um busto E se minhas lágrimas ao porão do barco imunda Deixo que ratos roam até as carnes da tua bunda.
19/06/2018
149
A Lira dos Sessenta Anos
Ah, então o poeta fugiu ontem a noite da escola E sua mão direita insurgiu fingindo uma esmola Ah, seria esse o poeta que fingiu ser o mentiroso Ou seria qualquer pessoa a fingir ser incestuoso?
Ah, e então ele, aquele poeta que tinha verdades Sucumbiu pelos prados, em procura das vontades E despencou pelas rochas com alma de prostituta Ou seria na sua fé, pelo vinho em que transmuta?
Oh, pois então é ele, o poeta que pulou o abismo E das profundas chamou a todos por seu cinismo Seria ele, este homem de verve tão maligna e pura A solfejar palavras contra o véu de uma ditadura?
Oh, e se não há o poeta que possa tatuar no rosto Que haja o que houver, que imprima seu desgosto Há rigor no traje do político, e frangos no quintal Ou seria o rigor da morte, mesmo que seja brutal?
O pasto tem cheiro de merda de vaca, há risco no ar E eu, arisco feito frango, alguém há de me consolar Acendo um cigarro, a fumaça sai pela janela da sala E se há risco de incêndio, quem ainda que me cala?
O poeta foi aquele que a fodeu no meio do mato Não aquele que foi feito de rato, de gato e sapato Se não fosse ele as tuas entranhas seriam imundas E o que seria dele, não fossem outras vagabundas?
Tem tanta poesia dentro dos próximos sessenta anos Que o poeta deseja rabiscar no caderno seus planos E se essa lira sem vergonha não terminar sem o fim O que fará o poeta, longe das asas de corvo carmim?
Há na minha lira palavras sem algum sentimento E eu as trocaria por tijolos e por sacos de cimento Pois se não morre o poeta, por seu veneno sem sal Por que não renascer como a vingança do seu mal?
11/08/2018
140
Centopéias Humanas (Uma Analogia Política)
1 -
Um dia falaram de mim que era maldito E a uma tal hora decretaram-me proscrito Mas como ser, se não chego aos pés sujos Do cego glaucomatoso ou dos ditos cujos?
E uma semana antes chamaram-me bosta Mas a merda é a suculência do que gosta, E eu que nem aprecio a tal da imundice Sou obrigado a gostar dessa esquizitice?
Enfiam as caras nos rabos dos parceiros Feito centopeias humanas sem roteiros E eu que prefiro enfiar-me numa buceta Acabo morrendo tísico de tanta punheta?
E na minha boca quero um cu perfumado Que não sou um maldito poeta deformado Mas quem diria que eu, na atual cegueira Possa comer mais merda que a tua sujeira?
2 - Colam bocas a cus e cagam em bocas imundas E cagam em outras bocas grudadas às bundas Comem o que outros defecam e cagam dejetos E assim continuam não humanos, mas abjetos.
Monstros criados em laboratórios da maldade Um cientista obcecado pelo poder da vontade E seguem pela Terra espalhando a sua merda Transformando o humano em centopéia lerda.
Cagam regras e idéias nas bocas abertas Que devoram bostas como coisas certas Ao gosto do estrume se acostuma o paladar E fazem tudo aquilo que o mestre mandar.
A cabeça da centopéia não come excremento Porta de entrada para um podre experimento E a ultima parte atira os seus dejetos nas caras Daqueles que não compartilham de suas taras.
15/01/2018
156
Filosofia
E eu a conheço desde os tempos de solteira, Tão correta e mortal quanto flecha certeira. Reconheço teu rosto de madame pervertida, E esqueço casos de uma dama cruel invertida.
Ah, e recordo dos teus pés descalços na grama, E do cheiro de esterco no lençol da tua cama. Mas agora que teus olhos fugiram do que é meu Sinto que ainda há Julieta, mas não um Romeu.
E pelas quintos dos infernos, escutei-te maldita, Fulminando imperadores com tua aura bendita. Agora desconheço tuas palavras ditas sem vontade Trajadas feito putas e recônditas pela tua verdade.
Se antes me cuspias, agora escarras em meu rosto, Onde andam, malvada, tuas palavras de desgosto? E eu, que te conheço tão prostituta e tão altiva Pergunto onde andam tuas fezes e tua voz ativa?
Caminhamos pelas ruas dando alimento a perdidos E agora o que te sobra é atender inúmeros pedidos. Na esquina um cientista te chamando por imunda, E agora é ele quem te come e chama de vagabunda.
Eu a desconheço agora com seu titulo de mestrado, Camisola de cetim da China, e seu pijama listrado. Procuro pelas ruas teu cheiro, por teimosia ou sina, E te encontro louca, com o olhar de uma assassina.
13/02/2018
142
Inspirados (Poemas Para Cheirar)
Inspirados no Titulo do Livro de Dimitri Brandi, "Baseados - Poemas Para Acender"
Há tanta poesia pairando no ar, Que sequer a podemos respirar.
E tanta poesia a nos inspirar, Que mal as podemos respirar.
E tanta que possamos cheirar, Que mal pagamos por esperar.
E há tanta poesia a nos mirar, Que nem podemos as acertar.
15/05/2019
140
Um Poema Dedicado a Você (Mas Você Não Vai Ler)
Longe da pretensão vaidosa dos poetas sem entendimento, Eu não espero de ninguém que leia esse meu pensamento, Como não leram outros tantos que escrevi em cinquenta anos, Pois enquanto eu morria de dores tolas, tinham outros planos.
E agora, que chego à idade de estar de pijama, jogando dominó, Com um frasco de soro pendurado no braço e sob olhares de dó, Não espero que ninguém leia poesia de adolescente de sessenta, Que achou de ser moleque apenas quando chegou aos cinquenta.
Então, escrevo poema resmungando, apenas para tirar sarro, Antes que a enfermeira traga o remédio para soltar o catarro, Ou ainda que mesmo morto me tragam as contas do hospital, E eu tenha que depender de esmola de uma assistente social.
Então, leitor que não me lê, este poema é a você dedicado, Por um poeta que já foi um sujeito simples, sem predicado, Que de sua poesia nunca ganhou um troféu ou premiação Mas que dela sempre fez sua dúvida, sua crença e oração.
Luiz Carlos Cichetto, Aka Barata, que você não conhece... 24/05/2019
155
Memórias
E fui condenado antes de ser suposto, Setembro, antes mesmo de ser agosto.
E fui sentenciado antes do julgamento, Desconto, antes mesmo do pagamento.
E fui preso antes de ser condenado, Podre, antes mesmo de ser enterrado.
E fui sem nunca ter sido, sem ter ido, Retorno, sem nunca sequer ter saído.
E fui abortado sem ser fruto de aborto, Póstumo antes mesmo de estar morto.
E fui, antes de ser nada, aquilo tudo Calado mesmo, e antes de ser mudo.