És tu?
És tu, meu amor,
A minha razão de viver
Ou a que me faz querer morrer?
És tu, meu amor,
A origem da minha felicidade
Ou a causa da minha insanidade?
És tu, meu amor,
A força que me faz respirar
Ou a que me mata ao sufocar?
És tu, meu amor,
Quem move esta caneta
Ou quem me a tira das mãos?
Fantasma
Sozinha no meu quarto,
Na minha solidão
Aguardo a tua vinda
Vens de mansinho
Entras pela fechadura da porta
E a janela entreaberta
Estás aí?
Pergunto-me se és mesmo tu
Ou só mais um fruto da minha louca mente
Tomas o meu corpo,
Beijas as minhas lágrimas,
A tua mão entrelaça-se com a minha
Queria que o tempo parasse,
Mas partes subitamente
E eu volto à minha triste existência
Palavras
De lágrimas nos olhos
Escrevo estas palavras,
Estúpidas palavras
Cuspidas para este papel molhado
Eras muito mais do que palavras
E por isso pergunto-me porque as escrevo
Mas não sei que faça mais
Oh, meu amor
Meu bem
Como vivo eu sem ti?
Saudade
Como sinto falta da tua cabeça
Cheia de sonhos, deitada no meu colo
Mas que foi perdendo a lucidez
E se partiu com a queda
Como sinto falta dos teus cabelos
De neles passar a minha mão
Mas que foram perdendo a cor
E se despentearam com a queda
Como sinto falta dos teus olhos
Brilhantes e redondos, como os meus
Mas que se foram enchendo de lágrimas,
Espelhando a tua alma triste
E se fecharam com a queda
Como sinto falta dos teus lábios
Que me beijavam a face
Mas que se tornaram secos
E se rasgaram com a queda
Como sinto falta do teu sorriso
Doce e contagiante
Mas que se tornou falso,
Um esconderijo para a tua tristeza
E se partiu com a queda
Como sinto falta dos teus braços
Que me acolhiam e sufocavam de amor
Dos teus abraços que me encurralavam
Mas que foram perdendo a força
E me soltaram com a queda
Como sinto falta da tua voz
Que gritava de amor
Mas que se tornou rouca
E se calou para sempre com a queda
Mors Liberatrix
Estou deitada,
Imóvel sobre a cama,
O meu corpo frágil
Pesa sobre o colchão,
Os lençóis velhos
Irritam a minha pele,
Sinto tudo à minha volta
O frio do inverno
Inunda o quarto,
Sinto-o a arrefecer-me os pés
A percorrer as minhas pernas
A arrepiar-me a espinha
Até chegar à minha cabeça,
Congelando os meus pensamentos
A luz amarela do candeeiro
Cega os meus olhos,
Sinto-os pesados
As minhas pálpebras fecham-se lentamente
Entrelaçando as minhas pestanas
Que trancam o meu olhar para sempre
O meu coração
Bate cada vez mais lento,
Sinto-o no meu peito
Como um sino de igreja
Que desvanece depois de doze badaladas,
Silenciando a noite
Estou presa,
Presa nesta cama
Presa pela velhice
Que me paralisa o corpo
Mas sinto-me livre
Sinto-me a levitar
Deixo para trás o meu corpo
A prisão do meu espírito
E encontro a paz
Desbloqueada pela morte
Com o meu último suspiro