O som do mar a ricochetear nas fronteiras invisíveis da inóspita imensidão
Chão em desintegração queda, apupo, alienação
E o oceano, em derrisão, impassível – a compor a canção da criação do infinito
Íntima transformação no ínfimo átimo universal
18
As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos (Bernardo Almeida)
As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos Os corpos do tempo soterrados pela barbárie Malsãs irmandades nos olham pelo viés da eternidade Nas memórias entremeadas, o viço e o festim da saudade Revezam-se em um balé macabro: cantos sórdidos De mórbidos dançarinos; felizes saltimbancos divinos Seduzidos pelo temerário brilho secreto e imerso no lodaçal
16
150 megatons (Bernardo Almeida)
Eu era forte quando negligente negava a influência indolente do tempo sobre a existência era ventania, braço cortado apartado do corpo a remar contra a maré era bravio e independente perene, inteiro, transversal eu insurgia e contemplava não queria ser aceito ou acolhido eu evitava ser especial o mais lembrado, o escolhido eu não queria nada de menos ou de mais tinham-me como indiferente eu não era nada além de livre e esse pouco que eu tive era o infinito que me bastava estava só – e não tinha consciência do que era a solidão a tristeza não passava de um condão retórico sobre um ponto de vista cadavérico no deserto estratosférico da multidão
13
Volúpia errante (Bernardo Almeida)
Navegar é ir de encontro Ao som inaudito do verso Ainda a ser concebido É uma tara, um manifesto Contra a homofonia De tudo que já está mapeado Visto, lido e digerido É partir em busca de si próprio Lançando-se ao desconhecido Sob o risco de encontrar-se Emaranhado nas rédeas soltas pela loucura Lendas, mitos e estrofes – o mar a desferir golpes Para o navegante não triunfar Inconsequência, eis a arrogância do desbravador Ah! A pequenez de governar Deixo aos monarcas de todas as eras Corruptos, medíocres, medrosos Dos tronos, escravos irreparáveis Eu quero é desbravar! Entrar para a história por uma outra porta Que já existia, mas estava oculta Até antes de eu chegar
15
Autópsia (Bernardo Almeida)
Caminhamos com os mortos, enquanto expiramos Esperamos a eternidade e perecemos nos torvelinhos dos anos Que fogem ao que vivemos, como se eternos fôssemos Falhamos e nos entretemos, tão logo o erro se faz efêmero Fosse um raro verso fúlgido a crepitar na órbita do sol Desalojaríamos o futuro, sem compreender o fulcro das eras Não sem danos, escalamos a escarpa do astro venerando Íngreme soluço da inexatidão a vociferar crueldades Aspergindo, anonimamente, generosidades Nos maremotos dos ânimos, nas veredas da incompletude
6
De todos os decanos insanos e profanos / para a Bahia (Bernardo Almeida)
Na minha casa destampada Baratas surgem das panelas Rugem nas madrugadas Têm tamanho de ratos Na sala, morcegos rondam Cadeiras aleijadas e abajures sem luz Tateiam, bêbados, os prantos do escuro Em círculos incompletos — devoram o absurdo Os pisos não participam do festim Pedem apenas para ser trocados Súplica negada! No prédio, não há janelas Mas televisões Cujas telas são auditórios Em que o palestrante profere Um discurso pornô Em sincronia Com os reais ruídos Do amor Aqui, nas madrugadas Da Bahia, em Salvador Não existem santos Talvez cheguem como tais Mas morrem sempre mundanos Nada a expiar, somos todos perdidos Processo de canonização interrompido Pelos eflúvios sexuais Pela efusão da libido Embebidos em êxtase Peristálticos excessos Na cidade que é mãe E amante do poeta Que é tia e mãe Das minhas netas Devotos do prazer Todos os santos amuados Converteram-se em vivazes peregrinos Em busca do deus humano do orgasmo Que redime o pecado Sem tentar curar ou glorificar Aquilo que já está salvo e satisfeito Ceifado, deglutido, envenenado e celebrado Pela carne nua da hóstia Banhada nos mares hostis Relutantes e resolutos Da pia batismal oceânica Na qual deitou a cabeça Do nome de nascença Dessa terra lúbrica Que se fez povoar Pela indiferença