Balada do universo
Eu sou a carne intocada
Corpo saído dos céus
Sou a alma imaculada
Moldada nas mãos de Deus.
Eu sou o anjo que resta,
Um templo sem profanar;
A flor verde da giesta,
Rosa branca do altar.
Eu sou a mão da fortuna,
O último passageiro…
Sopro de areia na duna
Um pouco do mundo inteiro.
Sou a lágrima perdida
Que de rosto não caiu,
Sou a clareira da vida
Chama que a luz nunca viu.
20/05/1982
C. A. Afonso
Lágrima perdida
Anda perdida
Por entre as folhas amarelas e tristes
Sem olhos para a chorar,
…Uma lágrima!
Sem rosto onde escorrer
Sem mágoa para lhe entristecer os passos,
Sem tudo
Com nada, apenas, nada…
Nada mais do que nada.
Uma lágrima
Que rolou pelo meu colo
E desaguou nos teus dedos…
1979, Outono
C. A. Afonso
Porta para o esquecimento
Está ali uma porta
Mesmo à minha frente.
A fazer-se de morta.
A fazer-se de gente.
Vá para onde vá!
Seja para onde for
Não a passo já
Não a vou transpor!
Sei que vai fechar
Mal eu a transponha
Mas se aqui ficar
Fico com vergonha.
Quando ela se abre.
Ai que escuridão
Nem mesmo ela sabe
Onde fica o chão.
Parece não ter nada
Apenas um nome
Onde nasce a estrada
Que me mata a fome.
Sei que a vou passar
A vida é assim
Andar sem parar
Pra dentro de mim.
Volto a enganar-me!
Perco-me na porta
Quero emendar-me
Mas ela está morta!
Já vejo outra, aberta,
Ali à minha frente
Está tão deserta
No meio da gente.
São portas perdidas
Nunca são iguais,
Estradas paralelas
De encontro aos umbrais.
Sempre mais pequenas
São quase janelas…
Até que os meus olhos
Já não cabem nelas
Até que os meus olhos
Se fundem com elas.
Até que os meus olhos
São apenas delas….
1980
C. A. Afonso
Confissão
Aqui autor me confesso
Que pequei muitas vezes
Por palavras e silêncios,
Porque os meus gestos
Não revelaram as emoções
Que os pensamentos tiveram,
E trouxe dias negros em mim
E manhãs que anoiteceram.
Pequei pelo que disse
E pelo que omiti,
Deliberadamente pequei
Por não ter escrito o amor
E, talvez, nunca o dizer,
Deixar morrer essa flor
Sem nunca lhe dar de beber.
Por isso à memória,
Que não me seja cruel,
Me deixe escrever a estória
Em palavras de papel.
Palavras ditas pequenas
Entre os lábios e o ouvido,
Essa emoção que teima
Dar à vida outro sentido.
01.06.2020
C. A. Afonso
Por detrás dos olhos
Por detrás dos olhos
Há memórias de outras galáxias e universos
Para onde viajo ao anoitecer,
De pirâmides esculpidas em mãos e pés acorrentados,
Um vento que não para de correr.
Há vidas e sonhos
Como os peixes do mar, dispersos,
Por acontecer.
Por detrás dos olhos
A vida acontece, inexoravelmente,
Como abismos precipitados no tempo,
Sonho que se perde de um passado que segue em frente,
Caminha pela luz ténue do pirilampo,
Passageira de monstros velozes e medonhos.
Há estórias que perderam a semente,
Infértil o campo.
Por detrás dos olhos
Há cidades que matam os desejos
Árvores de metal a torturar a luz do dia,
Meias cópulas ausentes de beijos
E padres a mendigar corpos pela sacristia.
Há mães que nunca tiveram filhos
Tantas paixões esquecidas por detrás dos espelhos
Com a mão fria.
01/07/2019
C. A. Afonso
Escrever
Quero falar
Retirar das palavras o pó
Deixar-me levar
Para onde possa esquecer
Esta forma de estar só
A escrever.
Levar a palavra
De boca em boca
Para que a alma abra
O significado de ser
Onde o corpo sufoca
O acontecer.
Quero falar
Sem nunca escrever.
Escrever é caminhar
Sem nada dizer,
E sem ter vivido
Morrer.
11/02/2019
C. A. Afonso
Aqui o sonho
Contigo, o sonho
Nada em mim é disperso;
Para quê ser homo
Se posso ser universo?
Querer-te na palavra
Entre a paixão e a voz,
Uma chave que abra
A alma de estar a sós.
Talvez perder-me no gesto
Que materializa o desejo,
Em tudo o que é manifesto
Guardado à sombra de um beijo.
Existir sem resistir
Sem o toque das razões,
Chorar depois de sorrir
Ter no peito as emoções.
A vida é feita no traço
Que desenha o coração
Do tamanho de um abraço
Onde cabe a multidão.
04/01/2019
C. A. Afonso
Cadernos matinais
Hoje
Quando a manhã acordou
Naquele preciso instante
Em que os primeiros raios de sol
Esventraram o dia,
Quando amanheceram as cigarras ao
Beijar das ondas de calor,
Precisamente no instante em que o rouxinol se calou;
O momento em que a frescura da aurora se perdeu,
Pensei em ti.
Pensei e demorei-te na memória:
O teu rosto que não olho há milhares de anos;
Esse rosto que me habita desde o princípio,
Desde o primeiro momento;
O rosto que hoje me falta
Porque foste embora
De tanto estares em mim;
Hoje
Quando a manhã acordou
Tu acordaste com ela,
Habitaste a despedida e partiste
Como quem chega a outro planeta;
Com a mesma alegria de quem viaja aceso de liberdade
pelo Universo;
Partiste em mim porque eu já não sei pensar-te
E não te pensar
É perder todos os instantes
Plantar árvores sem raízes,
Esquecer os dias em que fomos amantes
E estávamos felizes
Por não existir antes.
11/02/2019
C. A. Afonso
Ziguezague
Podes seguir sem destino
Sem que vejas horizontes,
Ser adulto ou ser menino
Atravessar vales e montes…
Com saber ou ignorância,
Nunca te livras da sorte,
Vais percorrer a distância
Que te separa da morte.
Podes mudar de caminho
Tentar enganar a vida,
Acompanhado ou sozinho
Voltar de novo à partida,
Montar esparrelas e laços
Trocar o sul pelo norte,
Tu vais cair nos seus braços
Todos temos igual sorte.
Por isso vive o instante
Com toda a simplicidade,
Apaixona-te, sê amante,
Faz justiça, traz verdade.
O que importa é a sensação
Do vento a beijar a rosto,
O bater do coração,
Ao fim da tarde, o sol-posto.
14/12/2018
C. A. Afonso
Apocalipse
Relembro dias intactos
Noites perdidas de sono
Instantes que mudaram os factos
Vidas de abandono.
E relembro tardes anãs
Desesperos tolhidos à sorte
Dias sem ter amanhãs
Crianças que abraçaram a morte.
Relembro os grandes mistérios
Que deixam o povo sozinho,
Homens que roubam hemisférios
À custa do pão e do vinho.
E relembro verdades perdidas
Por entre a sombra dos dias
Mentiras que roubam as vidas,
Solidões ferozes e vazias.
11/09/2018
C. A. Afonso