Nascido em 1962 em Nuzedo de Cima-Vinhais, Licenciado em Psicologia Clínica e representado pela Ordem dos Psicólogos, Mestrado em Comportamento Desviante e a desenvolver Doutoramento em Ciências Forenses.
Foi Oficial Miliciano no Centro de Instrução em Operações Especiais-RANGERS em Lamego de 1983-1985.
Encontra-se desde outubro de 2022 na disponibilidade depois de 37 anos consecutivos ao serviço da Polícia Judiciária, onde foi coordenador de investigação criminal na Secção de Informação da Unidade de Cibercrime.
É formador certificado pelo IEFP e pelo Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais.
É Diretor de Psicodrama , Sócio Titular da Sociedade Portuguesa de Psicodrama tendo realizado a supervisão clínica com o Professor José Luís Pio de Abreu de Coimbra e Professor Roma Torres do Porto.
Professor Convidado pelo ISCSP desde 2012 na Pós-Graduação de Antropologia Biológica e Forense onde fundou o Tema de PROFILLING CRIMINAL.
Foi dirigente da ASFICPJ, fundador do Gabinete de Psicologia e Aconselhamento deste sindicato, Gabinete que dirigiu de 2005 a 2022.
Diretor da Revista de Investigação Criminal e Ciências Forenses pertencente a este sindicato da Polícia Judiciária de 2019 a 2022.
Fundador do Observatório da Investigação Criminal e Ciências Forenses e da Associação Portuguesa de Psicologia Judiciária e Ciências Forenses.
Fundador da Academia de Letras de Trás-os-Montes da qual é o Sócio nº 3.
Associado da Academia de Letras e Artes de Portugal.
Participou em diversos programas televisivos sobre criminalidade, nomeadamente nos Casos O Estripador de Lisboa para TVI e ANÓNIMOS na RTP1 e comentou muitos outros casos mediáticos nacionais e estrangeiros.
Representado pela Sociedade Portuguesa de Autores e é autor de diversos Livros nas modalidades de Poesia, Romance e Conto, tendo iniciado a sua atividade literária nos Jornais Correio da Manhã, Diário de Notícias e Jornal de Poetas e Trovadores.
Três dos seus livros fazem parte do plano nacional de leitura em escolas nacionais como o caso do romance A ESPADA DE SANTA MARIA, em Portimão e Aveiro, ANTOLOGIA BREVE em Portimão e A HORA DO LOBO em Caldas da Rainha.
Tem efetuado diversas intervenções em escolas um pouco por todo o país nomeadamente em Lisboa, Leiria, Aveiro, Portimão, Guimarães, Angra do Heroísmo, Ferreira do Alentejo, Caldas da Rainha entre outros.
A sua poesia e contos foram ainda trabalhados como tema anual em escolas noutros países de língua portuguesa como foi em São Paulo - Brasil onde participou em debates com alunos e professores através de ligações online.
Em termos bibliográficos tem uma obra dispersa no tempo que se iniciou em 1982 e prossegue até aos dias de hoje conforme seguidamente descrita: BIBLIOGRAFIA:
Deram-te um unicórnio de sonho Pincéis e tintas para grafitar, Um muro cinzento e estranho Onde o sol nunca vai raiar.
Disseram-te para ires à luta E deixares de ser um menino, Matar esses filhos da puta Que te roubam o destino.
Não te deram espada, ou espingarda Nem nada que se pareça, Deram-te apenas uma farda E um gorro para pôr na cabeça.
Uma bandeira na mão Palavras da ordem do dia, E fazes a revolução Sem amor, sem autoria.
Deram-te promessas, em vão, E uma canção que te acalma, E assim te tiram o pão, E assim te roubam a alma.
21/12/2015 C. A. Afonso
253
Por detrás dos olhos
Por detrás dos olhos Há memórias de outras galáxias e universos Para onde viajo ao anoitecer, De pirâmides esculpidas em mãos e pés acorrentados, Um vento que não para de correr. Há vidas e sonhos Como os peixes do mar, dispersos, Por acontecer.
Por detrás dos olhos A vida acontece, inexoravelmente, Como abismos precipitados no tempo, Sonho que se perde de um passado que segue em frente, Caminha pela luz ténue do pirilampo, Passageira de monstros velozes e medonhos. Há estórias que perderam a semente, Infértil o campo.
Por detrás dos olhos Há cidades que matam os desejos Árvores de metal a torturar a luz do dia, Meias cópulas ausentes de beijos E padres a mendigar corpos pela sacristia. Há mães que nunca tiveram filhos Tantas paixões esquecidas por detrás dos espelhos Com a mão fria.
01/07/2019 C. A. Afonso
140
Confissão
Aqui autor me confesso Que pequei muitas vezes Por palavras e silêncios, Porque os meus gestos Não revelaram as emoções Que os pensamentos tiveram, E trouxe dias negros em mim E manhãs que anoiteceram.
Pequei pelo que disse E pelo que omiti, Deliberadamente pequei Por não ter escrito o amor E, talvez, nunca o dizer, Deixar morrer essa flor Sem nunca lhe dar de beber. Por isso à memória,
Que não me seja cruel, Me deixe escrever a estória Em palavras de papel. Palavras ditas pequenas Entre os lábios e o ouvido, Essa emoção que teima Dar à vida outro sentido.
01.06.2020 C. A. Afonso
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Ziguezague
Podes seguir sem destino Sem que vejas horizontes, Ser adulto ou ser menino Atravessar vales e montes…
Com saber ou ignorância, Nunca te livras da sorte, Vais percorrer a distância Que te separa da morte.
Podes mudar de caminho Tentar enganar a vida, Acompanhado ou sozinho Voltar de novo à partida,
Montar esparrelas e laços Trocar o sul pelo norte, Tu vais cair nos seus braços Todos temos igual sorte.
Por isso vive o instante Com toda a simplicidade, Apaixona-te, sê amante, Faz justiça, traz verdade.
O que importa é a sensação Do vento a beijar a rosto, O bater do coração, Ao fim da tarde, o sol-posto.
14/12/2018 C. A. Afonso
38
A ordem das coisas
Mãos que surgiram da obscuridade de um Tempo nunca semeado, a minha Raiz do poente por sobre a espuma dos olhos... Solidão que se apaga à beira do corpo Inacessíveis crepúsculos de uma tarde que nunca se derrama. E é o musgo dos dedos a tactear as margens do silêncio Que reage ao unânime dos momentos. Revolta que se extingue em mim sem rasgar o véu de De todas as histórias que me inventam Terra sem domínio onde os gritos não têm eco nas luzes Onde todas as cinzas esventram o Sol, Incolores as janelas árduas perscrutando os silêncios, Abat-jours tecendo de lágrimas os eucaliptos na Dinâmica dos pássaros à-beira-do-sono... gritos. É isto das luzes extintas rejuvenescendo a manhã acesa Por detrás dos olhos Realidade incrédula, a outra claridade de mim ardendo nas Criptas da una memória... Séculos de herança dentro e fora dos olhos Esses monstros acesos por detrás da infância. Contar pelos dedos os momentos em que se repetem no mesmo erro Hirto, um sol incessante no arrefecer da tarde O quarto que emoldura os dias. Sonhos que guardo no arco da porta. Regresso. Regresso e a manhã acende-se de novo De novo o irrepetível gesto Na exatidão dos segundos Os cabelos viciados pelo som da escova Música serpenteando desde os mamutes errantes O eco da espada mordendo a carne por entre os carros e os pássaros... Inventaram-me este Deus de modelar o corpo E cegar de gestos instintivos A vida neste ápice de agoras. Mais tarde... Mais tarde arderá o silêncio dos genes Rarefeitos... Um outro Deus acenderá células À sombra de outro sol Aos domingos não haverá descanso porque a verdade é una Amarga como o sonho que se esqueceu no espelho da primeira memória A verdade Passageira errante entre cinco sentidos finitos Que desde a infância inscreve de angústia os lábios e os olhos Seio que adia a solidão para o fim da manhã Joelhos regressando ao quarto, procurando a mamã A luz que se apaga “Dorme meu menino é estrela de alva”... Esta família vai tecer-te as grades da prisão lá dentro De ti... E terás a ilusão de que és livre Nesta liberdade que existe desde os mamutes... Desde que os seus ossos aprisionaram os primeiros cabelos... Que outra explicação existe para os salmões Essa ânsia de regresso ao passado da vida Barco ao mar, o Cabo Bojador – Gil Eanes Gesto que tece de manhãs cada asa Irrepetíveis os olhos no ocaso das dunas Crepuscular o tecido que reveste o gesto Que traça o caminho da interioridade Espelho occipital inquebrável Construtor de todos os segredos inimagináveis Gatinhar no silêncio imperfeito Do quarto à sala, à cozinha apetecível Gavetas que ocultam invioláveis segredos Aquele gesto da boca repetido fora da mamã... Puxando pelos dedos. Ninguém compreende o meu grito Vou conquistar este espaço que é meu... Mas em silêncio Há sons que matam o movimento Velhos de anteriores Restelos Não quero esse chapéu de realidade ancestral Procuro a vida de olhos fechados... No tato A ferida matinal, o meu retrato. Puzzles que retalho aos pedaços Só desfeitos têm significado (sem desenho-cortes) Quero desenhá-los e pintá-los à minha medida, não vêem? Não, porque os vossos olhos foram tecidos de cidades De exatidões de passos circunscritos na alma De século a século há manhãs repetidas Palavras de lâminas que esventram as feridas, Cá fora procuro a ordem das coisas, o modelo, Mas lá dentro morro Nem eu compreendo esse grito-socorro. Castelos... Pedra a pedra revolvo o muro Cercando a casa Há lagos, jardins e um barbecue Amigos que a porta deixou entrar, não eu Todos me afogam os olhos com memórias De Deuses que estabeleceram a ordem das coisas. Que dúvida abstrata me persegue de luz acesa À que responde sem ter palavras precisas? Falta-me alguma coisa que desabotoe a angústia Mas sem a sublimar... Quero destruir, não criar! Quebrá-la na própria carne da vida No tecido, dormente entre os olhos e o corpo O tato do silêncio. Racionalidade adjacente aos olhos Oníricos e intemporais desejos: Pearl Harbor a preto e branco é mais real Com sangue ao fundo... Não tragas os venenosos, passa-lhes a unha Esventrando a cor, riscas esverdeadas, sangrentas, COGUMELOS, Cinza humilhando a voz. O tempo passou aqui velozmente, Desmagnetizou a carne dos ossos. A fuligem Do vento, cidade fantasma predestinada ao ocaso. Nenhum gene prossegue Chave extinta. A memória ficou do lado de fora do muro Aonde dói menos. Tecer as letras reinventando o código dos sons Lápis auricular proliferando no gesto Repetido, em todas as manhãs inquietas A dança de um Julho que tarda Cíclico de um norte desejado em todas as fugas Tudo é repetidamente ordenado Oleiro ancestral do meu silêncio à-beira-do-quarto A dor da partida e chegada à tarde. Pente trincando os cabelos desde o mamute Reduzindo o círculo dos olhos-óculos, olhar que não arde. Punhal traiçoeiro da glória que devassa o corpo Sangue imortal que implode, Devir infante que guardado em ânforas de barro. Deixem-nos sem norte Deixem-nos à noite que explode, à lua de ser outro! Onde há moinhos de vento cosmopolitas Debruçando a angústia Tecelões de miragens e loucuras anãs... Deixem-nos palmilhá-la e beber de gatas o sabor das manhãs. Regresso à orla do corpo onde construo o instante A vírgula arrefece o crepúsculo das células Fico aquém dos sentidos lá fora Tudo o que procuro é irremediavelmente distante cá dentro...
1997, Nuzedo de Cima C. A. Afonso
53
Lembrança breve
Caminhei com os teus pés, criança, Saltei e brinquei aqui e além, no fim do mundo, Voei por entre nuvens de esperança Sonhei milhares de vidas esquecidas num segundo.
Caminhei com os teus pés criança Caminhei cem tristezas, cem preocupações A noite mais longa não era para mim tardança Caía-me no peito, desfeita em mil corações.
Caminhei com os teus pés criança Andei pelos caminhos que a vida me deu Vida de tanto movimento e no fundo tão mansa Vida que nos meus olhos, em ti não morreu….
(Á criança que um dia me acompanhou numa rua de Lisboa; não soube o seu nome nem a sua idade, soube apenas que andava na 4ª Classe.)
Junho de 1979, Lisboa C. A. Afonso
30
Porta para o esquecimento
Está ali uma porta Mesmo à minha frente. A fazer-se de morta. A fazer-se de gente. Vá para onde vá! Seja para onde for Não a passo já Não a vou transpor!
Sei que vai fechar Mal eu a transponha Mas se aqui ficar Fico com vergonha.
Quando ela se abre. Ai que escuridão Nem mesmo ela sabe Onde fica o chão. Parece não ter nada Apenas um nome Onde nasce a estrada Que me mata a fome.
Sei que a vou passar A vida é assim Andar sem parar Pra dentro de mim.
Volto a enganar-me! Perco-me na porta Quero emendar-me Mas ela está morta! Já vejo outra, aberta, Ali à minha frente Está tão deserta No meio da gente.
São portas perdidas Nunca são iguais, Estradas paralelas De encontro aos umbrais.
Sempre mais pequenas São quase janelas… Até que os meus olhos Já não cabem nelas Até que os meus olhos Se fundem com elas. Até que os meus olhos São apenas delas….
1980 C. A. Afonso
41
Lágrima perdida
Anda perdida Por entre as folhas amarelas e tristes Sem olhos para a chorar, …Uma lágrima! Sem rosto onde escorrer Sem mágoa para lhe entristecer os passos, Sem tudo Com nada, apenas, nada… Nada mais do que nada. Uma lágrima Que rolou pelo meu colo E desaguou nos teus dedos…
1979, Outono C. A. Afonso
37
Sol português
O relógio da torre Já não sabe as horas. Há muito que morre: -Relógio que choras.
Mãos que se estendem A tantos porquês… Macias, que entendem Falar Português.
E a hora é agora Dissipa-se o mal Por dentro e por fora Nasce Portugal.
1989, Sintra C. A. Afonso
39
Cadernos matinais
Hoje Quando a manhã acordou Naquele preciso instante Em que os primeiros raios de sol Esventraram o dia, Quando amanheceram as cigarras ao Beijar das ondas de calor, Precisamente no instante em que o rouxinol se calou; O momento em que a frescura da aurora se perdeu, Pensei em ti.
Pensei e demorei-te na memória: O teu rosto que não olho há milhares de anos; Esse rosto que me habita desde o princípio, Desde o primeiro momento; O rosto que hoje me falta Porque foste embora De tanto estares em mim;
Hoje Quando a manhã acordou Tu acordaste com ela, Habitaste a despedida e partiste Como quem chega a outro planeta; Com a mesma alegria de quem viaja aceso de liberdade pelo Universo;
Partiste em mim porque eu já não sei pensar-te E não te pensar É perder todos os instantes Plantar árvores sem raízes, Esquecer os dias em que fomos amantes E estávamos felizes Por não existir antes.