Lista de Poemas

Balada do universo

Eu sou a carne intocada
Corpo saído dos céus
Sou a alma imaculada
Moldada nas mãos de Deus.

Eu sou o anjo que resta,
Um templo sem profanar;
A flor verde da giesta,
Rosa branca do altar.

Eu sou a mão da fortuna,
O último passageiro…
Sopro de areia na duna
Um pouco do mundo inteiro.

Sou a lágrima perdida 
Que de rosto não caiu,
Sou a clareira da vida
Chama que a luz nunca viu.

20/05/1982, Lisboa
C. A. Afonso
19

Cadernos matinais

Hoje
Quando a manhã acordou
Naquele preciso instante
Em que os primeiros raios de sol
Esventraram o dia,
Quando amanheceram as cigarras ao
Beijar das ondas de calor,
Precisamente no instante em que o rouxinol se calou;
O momento em que a frescura da aurora se perdeu,
Pensei em ti.

Pensei e demorei-te na memória:
O teu rosto que não olho há milhares de anos;
Esse rosto que me habita desde o princípio,
Desde o primeiro momento;
O rosto que hoje me falta
Porque foste embora
De tanto estares em mim;

Hoje
Quando a manhã acordou
Tu acordaste com ela,
Habitaste a despedida e partiste
Como quem chega a outro planeta;
Com a mesma alegria de quem viaja aceso de liberdade
pelo Universo;

Partiste em mim porque eu já não sei pensar-te
E não te pensar
É perder todos os instantes
Plantar árvores sem raízes,
Esquecer os dias em que fomos amantes
E estávamos felizes
Por não existir antes.

11/02/2019
C. A. Afonso
36

Sol português

O relógio da torre
Já não sabe as horas.
Há muito que morre:
-Relógio que choras.

Mãos que se estendem
A tantos porquês…
Macias, que entendem
Falar Português.

E a hora é agora
Dissipa-se o mal
Por dentro e por fora
Nasce Portugal.

1989, Sintra
C. A. Afonso
28

A ordem das coisas

Mãos que surgiram da obscuridade de um
Tempo nunca semeado, a minha
Raiz do poente por sobre a espuma dos olhos...
Solidão que se apaga à beira do corpo
Inacessíveis crepúsculos de uma tarde que nunca se derrama.
E é o musgo dos dedos a tactear as margens do silêncio
Que reage ao unânime dos momentos.
Revolta que se extingue em mim sem rasgar o véu de
De todas as histórias que me inventam
Terra sem domínio onde os gritos não têm eco nas luzes
Onde todas as cinzas esventram o Sol,
Incolores as janelas árduas perscrutando os silêncios,
Abat-jours tecendo de lágrimas os eucaliptos na
Dinâmica dos pássaros à-beira-do-sono... gritos.
É isto das luzes extintas rejuvenescendo a manhã acesa
Por detrás dos olhos
Realidade incrédula, a outra claridade de mim ardendo nas
Criptas da una memória...
Séculos de herança dentro e fora dos olhos
Esses monstros acesos por detrás da infância.
Contar pelos dedos os momentos em que se repetem no mesmo erro
Hirto, um sol incessante no arrefecer da tarde
O quarto que emoldura os dias.
Sonhos que guardo no arco da porta.
Regresso. Regresso e a manhã acende-se de novo
De novo o irrepetível gesto
Na exatidão dos segundos
Os cabelos viciados pelo som da escova
Música serpenteando desde os mamutes errantes
O eco da espada mordendo a carne por entre os carros e
os pássaros...
Inventaram-me este Deus de modelar o corpo
E cegar de gestos instintivos
A vida neste ápice de agoras.
Mais tarde... Mais tarde arderá o silêncio dos genes
Rarefeitos...
Um outro Deus acenderá células
À sombra de outro sol
Aos domingos não haverá descanso porque a verdade é
una
Amarga como o sonho que se esqueceu no espelho da
primeira memória
A verdade
Passageira errante entre cinco sentidos finitos
Que desde a infância inscreve de angústia os lábios e os
olhos
Seio que adia a solidão para o fim da manhã
Joelhos regressando ao quarto, procurando a mamã
A luz que se apaga
“Dorme meu menino é estrela de alva”...
Esta família vai tecer-te as grades da prisão lá dentro
De ti... E terás a ilusão de que és livre
Nesta liberdade que existe desde os mamutes...
Desde que os seus ossos aprisionaram os primeiros cabelos...
Que outra explicação existe para os salmões
Essa ânsia de regresso ao passado da vida
Barco ao mar, o Cabo Bojador – Gil Eanes
Gesto que tece de manhãs cada asa
Irrepetíveis os olhos no ocaso das dunas
Crepuscular o tecido que reveste o gesto
Que traça o caminho da interioridade
Espelho occipital inquebrável
Construtor de todos os segredos inimagináveis
Gatinhar no silêncio imperfeito
Do quarto à sala, à cozinha apetecível
Gavetas que ocultam invioláveis segredos
Aquele gesto da boca repetido fora da mamã... Puxando
pelos dedos.
Ninguém compreende o meu grito
Vou conquistar este espaço que é meu... Mas em silêncio
Há sons que matam o movimento
Velhos de anteriores Restelos
Não quero esse chapéu de realidade ancestral
Procuro a vida de olhos fechados... No tato
A ferida matinal, o meu retrato.
Puzzles que retalho aos pedaços
Só desfeitos têm significado (sem desenho-cortes)
Quero desenhá-los e pintá-los à minha medida, não
vêem?
Não, porque os vossos olhos foram tecidos de cidades
De exatidões de passos circunscritos na alma
De século a século há manhãs repetidas
Palavras de lâminas que esventram as feridas,
Cá fora procuro a ordem das coisas, o modelo,
Mas lá dentro morro
Nem eu compreendo esse grito-socorro.
Castelos... Pedra a pedra revolvo o muro
Cercando a casa
Há lagos, jardins e um barbecue
Amigos que a porta deixou entrar, não eu
Todos me afogam os olhos com memórias
De Deuses que estabeleceram a ordem das coisas.
Que dúvida abstrata me persegue de luz acesa
À que responde sem ter palavras precisas?
Falta-me alguma coisa que desabotoe a angústia
Mas sem a sublimar... Quero destruir, não criar!
Quebrá-la na própria carne da vida
No tecido, dormente entre os olhos e o corpo
O tato do silêncio.
Racionalidade adjacente aos olhos
Oníricos e intemporais desejos: Pearl Harbor a preto e
branco é mais real
Com sangue ao fundo...
Não tragas os venenosos, passa-lhes a unha
Esventrando a cor, riscas esverdeadas, sangrentas, COGUMELOS,
Cinza humilhando a voz. O tempo passou aqui velozmente,
Desmagnetizou a carne dos ossos. A fuligem
Do vento, cidade fantasma predestinada ao ocaso.
Nenhum gene prossegue
Chave extinta.
A memória ficou do lado de fora do muro
Aonde dói menos.
Tecer as letras reinventando o código dos sons
Lápis auricular proliferando no gesto
Repetido, em todas as manhãs inquietas
A dança de um Julho que tarda
Cíclico de um norte desejado em todas as fugas
Tudo é repetidamente ordenado
Oleiro ancestral do meu silêncio à-beira-do-quarto
A dor da partida e chegada à tarde.
Pente trincando os cabelos desde o mamute
Reduzindo o círculo dos olhos-óculos, olhar que não arde.
Punhal traiçoeiro da glória que devassa o corpo
Sangue imortal que implode,
Devir infante que guardado em ânforas de barro.
Deixem-nos sem norte
Deixem-nos à noite que explode, à lua de ser outro!
Onde há moinhos de vento cosmopolitas
Debruçando a angústia
Tecelões de miragens e loucuras anãs...
Deixem-nos palmilhá-la e beber de gatas o sabor das manhãs.
Regresso à orla do corpo onde construo o instante
A vírgula arrefece o crepúsculo das células
Fico aquém dos sentidos lá fora
Tudo o que procuro é irremediavelmente distante
cá dentro...

1997, Nuzedo de Cima
C. A. Afonso
39

Porta para o esquecimento

Está ali uma porta
Mesmo à minha frente.
A fazer-se de morta.
A fazer-se de gente.
Vá para onde vá!
Seja para onde for
Não a passo já
Não a vou transpor!

Sei que vai fechar
Mal eu a transponha
Mas se aqui ficar
Fico com vergonha.

Quando ela se abre.
Ai que escuridão
Nem mesmo ela sabe
Onde fica o chão.
Parece não ter nada
Apenas um nome
Onde nasce a estrada
Que me mata a fome.

Sei que a vou passar
A vida é assim
Andar sem parar
Pra dentro de mim.

Volto a enganar-me!
Perco-me na porta
Quero emendar-me
Mas ela está morta!
Já vejo outra, aberta,
Ali à minha frente
Está tão deserta
No meio da gente.

São portas perdidas
Nunca são iguais,
Estradas paralelas
De encontro aos umbrais.

Sempre mais pequenas
São quase janelas…
Até que os meus olhos
Já não cabem nelas
Até que os meus olhos
Se fundem com elas.
Até que os meus olhos
São apenas delas….

1980
C. A. Afonso
24

Lágrima perdida

Anda perdida
Por entre as folhas amarelas e tristes
Sem olhos para a chorar,
…Uma lágrima!
Sem rosto onde escorrer
Sem mágoa para lhe entristecer os passos,
Sem tudo
Com nada, apenas, nada…
Nada mais do que nada.
Uma lágrima
Que rolou pelo meu colo
E desaguou nos teus dedos…

1979, Outono
C. A. Afonso
25

Apocalipse

Relembro dias intactos
Noites perdidas de sono
Instantes que mudaram os factos
Vidas de abandono.
E relembro tardes anãs
Desesperos tolhidos à sorte
Dias sem ter amanhãs
Crianças que abraçaram a morte.
Relembro os grandes mistérios
Que deixam o povo sozinho,
Homens que roubam hemisférios
À custa do pão e do vinho.
E relembro verdades perdidas
Por entre a sombra dos dias
Mentiras que roubam as vidas,
Solidões ferozes e vazias.

11/09/2018
C. A. Afonso
25

Despedida inocente

Morreu um pássaro às nove em ponto
Quem lhe chorou a morte
Ou implorou a vida?

Ninguém!...

Morreu um pássaro às nove em ponto
Quem lhe socorreu a carne
Ou proclamou o espírito?

Ninguém!...

Morreu um pássaro às nove em ponto
Mas nenhum advogado lhe defendeu os olhos
Da prisão perpétua,

Nenhum!...

1980, Lisboa
C. A. Afonso
25

Horas esculturas

Aqui estou,
A esculpir a tarde com os olhos doridos
Rasos de imagens que segredam memórias,
Imagens que não querem desprender-se do tempo,
Agarradas a cada gesto de pensar
Como se a qualquer momento
Nascessem para me levar.

Aqui estou,
Colado aos dias com vontade alheia
A não ouvir o que sinto, não pensar o que sou,
A força do meu braço
É como a chama da vela que serpenteia,
Há um mar de sargaço
A insistir na orla da praia sobre a maré cheia.

Aqui estou,
Onde não há mais nada do que haver aqui
Tudo o que faça é real do que é
Irreal do que eu sou,
O mais que me ficou
Permanece onde senti,
Por detrás do horizonte dos homens sem fé.

14/03/2018
C. A. Afonso
25

A tua ilha na praia

Deixa que os teus olhos
Se estendam livremente
De encontro ao mar
Abre os teus braços na areia escaldante.
Deixa as ondas de azul levar-te a mente
Para além das fronteiras
Do sonho da lua-cheia.

Depois regressa.
Regressa ao infinito espaço
Que rodeia o teu mundo
Traz o sonho nos braços
E não tenhas receio de acordar de repente
E encontrar na praia
Um mar de sargaços!

Se achares que é demais
Esse estar assim feliz
E em vez de sonho tu sintas que é um tormento!
Recorda-te que da vida tu és
Apenas aprendiz,
O que procuras é transformar em amor
O pensamento.

1985, Lisboa
C. A. Afonso
27

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C. A. Afonso

Nascido em 1962 em Nuzedo de Cima-Vinhais, Licenciado em Psicologia Clínica e representado pela Ordem dos Psicólogos, Mestrado em Comportamento Desviante e a desenvolver Doutoramento em Ciências Forenses. 

Foi Oficial Miliciano no Centro de Instrução em Operações Especiais-RANGERS em Lamego de 1983-1985.

Encontra-se desde outubro de 2022 na disponibilidade depois de 37 anos consecutivos ao serviço da Polícia Judiciária, onde foi coordenador de investigação criminal na Secção de Informação da Unidade de Cibercrime.

É formador certificado pelo IEFP e pelo Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. 

É Diretor de Psicodrama , Sócio Titular da Sociedade Portuguesa de Psicodrama tendo realizado a supervisão clínica com o Professor José Luís Pio de Abreu de Coimbra e Professor Roma Torres do Porto.

Professor Convidado pelo ISCSP desde 2012 na Pós-Graduação de Antropologia Biológica e Forense onde fundou o Tema de PROFILLING CRIMINAL.

Foi dirigente da ASFICPJ, fundador do Gabinete de Psicologia e Aconselhamento deste sindicato, Gabinete que dirigiu de 2005 a 2022.

Diretor da Revista de Investigação Criminal e Ciências Forenses pertencente a este sindicato da Polícia Judiciária de 2019 a 2022.

Fundador do Observatório da Investigação Criminal e Ciências Forenses e da Associação Portuguesa de Psicologia Judiciária e Ciências Forenses.

Fundador da Academia de Letras de Trás-os-Montes da qual é o Sócio nº 3.

Associado da Academia de Letras e Artes de Portugal.

Participou em diversos programas televisivos sobre criminalidade, nomeadamente nos Casos O Estripador de Lisboa para TVI e ANÓNIMOS na RTP1 e comentou muitos outros casos mediáticos nacionais e estrangeiros.

Representado pela Sociedade Portuguesa de Autores e é autor de diversos Livros nas modalidades de Poesia, Romance e Conto, tendo iniciado a sua atividade literária nos Jornais Correio da Manhã, Diário de Notícias e Jornal de Poetas e Trovadores.

Três dos seus livros fazem parte do plano nacional de leitura em escolas nacionais como o caso do romance A ESPADA DE SANTA MARIA, em Portimão e Aveiro, ANTOLOGIA BREVE em Portimão e A HORA DO LOBO em Caldas da Rainha.

Tem efetuado diversas intervenções em escolas um pouco por todo o país nomeadamente em Lisboa, Leiria, Aveiro, Portimão, Guimarães, Angra do Heroísmo, Ferreira do Alentejo, Caldas da Rainha entre outros. 

A sua poesia e contos foram ainda trabalhados como tema anual em escolas noutros países de língua portuguesa como foi em São Paulo - Brasil onde participou em debates com alunos e professores através de ligações online.  

Em termos bibliográficos tem uma obra dispersa no tempo que se iniciou em 1982 e prossegue até aos dias de hoje conforme seguidamente descrita:
BIBLIOGRAFIA:

Edições individuais:

1982 - A Sombra da Minha, Poesia.

1995 – Paisagem da Lua-verde, Poesia

1996 – Circulo Ardente, Poesia,

2014 -  A Espada de Santa Maria, Romance.

2018 – A Hora do Lobo, Contos de Montesinho

2018 – Antologia Breve, Poesia, Antologia Poética.

2020 – A Forma das Horas, Poesia, Antologia Poética.

 

Coletivos:

1986- III Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Poesia. Lisboa.

1996 – Bosque Flutuante, Poesia, Antologia Poética contemporânea. Lisboa.

1998 – Um outro olhar, Poesia e Conto, Colectânea da Polícia Judiciária. Lisboa.

2016 – Love Box de Ricardo Passos, Textos de vários autores e ilustrações de Ricardo Passos. Lisboa.

2019 – Poetas D’hoje Cantam a Saudade, Colectânea do Grupo de Poesia Beira Ria – Aveiro.

2022 – Um diamante de histórias, Colectânea de contos da Polícia Judiciária. Lisboa.


Páginas facebook:

https://www.facebook.com/cesar.alexandre.77128/

https://www.facebook.com/cesar.afonso.10/

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https://www.facebook.com/contosdemontesinho/

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