A tua ilha na cidade
Deixa que eu te leve daqui
Por esse mar de ondas e de areia
Ao encontro de uma palmeira que seja única
Com água doce
E luz branca da noite
A testemunhar-nos a fuga.
Deixa essa ilha paraíso
Construir telhados e casas nos teus olhos
E construir ruas no teu corpo.
Depois, deita-te sobre a areia
E espera que as ondas de espuma te beijem os pés
Esquece tudo. Nesse instante encontras o que és.
1985, Lisboa
C. A. Afonso
Horas esculturas
Aqui estou,
A esculpir a tarde com os olhos doridos
Rasos de imagens que segredam memórias,
Imagens que não querem desprender-se do tempo,
Agarradas a cada gesto de pensar
Como se a qualquer momento
Nascessem para me levar.
Aqui estou,
Colado aos dias com vontade alheia
A não ouvir o que sinto, não pensar o que sou,
A força do meu braço
É como a chama da vela que serpenteia,
Há um mar de sargaço
A insistir na orla da praia sobre a maré cheia.
Aqui estou,
Onde não há mais nada do que haver aqui
Tudo o que faça é real do que é
Irreal do que eu sou,
O mais que me ficou
Permanece onde senti,
Por detrás do horizonte dos homens sem fé.
14/03/2018
C. A. Afonso
Sol português
O relógio da torre
Já não sabe as horas.
Há muito que morre:
-Relógio que choras.
Mãos que se estendem
A tantos porquês…
Macias, que entendem
Falar Português.
E a hora é agora
Dissipa-se o mal
Por dentro e por fora
Nasce Portugal.
1989, Sintra
C. A. Afonso
Escrever
Quero falar
Retirar das palavras o pó
Deixar-me levar
Para onde possa esquecer
Esta forma de estar só
A escrever.
Levar a palavra
De boca em boca
Para que a alma abra
O significado de ser
Onde o corpo sufoca
O acontecer.
Quero falar
Sem nunca escrever.
Escrever é caminhar
Sem nada dizer,
E sem ter vivido
Morrer.
11/02/2019
C. A. Afonso
Embriaguez
Não esperes que palavras indizíveis
Inventem sementes na minha boca
Quando o sono da aurora dos crepúsculos
Invada os teus olhos!
Vou!
Simplesmente,
Na mansidão das neblinas da manhã
Poisar a mão nos teus cabelos
E deslizar na embriaguez do teu corpo!
1991, Lisboa
C. A. Afonso
A ordem das coisas
Mãos que surgiram da obscuridade de um
Tempo nunca semeado, a minha
Raiz do poente por sobre a espuma dos olhos...
Solidão que se apaga à beira do corpo
Inacessíveis crepúsculos de uma tarde que nunca se derrama.
E é o musgo dos dedos a tactear as margens do silêncio
Que reage ao unânime dos momentos.
Revolta que se extingue em mim sem rasgar o véu de
De todas as histórias que me inventam
Terra sem domínio onde os gritos não têm eco nas luzes
Onde todas as cinzas esventram o Sol,
Incolores as janelas árduas perscrutando os silêncios,
Abat-jours tecendo de lágrimas os eucaliptos na
Dinâmica dos pássaros à-beira-do-sono... gritos.
É isto das luzes extintas rejuvenescendo a manhã acesa
Por detrás dos olhos
Realidade incrédula, a outra claridade de mim ardendo nas
Criptas da una memória...
Séculos de herança dentro e fora dos olhos
Esses monstros acesos por detrás da infância.
Contar pelos dedos os momentos em que se repetem no mesmo erro
Hirto, um sol incessante no arrefecer da tarde
O quarto que emoldura os dias.
Sonhos que guardo no arco da porta.
Regresso. Regresso e a manhã acende-se de novo
De novo o irrepetível gesto
Na exatidão dos segundos
Os cabelos viciados pelo som da escova
Música serpenteando desde os mamutes errantes
O eco da espada mordendo a carne por entre os carros e
os pássaros...
Inventaram-me este Deus de modelar o corpo
E cegar de gestos instintivos
A vida neste ápice de agoras.
Mais tarde... Mais tarde arderá o silêncio dos genes
Rarefeitos...
Um outro Deus acenderá células
À sombra de outro sol
Aos domingos não haverá descanso porque a verdade é
una
Amarga como o sonho que se esqueceu no espelho da
primeira memória
A verdade
Passageira errante entre cinco sentidos finitos
Que desde a infância inscreve de angústia os lábios e os
olhos
Seio que adia a solidão para o fim da manhã
Joelhos regressando ao quarto, procurando a mamã
A luz que se apaga
“Dorme meu menino é estrela de alva”...
Esta família vai tecer-te as grades da prisão lá dentro
De ti... E terás a ilusão de que és livre
Nesta liberdade que existe desde os mamutes...
Desde que os seus ossos aprisionaram os primeiros cabelos...
Que outra explicação existe para os salmões
Essa ânsia de regresso ao passado da vida
Barco ao mar, o Cabo Bojador – Gil Eanes
Gesto que tece de manhãs cada asa
Irrepetíveis os olhos no ocaso das dunas
Crepuscular o tecido que reveste o gesto
Que traça o caminho da interioridade
Espelho occipital inquebrável
Construtor de todos os segredos inimagináveis
Gatinhar no silêncio imperfeito
Do quarto à sala, à cozinha apetecível
Gavetas que ocultam invioláveis segredos
Aquele gesto da boca repetido fora da mamã... Puxando
pelos dedos.
Ninguém compreende o meu grito
Vou conquistar este espaço que é meu... Mas em silêncio
Há sons que matam o movimento
Velhos de anteriores Restelos
Não quero esse chapéu de realidade ancestral
Procuro a vida de olhos fechados... No tato
A ferida matinal, o meu retrato.
Puzzles que retalho aos pedaços
Só desfeitos têm significado (sem desenho-cortes)
Quero desenhá-los e pintá-los à minha medida, não
vêem?
Não, porque os vossos olhos foram tecidos de cidades
De exatidões de passos circunscritos na alma
De século a século há manhãs repetidas
Palavras de lâminas que esventram as feridas,
Cá fora procuro a ordem das coisas, o modelo,
Mas lá dentro morro
Nem eu compreendo esse grito-socorro.
Castelos... Pedra a pedra revolvo o muro
Cercando a casa
Há lagos, jardins e um barbecue
Amigos que a porta deixou entrar, não eu
Todos me afogam os olhos com memórias
De Deuses que estabeleceram a ordem das coisas.
Que dúvida abstrata me persegue de luz acesa
À que responde sem ter palavras precisas?
Falta-me alguma coisa que desabotoe a angústia
Mas sem a sublimar... Quero destruir, não criar!
Quebrá-la na própria carne da vida
No tecido, dormente entre os olhos e o corpo
O tato do silêncio.
Racionalidade adjacente aos olhos
Oníricos e intemporais desejos: Pearl Harbor a preto e
branco é mais real
Com sangue ao fundo...
Não tragas os venenosos, passa-lhes a unha
Esventrando a cor, riscas esverdeadas, sangrentas, COGUMELOS,
Cinza humilhando a voz. O tempo passou aqui velozmente,
Desmagnetizou a carne dos ossos. A fuligem
Do vento, cidade fantasma predestinada ao ocaso.
Nenhum gene prossegue
Chave extinta.
A memória ficou do lado de fora do muro
Aonde dói menos.
Tecer as letras reinventando o código dos sons
Lápis auricular proliferando no gesto
Repetido, em todas as manhãs inquietas
A dança de um Julho que tarda
Cíclico de um norte desejado em todas as fugas
Tudo é repetidamente ordenado
Oleiro ancestral do meu silêncio à-beira-do-quarto
A dor da partida e chegada à tarde.
Pente trincando os cabelos desde o mamute
Reduzindo o círculo dos olhos-óculos, olhar que não arde.
Punhal traiçoeiro da glória que devassa o corpo
Sangue imortal que implode,
Devir infante que guardado em ânforas de barro.
Deixem-nos sem norte
Deixem-nos à noite que explode, à lua de ser outro!
Onde há moinhos de vento cosmopolitas
Debruçando a angústia
Tecelões de miragens e loucuras anãs...
Deixem-nos palmilhá-la e beber de gatas o sabor das manhãs.
Regresso à orla do corpo onde construo o instante
A vírgula arrefece o crepúsculo das células
Fico aquém dos sentidos lá fora
Tudo o que procuro é irremediavelmente distante
cá dentro...
1997, Nuzedo de Cima
C. A. Afonso
A tua ilha na praia
Deixa que os teus olhos
Se estendam livremente
De encontro ao mar
Abre os teus braços na areia escaldante.
Deixa as ondas de azul levar-te a mente
Para além das fronteiras
Do sonho da lua-cheia.
Depois regressa.
Regressa ao infinito espaço
Que rodeia o teu mundo
Traz o sonho nos braços
E não tenhas receio de acordar de repente
E encontrar na praia
Um mar de sargaços!
Se achares que é demais
Esse estar assim feliz
E em vez de sonho tu sintas que é um tormento!
Recorda-te que da vida tu és
Apenas aprendiz,
O que procuras é transformar em amor
O pensamento.
1985, Lisboa
C. A. Afonso
Ode à poesia
Sentado por sobre a areia
Fresca e suave
Recordo o velho tempo
Em que falámos
Do futuro,
Tempo com mãos de asas de ave
De nome liberdade.
Será que o acordámos?
Talvez (que) sim.
A ave pousou suavemente
Nos ombros do meu sonho
Agreste e indomável
E vi-me,
Vi-nos misturados na vida com a gente
Que não tem sonhos e arrasta os nossos.
É provável,
Que um dia a maré encha
E inunde a areia
Onde tu estás tranquila,
A pensar o passado,
E esse sonho se reveja (perdido)
Na maré cheia
Desfeito sobre as águas
Como um barco (naufragado)...
E que tu fiques
Inundada de dúvida e espanto
Sobre as razões
Do teu alheamento ao sonho:
O que contemplas tranquila
E ausente a um canto
Com tâmaras nos bolsos,
Num deserto infindável e medonho
Tu,
Recanto perdido dos Poetas que enlouquecem
Nesse local onde o sonho é vivo,
E que não existe
Para mais ninguém
Só eles acreditam e adoecem
E morrem para o mundo,
É a sorte de quem persiste
Em cumprir essa ideia
Amarelecida ao vento
Já com séculos de vida,
E mata noite e dia.
Essa ideia
Que a poucos leva ao firmamento
Mas que vale a pena vivê-la na terra:
Poesia...
Tu és
Aquela enxerga de palha onde eu
Repouso e sonho
Esse sonho terno e suave,
Que me descobre
Em cada palavra e desceu
Até mim
E transbordou-me e já não cabe
No que eu sou
E estendo-o nestas palavras rasgadas
Ao vento,
Ligadas à memória como a terra
À sepultura
Brisas de séculos cansadas
A adormecer os olhos
De quem as lê e erra.
Tu és essa dor humana
Que vela o meu sono
A que desperta o espanto
Da realidade exterior
Dor que esventra
E depois deixa ao abandono
Dos algozes vorazes,
De outras formas de dor;
És tudo o que consome a vida
Sem explicação,
Sentido dos passos,
Sem sentido e sem cessar,
A voz trémula ao espelho,
Os dedos no coração
Os olhos no infinito,
Acabados de fechar.
1995, Sintra
C. A. Afonso
Lembrança breve
Caminhei com os teus pés, criança,
Saltei e brinquei aqui e além, no fim do mundo,
Voei por entre nuvens de esperança
Sonhei milhares de vidas esquecidas num segundo.
Caminhei com os teus pés criança
Caminhei cem tristezas, cem preocupações
A noite mais longa não era para mim tardança
Caía-me no peito, desfeita em mil corações.
Caminhei com os teus pés criança
Andei pelos caminhos que a vida me deu
Vida de tanto movimento e no fundo tão mansa
Vida que nos meus olhos, em ti não morreu….
(Á criança que um dia me acompanhou numa rua de Lisboa; não soube o seu nome nem a sua idade, soube apenas que andava na 4ª Classe.)
Junho de 1979, Lisboa
C. A. Afonso
Aqui o sonho
Contigo, o sonho
Nada em mim é disperso;
Para quê ser homo
Se posso ser universo?
Querer-te na palavra
Entre a paixão e a voz,
Uma chave que abra
A alma de estar a sós.
Talvez perder-me no gesto
Que materializa o desejo,
Em tudo o que é manifesto
Guardado à sombra de um beijo.
Existir sem resistir
Sem o toque das razões,
Chorar depois de sorrir
Ter no peito as emoções.
A vida é feita no traço
Que desenha o coração
Do tamanho de um abraço
Onde cabe a multidão.
04/01/2019
C. A. Afonso