Balada do universo
Eu sou a carne intocada
Corpo saído dos céus
Sou a alma imaculada
Moldada nas mãos de Deus.
Eu sou o anjo que resta,
Um templo sem profanar;
A flor verde da giesta,
Rosa branca do altar.
Eu sou a mão da fortuna,
O último passageiro…
Sopro de areia na duna
Um pouco do mundo inteiro.
Sou a lágrima perdida
Que de rosto não caiu,
Sou a clareira da vida
Chama que a luz nunca viu.
20/05/1982
C. A. Afonso
Ode à poesia
Sentado por sobre a areia
Fresca e suave
Recordo o velho tempo
Em que falámos
Do futuro,
Tempo com mãos de asas de ave
De nome liberdade.
Será que o acordámos?
Talvez (que) sim.
A ave pousou suavemente
Nos ombros do meu sonho
Agreste e indomável
E vi-me,
Vi-nos misturados na vida com a gente
Que não tem sonhos e arrasta os nossos.
É provável,
Que um dia a maré encha
E inunde a areia
Onde tu estás tranquila,
A pensar o passado,
E esse sonho se reveja (perdido)
Na maré cheia
Desfeito sobre as águas
Como um barco (naufragado)...
E que tu fiques
Inundada de dúvida e espanto
Sobre as razões
Do teu alheamento ao sonho:
O que contemplas tranquila
E ausente a um canto
Com tâmaras nos bolsos,
Num deserto infindável e medonho
Tu,
Recanto perdido dos Poetas que enlouquecem
Nesse local onde o sonho é vivo,
E que não existe
Para mais ninguém
Só eles acreditam e adoecem
E morrem para o mundo,
É a sorte de quem persiste
Em cumprir essa ideia
Amarelecida ao vento
Já com séculos de vida,
E mata noite e dia.
Essa ideia
Que a poucos leva ao firmamento
Mas que vale a pena vivê-la na terra:
Poesia...
Tu és
Aquela enxerga de palha onde eu
Repouso e sonho
Esse sonho terno e suave,
Que me descobre
Em cada palavra e desceu
Até mim
E transbordou-me e já não cabe
No que eu sou
E estendo-o nestas palavras rasgadas
Ao vento,
Ligadas à memória como a terra
À sepultura
Brisas de séculos cansadas
A adormecer os olhos
De quem as lê e erra.
Tu és essa dor humana
Que vela o meu sono
A que desperta o espanto
Da realidade exterior
Dor que esventra
E depois deixa ao abandono
Dos algozes vorazes,
De outras formas de dor;
És tudo o que consome a vida
Sem explicação,
Sentido dos passos,
Sem sentido e sem cessar,
A voz trémula ao espelho,
Os dedos no coração
Os olhos no infinito,
Acabados de fechar.
1995, Sintra
C. A. Afonso
Embriaguez
Não esperes que palavras indizíveis
Inventem sementes na minha boca
Quando o sono da aurora dos crepúsculos
Invada os teus olhos!
Vou!
Simplesmente,
Na mansidão das neblinas da manhã
Poisar a mão nos teus cabelos
E deslizar na embriaguez do teu corpo!
1991, Lisboa
C. A. Afonso
Aqui o sonho
Contigo, o sonho
Nada em mim é disperso;
Para quê ser homo
Se posso ser universo?
Querer-te na palavra
Entre a paixão e a voz,
Uma chave que abra
A alma de estar a sós.
Talvez perder-me no gesto
Que materializa o desejo,
Em tudo o que é manifesto
Guardado à sombra de um beijo.
Existir sem resistir
Sem o toque das razões,
Chorar depois de sorrir
Ter no peito as emoções.
A vida é feita no traço
Que desenha o coração
Do tamanho de um abraço
Onde cabe a multidão.
04/01/2019
C. A. Afonso
Despedida inocente
Morreu um pássaro às nove em ponto
Quem lhe chorou a morte
Ou implorou a vida?
Ninguém!...
Morreu um pássaro às nove em ponto
Quem lhe socorreu a carne
Ou proclamou o espírito?
Ninguém!...
Morreu um pássaro às nove em ponto
Mas nenhum advogado lhe defendeu os olhos
Da prisão perpétua,
Nenhum!...
1980, Lisboa
C. A. Afonso
A tua ilha na cidade
Deixa que eu te leve daqui
Por esse mar de ondas e de areia
Ao encontro de uma palmeira que seja única
Com água doce
E luz branca da noite
A testemunhar-nos a fuga.
Deixa essa ilha paraíso
Construir telhados e casas nos teus olhos
E construir ruas no teu corpo.
Depois, deita-te sobre a areia
E espera que as ondas de espuma te beijem os pés
Esquece tudo. Nesse instante encontras o que és.
1985, Lisboa
C. A. Afonso
Mãe
Onde estás mãe!
Não sabes que caí e magoei os joelhos?
Vê como estou cansado,
Quando corro com os amigos no colégio
São os teus olhos que trazem o sorriso ao meu rosto
E o sabor dos teus beijos que me curam das lágrimas que
verto, angústias da última queda nas brincadeiras do fim
da tarde.
Depois, apareces triste, de olhos murchos, como se eu
tivesse culpa por estares assim, como se tudo o que percorri
não tivesse sentido!
Não compreendes o brilho a cintilar nos meus olhos no
regresso a casa...
Nem as minhas birras por querer ficar mais tempo com
os amigos para te fazer ciúme e tu dizes que eu sou uma
criança teimosa.
Eu apenas quero disputar o teu tempo.
Impregnar a tua memória de mim.
E à noite!
Sabes que ainda tenho medo do escuro?
As cortinas, o luar incandescente redescobrindo monstros
dos contos de fadas, das televisões substitutas,
Dá-me a impressão de que há vazios que desconheço.
Fico inseguro, com medos abruptos na noite... Sento-me
na cama quando desperto aflito.
Tenho vontade de correr para junto de ti
Mas receio que não estejas à minha espera.
Tu dormes descansada e eu às vezes passeio pela casa
E entro no teu quarto e em silêncio
Afago-te o rosto
Deito um dos meus bonecos ao teu lado como se fosse eu,
Tu não percebes que era eu que desejava estar ali quando
acordas
E achas graça,
Eu finjo rir e percebo que não entendes nada do sonho
das crianças
Dos seus pesadelos e medos,
Dizes para que eu cresça depressa e faça tudo como se
fosse grande,
Mas eu tenho medo de ser grande!
Os grandes vivem tão sós,
Não percebem os desejos porque anseio
Nem as linguagens das coisas que fazem parte da vida.
Onde estás mãe?
Quando eu percebo que afinal também se morre
E não entendo a razão do mundo
Porque o meu amigo... Morreu!
Fico desesperado
E procuro-o em todos os caminhos que partilhámos
Sem perceber que ele partiu
Para a eternidade,
Dizes-me apenas que ele foi com os anjos bons
Mas que raio de bondade pode haver em alguém que
nos leva um amigo
Como posso entender que quem me rouba quem eu
amo é bom e gosta de mim?
Onde estás mãe
Nesta vida que percorro
Como se fosse uma tarde
E quando escurece
Não sei como quebrar este silêncio
Que há dentro de mim...
Sabes mãe,
Tenho aprendido que há coisas que nunca mais se
repetem!
Sinto que algo em mim se perde continuamente
Mas que tu não tens culpa,
É algo que vem de longe
Talvez já velho como o tempo
De uma mãe antiga que nunca encontrou o filho.
Mas tu mãe
Permanecerás nos traços dos meus pequenos gestos
Na oscilação suave e acrítica dos meus passos
Por detrás da memória de todos os meus afetos.
Estarás no mesmo jeito de eu estender os braços
Ao amor que um dia terei.
Mãe
Quando te encontrar afinal
Já te deixei...
(Àquele menino que estende os olhos e procura,
Procura uma explicação para os pássaros...aqueles que
respondem ao chamamento do inexplicável.)
1999, Cascais
C. A. Afonso
Balada do universo
Eu sou a carne intocada
Corpo saído dos céus
Sou a alma imaculada
Moldada nas mãos de Deus.
Eu sou o anjo que resta,
Um templo sem profanar;
A flor verde da giesta,
Rosa branca do altar.
Eu sou a mão da fortuna,
O último passageiro…
Sopro de areia na duna
Um pouco do mundo inteiro.
Sou a lágrima perdida
Que de rosto não caiu,
Sou a clareira da vida
Chama que a luz nunca viu.
20/05/1982, Lisboa
C. A. Afonso
Escrever
Quero falar
Retirar das palavras o pó
Deixar-me levar
Para onde possa esquecer
Esta forma de estar só
A escrever.
Levar a palavra
De boca em boca
Para que a alma abra
O significado de ser
Onde o corpo sufoca
O acontecer.
Quero falar
Sem nunca escrever.
Escrever é caminhar
Sem nada dizer,
E sem ter vivido
Morrer.
11/02/2019
C. A. Afonso
A tua ilha na praia
Deixa que os teus olhos
Se estendam livremente
De encontro ao mar
Abre os teus braços na areia escaldante.
Deixa as ondas de azul levar-te a mente
Para além das fronteiras
Do sonho da lua-cheia.
Depois regressa.
Regressa ao infinito espaço
Que rodeia o teu mundo
Traz o sonho nos braços
E não tenhas receio de acordar de repente
E encontrar na praia
Um mar de sargaços!
Se achares que é demais
Esse estar assim feliz
E em vez de sonho tu sintas que é um tormento!
Recorda-te que da vida tu és
Apenas aprendiz,
O que procuras é transformar em amor
O pensamento.
1985, Lisboa
C. A. Afonso