Ser poeta
Ser poeta é maldição
É ter nascido sem ‘sperança,
É, dentro do coração,
Nunca ter sido criança...
É nunca existir agora
Partilhar de um outro olhar
É partir sem ir embora
Chegar sem nunca chegar.
É não querer explicação
Para tudo o que se sente
Colocar o coração
No lugar frio da mente.
Ser poeta é um destino
Que não leva a nenhum lado
Ser homem sem ser menino
Sem futuro nem passado.
19/01/2019
C. A. Afonso
Não ter pressa
Nunca ter pressa.
Ter pressa é perder-se do tempo,
Cair por dentro do instante, em movimento,
Passar para a frente do agora
E esquecer-se da aurora.
Ter pressa é sair a correr pela vida
Sem passar na porta de casa,
É não arder intensamente
Quando se é brasa.
Ter pressa é fugir da jornada
Não parar para escutar o que se é,
Seguir sem nunca mudar de estrada
E perder a fé.
17/01/2020
C. A. Afonso
Portugal
Este Portugal
É um país desigual.
A única verdade que toda a gente aceita
É que é tudo igual à esquerda e à direita.
Ser político é aceder às monarquias
É ter emprego e benefícios sem corte
Viver à grande, ser diferente todos os dias
Dividir o povo, esmagar quem nascer forte.
É tudo verde ou vermelho, tão singelo,
Dão-se vivas à diferença sem ter look
Todos somos um pouco de Marcelo
A fazer da presidência um facebook.
Vivemos na ilusão, tudo é simbólico
Há castelos e pontes a ruir
Em cada português um alcoólico
Um dia deixaremos de existir.
11/02/2019
C. A. Afonso
A invenção da noite
De onde vieste ó noite
Apareces para que eu durma
Revelas-te para que eu sonhe
Quem te fez assim quieta ó noite?
Tranquila e serena por detrás do silêncio da tarde.
Ficas o dia empoleirada por sobre as árvores
A olhar o horizonte
À espera que a penumbra te desperte
E quando o sol te beija a tua cauda derrama-se na boca
do vento
E sinto um sopro em mim
Um sopro que desperta e adormece
Noite que velas o meu sono
Ó noite, cujo silêncio é a orla da vida
Noite que me encontra
E me abraça
Com olhos de despedida.
Ó noite que apagas o dia
E com ele o tempo vivido
A terra roda velozmente
Viaja sem ter partido.
14/03/2018
C. A. Afonso
Metáfora para um amor ausente
Na clandestina vaga
da praia calada e só
Onde os teus olhos arrefeceram a tarde
por sobre um sol descuidado e abrasador,
Ali permaneces
de memória estagnada,
Com a areia moldada ao teu corpo
Silhueta que deixou desfigurada,
Ali
Onde as gaivotas murmuram na sua linguagem
que os teus olhos se soltaram,
E o nosso amor ficou aprisionado e silente.
A aragem nos seus sussurros é meiga
Nem se sente.
13/08/2019
C. A. Afonso
À espera
Estamos à espera
Da noite que chega
E depois acaba,
À espera do dia
Dia que aqui estava,
Este e outro mais
Sombra de desgraça.
À espera, quem sabe
De mais alegria.
Estamos à espera
De outra companhia.
Da noite, do dia
A hora acordada
Hora que não passa
Na tarde sombria
À espera de nada.
21/03/2020
C. A. Afonso
Basta!
Tem de haver um momento em que dizer basta é mesmo
basta.
Um momento em que tudo cessa no mais quieto instante
porque tu queres.
Como um botão que desliga o tempo
e interrompe o devir.
E assim ficar suspenso num astro ou estrela, sem pensamentos
ou memórias.
Sem ruído ao fundo
apenas aragem na carícia da pele,
Existir em fotografia captada nesse instante
e depois,
quando apetecer viver
encontrar o mundo mais adiante.
19/09/2019
C. A. Afonso
Tudo o que trago
Tudo o que trago é um barco
Na corrente das palavras
Corta a folha do rio
Nas horas vagas.
A minha vida é navegar
Por entre a paisagem,
O destino não é o mar,
É a viagem.
2017
C. A. Afonso
Urgência
É urgente o dia
Urgente a palavra
A gaivota que transcreve o silêncio;
É urgente amanhecer
Cada janela é urgente,
É urgente viver.
É urgente o amor
Urgente o olhar
Os lábios que dizem o instante;
É urgente ser
Mais do que si próprio,
É urgente morrer.
É urgente a poesia
Urgente a paixão
Um mundo que gira no olhar;
A saudade é urgente
Um pedaço de ilusão,
É urgente sonhar.
17/04/2018
C. A. Afonso
Neófito, quem és?
Não sei como chegaste até mim!
Vieste suavemente
Descer ao centro da terra
Onde ficaste encerrado.
Ali despiste a vida e renasceste,
Ali cada ideia em ti morreu
Como os teus preconceitos,
Um novo tu se forjou na terra de breu.
Permaneceste longo tempo calado
À espera que a palavra te encontrasse.
Para que o teu novo eu,
Despido de todos os metais,
Se revelasse com audácia.
E agora és matéria de um novo universo
Tudo o que és se revelou à sombra da acácia.
Neófito, doaste o teu coração
Para construir um templo de alegria,
O teu caminho, trilhado de imperfeição,
Molda as cordas do templo de Salomão,
Talhas a pedra da meia-noite ao meio dia.
30.12.2017
C. A. Afonso