É urgente amanhecer
É urgente o dia
Urgente a palavra
A gaivota que transcreve o silêncio;
É urgente amanhecer
Cada palavra é urgente,
É urgente viver.
É urgente o amor
Urgente o olhar
Os lábios que dizem o instante;
É urgente ser
Mais do que si próprio,
É urgente morrer.
É urgente a poesia
Urgente a paixão
Um mundo que gira no olhar;
A saudade é urgente
Um pedaço de ilusão,
É urgente sonhar.
17.04.2018
C. A. Afonso
Horas esculturas
Aqui estou,
A esculpir a tarde com os olhos doridos
Rasos de imagens que segredam memórias,
Imagens que não querem desprender-se do tempo,
Agarradas a cada gesto de pensar
Como se a qualquer momento
Nascessem para me levar.
Aqui estou,
Colado aos dias com vontade alheia
A não ouvir o que sinto, não pensar o que sou,
A força do meu braço
É como a chama da vela que serpenteia,
Há um mar de sargaço
A insistir na orla da praia sobre a maré cheia.
Aqui estou,
Onde não há mais nada do que haver aqui
Tudo o que faça é real do que é
Irreal do que eu sou,
O mais que me ficou
Permanece onde senti,
Por detrás do horizonte dos homens sem fé.
14/03/2018
C. A. Afonso
Dias manhãs
e agora,
por onde desaba a palavra
de entre o odor putrefeito?
milhares de olhos tecidos de cultura
e leviatã intocável
hirto por dentro de cada verso do corpo.
no adn persistem as
suas garras sem memória nem destino
tudo é poeira no ciclo da água
vento, lama e fraga.
Tanta alegria imerecida
quanta tristeza de ser
a morte que nasce em ti antes da vida
a esquecer.
azuis os olhos que trazem o céu
tu já não estás aqui
nem eu.
14/03/2018
C. A. Afonso
A invenção da noite
De onde vieste ó noite
Apareces para que eu durma
Revelas-te para que eu sonhe
Quem te fez assim quieta ó noite?
Tranquila e serena por detrás do silêncio da tarde.
Ficas o dia empoleirada por sobre as árvores
A olhar o horizonte
À espera que a penumbra te desperte
E quando o sol te beija a tua cauda derrama-se na boca
do vento
E sinto um sopro em mim
Um sopro que desperta e adormece
Noite que velas o meu sono
Ó noite, cujo silêncio é a orla da vida
Noite que me encontra
E me abraça
Com olhos de despedida.
Ó noite que apagas o dia
E com ele o tempo vivido
A terra roda velozmente
Viaja sem ter partido.
14/03/2018
C. A. Afonso
Ficar é morrer
Nunca desistas
Acima de tudo, ama-te.
Quando pensares que perdeste,
Que perdeste alguém que muito amavas
Por quem julgavas poder dar a vida,
E que, por qualquer razão, te traiu,
Lembra-te: Tens-te a ti.
Tu és o centro de tudo
E tudo existe em ti.
És a única pessoa onde existes.
Sem ti não haveria amor.
Podes escolher quem tu quiseres
Para o representar.
Porque esse amor emana de ti. É teu.
Quando alguém entra na tua vida
É para te fazer descobrir
O que ainda não te fora revelado.
Aproveita essa descoberta e se não valer a pena
Não te demores.
Se ficares vais perder-te de ti.
E só te podes perder de ti se realmente valer a pena.
Tu és a casa daquilo que sentes
A estrada do que vives.
Ninguém pode sentir nem viver por ti.
Ficar é morrer.
E morrer só quando valer a pena viver.
01/01/2018
C. A. Afonso
Tudo o que trago
Tudo o que trago é um barco
Na corrente das palavras
Corta a folha do rio
Nas horas vagas.
A minha vida é navegar
Por entre a paisagem,
O destino não é o mar,
É a viagem.
2017
C. A. Afonso
Às vezes fico a pensar
As vezes fico a pensar
Se viver é o que se sente
E se tudo tem lugar
No canto da nossa mente?
E assim vivo a emoção
À luz de tudo o que vi
Coloco no coração
O que pensei e senti.
E neste ciclo a existir
Em que se morre sozinho,
Tenho o pensar e o sentir
A desenhar-me o caminho.
18/09/2020
C. A. Afonso
À espera
Estamos à espera
Da noite que chega
E depois acaba,
À espera do dia
Dia que aqui estava,
Este e outro mais
Sombra de desgraça.
À espera, quem sabe
De mais alegria.
Estamos à espera
De outra companhia.
Da noite, do dia
A hora acordada
Hora que não passa
Na tarde sombria
À espera de nada.
21/03/2020
C. A. Afonso
Não ter pressa
Nunca ter pressa.
Ter pressa é perder-se do tempo,
Cair por dentro do instante, em movimento,
Passar para a frente do agora
E esquecer-se da aurora.
Ter pressa é sair a correr pela vida
Sem passar na porta de casa,
É não arder intensamente
Quando se é brasa.
Ter pressa é fugir da jornada
Não parar para escutar o que se é,
Seguir sem nunca mudar de estrada
E perder a fé.
17/01/2020
C. A. Afonso
Metáfora para um amor ausente
Na clandestina vaga
da praia calada e só
Onde os teus olhos arrefeceram a tarde
por sobre um sol descuidado e abrasador,
Ali permaneces
de memória estagnada,
Com a areia moldada ao teu corpo
Silhueta que deixou desfigurada,
Ali
Onde as gaivotas murmuram na sua linguagem
que os teus olhos se soltaram,
E o nosso amor ficou aprisionado e silente.
A aragem nos seus sussurros é meiga
Nem se sente.
13/08/2019
C. A. Afonso