NO TERCEIRO ATO
A cortina fechou, a plateia dormiu, a trilha sonora emudeceu.
O palhaço ficou sério, com rosto triste e ali calado, quieto e sozinho, ele chorou sem ter com quem dividir seu sentimento de perda da alegria que se esvaio do seu âmago.
Ninguém viu suas lágrimas e nem as luzes notaram que as cortinas desceram apagando os sorrisos.
No silêncio ESQUECIDO e no negror ali exposto, somente o palhaço consegue enxergar a cuchia, o picadeiro, as bancadas agora tão sem vida pois o riso também não existe mais.
Ele enxuga suas lágrimas, inclina a cabeça de encontro ao seu peito, numa posição de meditação de monge budista e com os olhos do Espírito começa ver claridade e imagens se mexendo, as luzes ofuscante, a cortina aberta, ouve sons de aplausos, a essência da música começa despejar ali as notas musicais que dançam bailando num pentagrama orquestrado de sonhos.
Casa cheia, plateia animada, cores, luzes, sons, risos.
O palhaço volta sonhar, levita e deixa o seu corpo na mesma posição e sai voando percorrendo os espaços daquele espetáculo grandioso visitando os camarins, sendo visto e aplaudido no Primeiro, segundo e terceiro atos.
"O palhaço só tem utilidade, quando faz a sua plateia sorrir"
Que bom que ele pode proporcionar risos e ver todos felizes.
Sua alma flutuante está regozijante, leve livre, sentindo-se útil outra vez.
Ao passar por todos os lugares, pela portaria, bilheteria,adentra de novo e sente ser puxado para onde está o seu corpo
Ele insiste em continuar flutuando, mas há um freio que lhe prende e lentamente vai diminuindo o seu vôo e ele se sente atraído para o chão, para que ocupasse de novo o seu corpo que ali estava em concentrada ação espiritual.
Volta a encarnar, adentra ao corpo e de súbito abre os seus olhos agora lacrimejados colhido por imensa tristeza e percebe que as luzes se apagam, que a cortina fechou, a plateia dormiu, a trilha sonora emudeceu, o palhaço ficou sério, com seu rosto triste, e ali calado, sem que houvesse ninguém para conforta-lo, morreu tão triste, calado e sozinho.
Carlos Silva.
23 de junho de 2020
EU VI DEUS.
*EU VI DEUS*
(OU UM DIA PARA NAO SER ESQUECIDO)
Sim eu vi Deus. Eu vi Deus naquela manhã de sábado no seu santo dia santo, logo pela manhã com uma névoa fria soprada no pé de Serra, lá na Serra do Aporá.
Ao chegar no topo da serra, respirei e os pulmões deram graças se enchendo de ar puro. Olhei ao redor contemplando a beleza daquele dia.
Iria fazer belas fotos num documentário sobre a exploração turística no pé da Serra, que há serviria para expor minha ideia para a implantação de um sistema turístico naquele local.
Estacionei o carro ao lado das torres de transmissão me preparei, troquei de camisa e segui em direção ao local que dá uma vista maravilhosa para o que eu me propusera fazer.
Estava só, feliz e admirando da altura da Serra, um pedaço da minha Itamira, meu berço de infancia onde fui criado.
Alguns urubus me serviam de guardiões daquele pedaço de natureza tao bela, e ao decolar seus voos, faziam um barulho que até assustava.
Quando estamos sozinhos, qualquer barulho assusta.
Fui seguindo, assobiando já imaginando os melhores ângulos para captação das imagens.
Tinha chovido na noite anterior mas naquele momento o tempo estava favorável para aquela incursão solitária.
Já tinha adentrado algumas dezenas de metros mata a dentro, rumo ao local escolhido.
Envolto em meus devaneios com um riso estampado por estar ali, e foi assim que numa fração de segundos,
Derrepente e inesperadamente eu escorreguei, e fui lancado ao chão caindo por cima da perna que dobrara para tras, e meu corpo caiu por sobre ela impactando com força no meu pé direito.
Senti um forte estalo, gemi e gritei de dor, gritei alto de tanta dor sentida, tão alto que chegou ecoar na serra.
Eu só conseguia dizer: MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... QUE DOR.
Balbuciei repetidas vezes em total desespero tais palavras, como se buscando nesse gesto, aliviar a dor tão forte causada pela queda
Tentei levantar mas ao tentar colocar o pe no chão, vi e senti a gravidade do meu problema.
Constatei que o pé tinha quebrado,
Aquele estalo denunciava a minha triste e dolorosa suspeita. EU ESTAVA COM O PE DIREITO QUEBRADO.
O desespero aumentou, a adrenalina subiu tanto que a boca resssecou e o pavor toma conta de mim. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... Por vezes tantas eu repetia exteriorizando o meu desespero ao mesmo tempo, exercitando a minha fé em Deus como na passagem bíblica que Jacó entra em luta com o anjo.
O que fazer? Olhei ao redor, ergui a cabeça para o caminho que teria que percorrer de volta. Comecei me arrastar pelo chão orvalhando e sujando as roupas, temendo bichos pessonhentos ou coisa assim.
Lento doloroso e muito comprido era o caminho de volta. Ergui o corpo comecei engatinhar amparando no chinelo, o joelho direito para evitar o atrito das pedras com a pele.
Cada avanço, uma conquista e uma dor. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS...E AGORA?
Pensava na família, na situação ali, voltei assustar-me com os urubus. A boca e a garganta seca, temia desmaiar pela dor, pela aflição e por aquela sensação de secura.
Em dado momento, após já percorrer uma certa distância, deitado sobre uma pedra, peguei o celular. Tentei ligar a cobrar pro meu irmao e não consegui. Passei mensagem de Zap, mas eu não tinha crédito, disquei 190 e nada, tentei o 192 sem sucesso.
Psicologicamente eu estava apavorado.
Fiz prece, pedi a Deus que me livrasse daquele tormento, mas em momento algum eu maldisse o ocorrido.
Voltei me concentrar que eu devia continuar engatinhando, e sempre falando com Deus, eu avançava pois sabia que não poderia ficar ali.
Mais algumas investidas engatinhando, foi quando avistei o carro. Meu corpo ja extenuado começava dar sinais de vencido.
Achei o carro mais lindo do mundo, à minha frente, o mais valioso de toda a terra, só bastava mais alguns esforços e eu chegaria.
Nunca me senti tão feliz ao avistar a minha FERRARI SERTANEJA.
Sorri, misturando as minhas lágrimas e dores, com a intensa gratidão ao mantenedor da vida.
Busquei concentrar-me e sabia que o objetivo principal seria chegar até ele, que alheio ao meu padecimento, lá estava estático exibindo sua coloração rubra, que aos meus olhos encantava.
A minha felicidade vibrou, ao tocar a maçaneta. Puxei-a, a porta se abriu, e mais um tremendo esforço seria feito para adentrar ao veículo. As palavras agora mudavam, ao dizer:
MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... MUITO OBRIGADO, EU CONSEGUI.
Para trás, ficara os 80 metros mais longos da minha vida e a minha maior ATÉ AQUI, superação de um sofrimento.
Sentado, olhei o pé e comecei imaginar o tamanho do estrago. A dor continuava insuportável.
E agora, o que devo fazer?
O medo agora era outro, se teria como consegui descer a Serra, sem provocar mais algum incidente!
Liguei o carro, coloquei a primeira marcha, resolvido que iria sair dali.
Fui descendo lentamente suportando aos solavancos devido os sulcos da ladeira, mas encostando ao lado do barranco, para evitar o despenhadeiro da direita, temendo numa circunstância qualquer, acelerar ao tentar pisar no freio, se fosse necessário fazê-lo.
Fui descendo suportando a dor, a estrada melhorou um pouco, coloquei a segunda marcha e seguir.
Já próximo da pista, buzinei insistentemente ao lado da casa de um amigo que não me atendeu e resolvi que iria tentar chegar no posto médico da cidade.
Lá cheguei, fui atendido, prestaram-me os primeiros socorros informando que eu iria ser conduzido para o Hospital Dantas Bião da cidade de Alagoinhas.
O problema agora era esperar um carro disponível.
Como não houve fratura exposta, eu não poderia ser transportado na ambulância ou na Samur. Aconselharam-me dizer que eu era residente na cidade de Alagoinhas e que eu não tinha passado por aquele Posto de atendimento de Itamira se não, eles iriam fazer regulação e ninguém poderia garantir quando eu seria atendido.Isso afirmou o Dr.Donizete Filho junto ao técnico de enfermagem Lucas daquela unidade.
O carro demorou, o sangue foi esfriando o nervosismo voltava junto com as dores. Comecei utilizar meus conhecimentos e após a intervenção de 2 pessoas RITA E KARINE,(que inclusive trouxe almoço para mim) tudo foi providenciado junto ao setor de transporte da prefeitura.
Tudo certo, o carro chegou e lá fomos nós. Ao chegar no setor de emergência, o motorista se adiantou na recepção já dizendo de onde vinhamos.
O rapaz me atendeu e perguntou: O Sr. Está vindo de Aporá não é ?
Respondi que sim, mas que eu tinha comigo um endereço como residente na cidade e que ele me ajudasse ser atendido naquela unidade. Foi aí que ele me sossegou dizendo: Fique tranquilo, ao ver a situação que eu me encontrava.
Uma enfermeira perguntou como eu tinha chegado e eu lhe disse. Ela então retrucou indagando: Então lhe abandonaram aqui?
Não! O motorista ainda está aí, eu.lhe respondi.
Fiquei ali aguardando, resolvi fazer a ficha e quando perguntado, disse a recepcionista que morava em Alagoinhas e lhe dei o endereço.
Pensei: Como é que pode, um cidadão contribuinte brasileiro, ter que mentir para receber atendimento pelo melhor e maior plano de saúde que ja fora criado no Brasil, que é o SUS?
Ficha feita, minha sobrinha chega, atendimento, raio x, internação no sábado, cirurgia na segunda, alta na terça e hoje cá estou, agradecido a Deus por Tê-lo ao meu lado, desde as 9:40 da manhã daquele sábado (hora do acidente) até aqueles momentos que hoje descrevo nessa narrativa.
Carlos Silva.
Ser humano, OU SER UM MANO?
Bom dia e boa semana a todos.Tava eu aqui pensando em como fazer meus primeiros escritos da semana, sem que viesse ferir o ego de alguém que poderia não aceitar a minha escrita. Todavia, atrevi-me fazê-lo (com zelo e respeito) essas palavras reflexivas.
SER HUMANO, OU SER UM MANO?
Erramos tanto em nossa vida, e a consequência desses erros estará relacionada as escolhas, ao comportamento, ao trato com as pessoas, ou principalmente, ao que consumimos no dia a dia.
De tudo isso, e ao longo das nossas transgressoes de condutas, virá a doença, o sofrimento a angústia e a inevitável partida
Mas antes de ir, a gente a ouve alguém, (ou até mesmo nossa própria voz) dizer ou pronunciar, ou como uma fala de clemência ao dizer: Deus está no comando, Deus irá abençoar, Deus irá curar.
Nessas horas, até quem não crê em Deus PERDE UM POUCO DO SEU TAO PRECIOSO TEMPO PARA AFIRMAR: Deus ajude que tudo fique bem.
Erramos tanto na nossa caminhada, e sempre após os incontáveis erros, entregamos as nossas falhas para "Deus Resolver".
Sim; entregue nas mãos de Deus.
Não percebemos que por tantas vezes, as mãos dEle carrega tantos erros dos outros que por vezes até parece que Ele não ajuda outros mais necessitados por estar com as suas mãos carregadas demais, pois em nossas negligências, depositamos todos os nossos erros nas suas mãos e só O procuramos para pedir do que para lhe agradecer as bênçãos que sempre recebemos.
Lembre-se sempre de que Deus cuida de você, mas você primeiro tem que se cuidar, pois não é só você que Deus tem para olhar e proteger. Outros, que se cuidaram muito mais que você, podem de fato está necessitando do olhar imediato do Pai.
Reflita e se veja, onde você nunca teve tempo de se olhar.
Carlos Silva.
08 de Junho de 2020.
VIDA EFEMERA
Estou cansando. Eu já sinto o peso desse cansaço que me alcançou silenciosamente, e nessa lentidão, sinto que os passos diminuem a cadência ritmica, não há mais pressa para o alongar da passada. O rosto ficou e está mais serio, como se o riso tivesse escapado pelos cantos da boca sem saber mais como voltar ao seu lugar de origem.
Hoje, eu senti um leve tremor nas mãos e foram ininterruptos. Disfarcei para que não deixasse escapar aos olhos dos outros, a percepção desse acontecer que para mim foi muito preocupante e não obstante constrangedor.
Fui ao banheiro, (obedecendo os cuidados principais do caminhar limitando a rapidez dosbpassos) levantei a tampa do vaso e notei que o que eu ia fazer ali, de pé mirando o sanitário, sem perceber eu já havia feito e nem se quer notara.
Olhei-me demoradamente no espelho buscando na imagem refletida, alguém que me ouvisse sem contestação ou excesso de zelo.
Chorei. Sim eu chorei.
Naquele solitário momento, eu precisava fazê-lo como se fosse resolver todos os meus problemas.
Eu nunca tinha me visto chorar tanto, desde o falecimento da minha mãe, e isso se dera ha mais de 50 anos atrás quando eu me coloquei ao lado daquele horrível caixão, sem que ninguém conseguisse tirar-me dali. Eu tinha meus 12 anos quando conheci à morte e dela nao gostei pois isso marcou muito a minha vida com a perda de quem eu tanto amava e dela tanto dependia.
Agora eu estava ali vivenciando a realidade de que estava ficando velho, reconhecendo que era inevitável esse doloroso processo que a partir daquele instante, iria acelerar a sua inóspita presença em mim.
Olhei meus lacrimejados olhos, como se buscasse enxergar a minha alma tentando encontrar o meu alento nem que fosse transitório mas que não condenasse o meu pensar e nem me torturasse tanto. Era assim, era exatamente assim que eu estava me sentindo, um torturado pela vida, que agora viera para cobrar-me o peso do existir ao longo do meu viver, (ao meu ver tão efêmero) ali à questionar-me.
Vovô você taí?
Era a doce voz de Ricardo, o meu quinto netinho a procurar por mim.
Ao ouvir a sua voz, o choro estancou, lavei o rosto e disse:Já vou.
Abro a porta do banheiro ele me olha e dispara: Vovô, voce tava chorando?
Não! Eu estava apenas lavando o rosto.
Nele, e nos outros netos, busco lembrar da minha infância que ficou há quase 70 anos para trás, mas que hoje me trouxera de volta aos áureos tempos que infelizmente sei, jamais retornarão.
De fato, eu estou ficando velho sim, (mesmo que antes não tivera a coragem de encarar essa realidade) mas não vou alarmar isso para que meu tempo de vida não queira apressar os meus passos já cansados.Nao Senhor!
FIM
Carlos Silva.
Ecos brilhantes
Cavalguei nas estrelas dos meus sonhos, brinquei com elas como se fossem pirilampos, pois piscavam como tais, emitindo filetes de luzes azuis.
Fiz das nuvens o meu algodão doce de um sabor sublime e aproveitei para sentir cada momento o gosto proporcionado.
Elas, as nuvens, dissolviam por entre os meus dedos, deslizando em maciez e se perdendo noutros espaços, arrastadas pelo vento ciumeiro que soprou forte para distancia-las de mim.
Uma forte luz alva e mais brilhante, rasgou o céu como se fosse uma navalha no fino véu, separando com seu facho de intensa luminosidade, o céu em duas partes.
Seguio em direção ao infinito e escreveu com forte e majestoso brilho o seu nome no rasgar daquele ceu: Dalva.
Sim, a estrela Dalva viera se mostrar e eu ainda tive num lapso de milimétrico segundos, de fazer um pedido para que um desejo se realizasse.
Olhei para o.lado, senti um foco de luz maior, prateado onde se podia ouvir no tilintar de algumas cordas de violões e violas e foi aí que percebi que a estrela trouxe pra mim a realização do meu desejo.
Eu pedi para ver de muito perto a lua dos seresteiros, enamorados, apaixonados e poeticos seres que para ela nas noites sempre cantavam.
Além da lua, um coro angelical com harpas, liras, citaras e adulfes, deixavam melódicos tons que fizera-me sonhar numa flutuação de leveza e paz.
Pensei desejoso: Se for um sonho, que eu não acorde tão já.
De súbito, na sonoridade distante de uma conhecida voz, ouço ecoar.o.meu.nome num gritar protetor:
Acorda Joãozinho! tá pensando que isso aqui é o paraíso cheio de estrelas brilhantes?
Sorri feliz, e gritei exteriorizando minha estampada e tão grata felicidade: JA vou minha doce e tão amada mamãe.
Carlos Silva.