Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :) Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros: https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber
Roberto, Fernando, Edson, Eduardo, são tantos nomes que minha agenda não guardou Nessa imensidão desse cômodo apertado onde ecoa o vazio, cheio de pessoas risonhas, espero você, Giovane, ou talvez seja Maurício Então apague a luz e venha me sentir, me tocar, me cheirar, me beijar, só não ligue, Daniel, se eu, por algum motivo, lhe chamar de Adriano, é que são meros nomes sem importância alguma para mero desejo vulgar
ANO: 1998
283
VALE DO ESGOTO
O vento sopra no portão Até que ponto o fim está perto? Longe de algum parco lugar Onde filosofias de revistas Jorram nas mentes doentias E essa sombra colossal? E Merlin, vem buscar-me? As pessoas chegam para assombrar Todo o temor enternecido De alguma coisa que um dia foi Dói, a vida dói E a cada náusea está partindo O princípio de um longo fim Estou amando a morte...
ANO: 1997
108
JOÃO NINGUÉM
Ele nasceu do nada Cresceu do nada Viveu do nada Só suas ilusões o sustentava
Ele passava fome Não tinha nome E sempre come Da mão de um pobre homem
Mas um dia cansado de tudo De mal com o mundo Foi lutar Pra se sustentar E não acabar Com fome de não poder falar
No primeiro ano foi aquele pano De só trabalhar Não ter onde morar E se matar Pra ser alguém Ia de trem Trabalhar sem E não tem Ninguém
No segundo ano Não teve nem pano Não tinha trem Vivia sem Trabalhar também Era o "João Ninguém"
Ele nasceu do nada Cresceu do nada Viveu do nada Nem suas ilusões o sustentava
Não tinha a quem Pedir amém Diziam estar sem Pois ele era o "João Ninguém"
ANO: 1993
105
UM CONTO DA VIDA
Amaram-se a noite toda. Então, ao amanhecer, ela partiu. "Espere, não saia sem pegar seu dinheiro"- disse-lhe isso a fim de humilhá-la ainda mais. Já não bastava terminar uma história de anos de forma tão rude! - "Pegue seu dinheiro e sinta-se paga por todos esses encontros." Ela bateu a porta e saiu, chorando. Não entendia como um ser humano era tão baixo e tão malvado. Estava magoada. Sentia-se um lixo, uma infeliz. Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
"Realmente é positivo. Acho que devo os parabéns! A senhora vai ser mãe." "Como disse?" foi a única frase que conseguiu pronunciar. A angústia e desespero brotavam por seus poros. Como suportar tudo isso? Era sozinha no mundo e a pessoa mais próxima era o pai do filho em sua barriga. Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
O telefone tocou de madrugada e uma voz rouca de mulher atendeu. Quem poderia ser? Outra amante? Agora o desprezava mais e mais e sentia sua última gota de auto-estima evaporar-se no ar nebuloso em que se encontrava. Foram quase dez anos de desespero, ameaça, ilusão e sofrimento. Dez anos construídos sobre uma base de sonhos que escorregaram para o nada! Sentou-se num canto qualquer e ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
"Grávida?! Como? Não, não pode ser! Sinto, mas tenho minha vida para cuidar" Outra vez humilhada, massacrada. Sua pobreza a sufocava e a riqueza dele a esmagava profundamente, perfurando o resto de sobriedade guardada. Tentou conter o choro e sufocar o que restava de sentimentos. Foi para casa e encostou-se num canto qualquer, ficando ali, parada, quieta, calada, pensando...
O dinheiro estava acabando. Trabalhava como louca e cuidava da cria que se perdia no meio da garotada do bairro. O menino ia fazer 9 anos. Por mais que tentasse negar, seu filho carregava a forte semelhança física do pai. Naquele ano queria dar-lhe um presente. Um luxo no meio de tanta dificuldade! Contou as economias e conseguiu comprar um jogo de canetas e lápis coloridos. Estava entrando na toca em que viviam, quando viu, na TV, o novo personagem da semana: Sr. Maldade e Família! Ele, impecavelmente apresentado, estava com a esposa jovem e impecavelmente arrumada, que segurava nas mãos os dois filhinhos impecavelmente fofinhos e gorduchinhos. A Família Impecável estava em um programa dando entrevistas sobre banalidades de um mundo impecavelmente perfeito. Em choque, ela olhou-se no espelho. Seus cabelos eram opacos e despontados, a pele descuidada e enrugada. A magreza salientava-se e a aparência era de muito mais idade do que realmente tinha. Olhou para o filho e viu um menino magro, lombriguento, com trapos velhos e rasgados. Um cachorrinho sarnento com medo do mundo. Seus olhos se encheram de lágrimas. Então, foi sentar-se, ficando ali, parada, quieta, calada, cansada, pensando...
Ele estava no escritório aquele dia. Ficou lá até tarde da noite. As luzes estavam apagadas e a sala era iluminada apenas por uma lâmpada fraca. Uma mulher bem mais jovem do que sua jovem esposa, vestia-se sensualmente, enquanto ele, ainda nú, bebia um copo de uisque. Ela ficou ali, do lado de fora, esperando. Viu quando beijos de despedida rolaram e quando a loura saíu pelos fundos. Ele, só, recostou-se na poltrona de couro olhando para o nada. Alguém tocou a campanhia. Ele foi atender. Era ela. "Como está feia e abatida! Sorte que a deixei." - foram os pensamentos dele. Ela o empurrou e entrou no escritório. Mostrou-lhe a foto do menino e aguardou a reação. Ele olhou espantado: "Que bichinho feio!"- pensou. Mas tinha seu sorriso, não podia negar. Então, o inesperado aconteceu: ele assumiu para si mesmo que tinha mais um filho. Ambos em silêncio enquanto ela remexia em sua bolsa. Com um olhar vingativo e com satisfação, atirou todas as balas daquele velho revólver em cima do co-autor do seu sofrimento. Ele caiu ali, segurando firmemente a foto do filho que, a partir desse dia, foi morar com sua esposa que agora é viúva. Ela, por sua vez, apenas sentou-se num canto qualquer, ficando lá, parada, quieta, calada, pensando... (enquanto danças de luzes vermelhas e sirenes angelicais tocavam a música da insanidade).
ANO: 2000
929
JOGO
A luz do sol atravessa a janela até quando haverá luz? Extraterrestres por toda a Terra muitas mortes, doenças, soldados, estamos cercados por todos os lados há um coração chorando em algum lugar, há uma dor devorando em algum lugar, há multidões gritando em algum lugar, há uma vida acabando em algumm lugar, há ódio brotando em algum lugar Violência em quadrinhos, sorvete de sangue, falsos anjinhos A humanidade é um mangue presidente, ministros, prefeitos perfeitos soldados, coronéis e um homem eleito amantes e amados destinos mudados secas, enchentes, frio e calor tochas que ardem a todo vapor dias, conflitos, suor e amor num jogo noturno quem ganha é o senhor
ANO: 1993
120
NADA
Qual a fonte de poder? O ouro, comando, prata? Por que ninguém quer saber Quantas pessoas a fome mata?
Somos objetos manipulados Por animais de gravata Todos precisam ser mandados Pra no mundo ter uma vaga
Nos subúrbios da consciência Existe uma dor em evolução É preciso ter paciência Pra rejeitar essa tentação
Quais as virtudes da humanidade? Quais os caminhos da sociedade? O mundo é medíocre, o homem é vulgar Ninguém sabe Até quando isso vai durar
As indústrias nos transformam em matérias O homens de gravata nos resumem em fala No fundo somos todos iguais No fundo não somos NADA
ANO: 1993
114
LIBIDO
Seu sabor ainda escorre nos meus lábios onde seu mamilo já foi rei no furor da minha boca atormentada de prazer de viver o ápice de querer o seu toque re-toque foi pecado
Ah, porque essa cama é tão imensa para guardar tão nobres sonhos de uma noite inesquecível
ah, porque esse quarto é tão pequeno para guardar tantos segredos de uma soprano adormecida
Seu cheiro ainda está no meu vestido que, tão ligeiro, foi despido por suas mãos enfurecidas, por sua sede de desejo de pecado do querer
ah, porque esse dia é tão estreito para guardar tantas lembranças de uma vida enlouquecida
ah, de tantos toques me peguei num canto escuro sem você numa tensão enternecida
ANO: 2002
117
O PIANO
Todos os dias Eugênia se sentava ao piano e ficava horas tocando, até sentir-se pronta para enfrentar o dia que viria pela frente. Era uma moça muito bonita e atraente, sonhadora e, às vezes, desligada. Amava conhecer e estudar sobre o movimento Romântico do século XIX. Essa época a fascinava. Morava, como quase todos os estudantes, com uma amiga, com quem dividia despesas. Estava no segundo ano de música e se preparava para a difícil vida de artista.
Romeu era um ladrão profissional. Sua cabeça era um emaranhado de planos e movimentos, tal qual um jogo de xadrez. Tinha uma rotina de aventuras e era despreendido de qualquer sentimento romântico. Romantismo era coisa de tolo! - dizia.
Aquela tarde, os planos de Romeu diziam respeito ao pretenso ataque ao condomínio de classe média em que as meninas moravam. Ele entrou pelos portões e, já preparado para confiscar as jóias que, diziam, Eugênia guardava, foi surpreendido por uma linda melodia de Mendelssohn. Sentiu-se tocado, imaculado, apaixonado com toda a alma por aquela canção. Escondido, subiu as escadas e, no andar de cima, sentada ao piano, estava uma jovem de pele morena, cabelos longos e um sorriso ingênuo e encantador. Era, sem dúvida, a visão mais doce que ele já teve. Em silêncio, ficou observando e apreciando a deliciosa melodia dos deuses. Por mais de uma hora Eugênia tocou e, por mais de uma hora Romeu esperou. Não pretendia furtar nada, nem fazer planos sagazes sobre fortunas fáceis. Ele só queria ficar ali, se entregando aos sonhos mais secretos que ela lhe despertara. Então, por fim, deu conta do tempo passado e se retirou, mergulhando numa profunda solidão do anoitecer da cidade grande. Os dias foram passando e Romeu vegetava: não comia, não dormia, não roubava. Ficava entregue aos seus devaneios, imaginando beijos, amores, cores em seus sonhos. Todo final de tarde e início da noite, ele ia para perto da janela ouvir Eugênia tocar. Tudo nela o seduzia. Observava de longe suas dores, suas alegrias, suas dúvidas, seus temores. A conhecia tão bem que sabia exatamente como se sentia só pela forma como dedilhava as teclas. Certa noite, ao chegar, encontrou Eugênia rindo e conversando com outro rapaz. O ciúme corroeu sua alma, e com olhos cheios de lágrimas, Romeu saiu pela lateral. Entretanto, ao olhar uma última vez pela janela, ele presenciou um ataque em que o estranho investia contra a moça. Sem pensar, ele foi até a porta principal e a derrubou. Subiu as escadas com euforia e, instintivamente, agrediu o rapaz. A luta durou alguns minutos. Eugênia se enconlheu em um canto e, enquanto o rival fugia, Romeu a acolheu e a confortou. Ela agradeceu. Ele confessou amor. Ela sorriu e pediu para que ele fosse embora. Desapontado, ele agarrou uma rosa vermelha em cima do piano e saiu para encontrar a sua dor.
-Eugênia, você soube o que acabou de acontecer? - perguntou a amiga que acabava de chegar em casa. -O que houve? -Um moço acabou de morrer atropelado na esquina de casa. A rua está um alvoroço. -Não gosto de falar sobre morte. Por que você me diz isso? -Porque ele morreu chamando seu nome. Então, o desespero a invadiu. Desceu a rua correndo e, ao chegar no local, Romeu estava deitado, segurando fortemente, nas duas mãos, a rosa vermelha que ele lhe roubou.
ANO: 1993
423
LÁGRIMAS DE SANGUE
Era apenas uma vez: um olhar triste e sombrio preso no próprio silêncio, na dor de ser alguém Quando sorria, seu sangue brotava através das lágrimas sufocadas, da luta de conseguir algo em vão E chegar lá era ver a frustração angústia Engula seus sonhos, doce menina! Dormir tranquilo era ver que o mundo se consumia e os nervos ficavam a flor da pele e ela... ...não era ninguém
ANO: 1995
122
SONHOS ERÓTICOS DE PENYSZILDA
Penyszilda, a linda, era uma menina tão sexy, divina Ainda criança, são tristes as lembranças, era contestada constantemente Não tinha batom, vestido ou sapato, futebol era imposto princesa para sapo
Penyszilda, a linda não entendia porque a amiga peitinhos já tinha Queria sangrar o sangue fértil de mulher "não chore, querida, um dia qualquer"
Penyszilda, a linda não podia namorar era vista para orgias era fácil de enganar nenhum príncipe queria levá-la a um altar
Penyszilda, não chore o mundo não vai acabar somos todos humanos, vá para outro lugar! E assim ela fez Milão, Madrid, Barcelona ela era a nova na passarela fazia poses e fama nos momentos mais quentes de alguém na sua cama Por dinheiro, a dor e ela queria, seu segredo, amor
Mas um dia, porém, Penyszilda em saltos de cristal saiu sozinha para a vida e acabou no hospital foi espancada, humilhada, enganada, paralisada, torta, morta, enterrada em sua dor e tudo o que ela queria era apenas uma flor...
Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.
ademir domingos zanotelli
Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.
Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.
Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.