charlesburck

charlesburck

n. 1950 BR BR

Heterônimo de Wilson Costa - Escritor, autor dos livros, O anjo do dia, Olhos ferinos, Compêndio de coisas guardadas, Alma, Oxigênio, Falsas impressões, Causos por acausos, Causos complicados, Ensaios de uma vida toda,

n. 1950-03-18, Salvador

Perfil
13 804 Visualizações

Velhas e novas primaveras

O amor é como a jovem que quer a virgindade eterna
mas que dorme nua
A eternidade exposta, entregue aos argumentos do tempo
Não existe pureza absoluta, nem pecado mortal
As floradas vingam como mato entre as pernas esquecidas das velhas senhoras
O diabo mora na estação ao lado
Precavenho-me e salto antes,
A Moça virgem salta uma estação depois
Deus é parceiro e o diabo aventureiro,
A moça geme a primavera recém-chegada
A canção lamentosa exposta na janela, por onde o amor passou
Das velhas senhoras que o cantam, agoniadas
Quanto poetas saltaram na estação errada
E são vistos a vaguearem pelos vales colhendo flores mortas
Fazendo poemas dizendo do que nunca praticaram
 
 
Charles Burck
 
Ler poema completo

Poemas

7

Frestas

Tem uma flor nascendo na lua cheia, 
Numa fresta da rua, 
Cansada de mim,

Foste tu o escolhido, 
Disse-me o beija flor, 
Mas a flor está com raiva de ti

Eu te amo pelas tuas faltas, inexoravelmente eu te amo 
Pela tua falta de corpo 
Pelas minhas mãos que não sabem o que dizer, 
Pelas tuas pétalas que vacilam, 
Por tudo que me produzes de contraditório e o vazio

Dia e noite, ainda assim, te amo
Porque antes de ti, eu nunca me amei

Charles Burck

922

Eu livro

Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo. 
Vocês já repararam como eu falo do tempo? 
O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias
Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos? 
O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia. 
A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes. 
Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter.
A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.

Charles Burck
41

Os olhos dela

Aos olhos de ver da alma, o mundo é logo ali
Mas eu sempre me perco, 
Ao que me demoro nos olhos dela 

Charles Burck
53

Drama

Escrevia silêncios enorme, noites inexoráveis e nada se resumia,
Os olhos de viagem não se consumiam de todo
Os desafogos dos anjos pintados em vermelho tomavam suas faces
As vertigens áureas, as línguas desaforadas corrompendo as razões
A carne crua, o iluminado apalpando o obscuro
E o trágico nu despido de tudo, fazendo comedia
E onde tudo parecia drama, ele só queria festas

Charles Burck

 

45

Filosofia

A filosofia transpira em nós, e nós achamos que é apenas suor
Sempre precisamos de ar mais puro, mais puro
Caminhamos na obscuridade e não sabemos do nosso lado mais obscuro,
Como caminhar de costas sem vermos o que vem atrás
Aos surtos de exuberâncias vazam-nos os olhos,
Ou entornam-nos o coração até esvaziarem-nos a mente
A anuência nossa ao medo pressupõe que a vida é dos covardes,
Mas à paixão que nos observa precisamos de olhos acordados, sempre.


Charles Burck

 

30

Ladra

De noite os cães ladram e a noite ladra,
E há as ladras nos corações do silêncio
O ramo que se mexe como sombras e os lobos que vigiam todos
O insuspeitado repousar da vida se inquieta
E as respirações ficam suspensas quando a trupe dos mortos geme
Não dou ouvido às palavras mortas, mas me distendo sob a lua
E sopro as feridas metafísicas, e abro as páginas marcadas de dentro dos íntimos papeis guardados para suturar as lesões mais vivas
A meu favor, o que planto sem esperar recompensas dos jardins
Mas busco algum secreto recado dos teus olhos, entre as flores
Só me confundem as estrelas derrotadas, e as rosas mortas que por vezes traduzem os delírios de ódios enterrados no solo,
Tenho saudade do verde de onde cresci
Do gramado tapete de voar ao infinito
Das noites em que eu não me preocupava com nada
Dos esconderijos acima do burburinho
Quando a vida corrente carregava contos nossos escondidos entre a folhagem
Desempenhando as fainas das nossas incertezas de crescer
E quem colherá o suspenso fruto da luz ao avesso
Nos provisórios tempos de embusteiras realidades, donde os sonhos
imitam a luz,


Charles Burck
49

A morte inqueita

A morte nunca se aquieta, no máximo silencia, ou assovia um canto que pensamos ser o vento
Por desembainhar a minha espada me fartei tanto,
E deixe poemas expostos, firmes como caules de ideias, por onde a flor deveria brotar, mas se assenta
E de trincheiras escondida, inventa
Que o homems não ama, luta, mata 
Mais jamais seremos algozes, falo,
Embora tenhamos espadas
 
Charles Burck
58

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.