charlesburck

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n. 1950 BR BR

Heterônimo de Wilson Costa - Escritor, autor dos livros, O anjo do dia, Olhos ferinos, Compêndio de coisas guardadas, Alma, Oxigênio, Falsas impressões, Causos por acausos, Causos complicados, Ensaios de uma vida toda,

n. 1950-03-18, Salvador

Perfil
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Velhas e novas primaveras

O amor é como a jovem que quer a virgindade eterna
mas que dorme nua
A eternidade exposta, entregue aos argumentos do tempo
Não existe pureza absoluta, nem pecado mortal
As floradas vingam como mato entre as pernas esquecidas das velhas senhoras
O diabo mora na estação ao lado
Precavenho-me e salto antes,
A Moça virgem salta uma estação depois
Deus é parceiro e o diabo aventureiro,
A moça geme a primavera recém-chegada
A canção lamentosa exposta na janela, por onde o amor passou
Das velhas senhoras que o cantam, agoniadas
Quanto poetas saltaram na estação errada
E são vistos a vaguearem pelos vales colhendo flores mortas
Fazendo poemas dizendo do que nunca praticaram
 
 
Charles Burck
 
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Poemas

4

Deus

Deus — talvez esteja aqui, na textura da minha língua,
Inerente sem dizer palavras
Talvez espere de mim que eu diga quem somos
Uma alma mexida demais, cingida como as cascas e conchas espalhadas numa praia infinita
Para lá das brisas nômades, das noites insones
Dos amores que não fizemos,
Quem sabe se encolha em meus medos e nos caminhos vazios
Onde as copas frondosas das arvoes gigantes me escondem os céus
Ou nas memorias que eu invoco e não me veem
Em meus dedos feridos de trabalhas nas pedras,
Do tempo que me escreve nas mãos as orações esquecidas
Venha sussurrar ao meu ouvido alguma antiga lembrança de ti e de mim
Alguma sonora melodia onde eu possa vê-lo
Ainda que sejas a imensidão que me engula inteiro, me digira e me vomite como um feto, um verme ou a saliva bendita de um beijo
 

Charles Burck
428

Ferida Limpa

Estar morto sem limpar a ferida seria, de fato, muito pior
O gato olha o pombo, olhos atravessados e estáticos
Há hábitos tão antigos quanto a vida
A religião e a heresia
A fidelidade e a bigamia,
O amor de um, os de dois, os de muitos
As crianças fazem fotos dos casais, as esposas atentas se desviam dos beijos
Em algum tempo os amantes haverão de voltar e se amarem mais vezes
Hoje os pombos comem arroz e os gatos passam fome,
A fome dos ingratos tingindo muros, quintais e igrejas,
As sonoridades de alguns nomes passeiam no parque em dia de sol
Alguns anjos deixam o pombal
Os amimais no cio zombam dos homens
Há muitas mulheres da minha infância nas minhas lembranças
As que cuidaram, as que tinham fome, gulas maiores que a pança,
Outras fomes maiores, as que desciam abaixo do nível dos olhos 
Que por vezes gozaram outras sangraram
Sou arredio a deixar os poemas sem finais
Não há normalidades nos dias de finados
Falo coisas estranhas, mas nada eu estranho
Há dias em que tudo parece que finda,
Mas estes dias são dias comuns
 
 
Charles Burck
101

Destino Certo

Os parasitas artificiais são mais densos do que se pensa
Coabitam a morte e se alimentam das sobras
Mas a cura se reveste de cores quentes,
Do que desenluta o coração
Veste o infinito e me cobre de asas longas do sempre
E se alguém contar essa história depois,
Lembra a esse alguém do que foi além
O destino certo do amor que se reza, é o coração
 
 
Charles Burck
119

Rebanho

Sonhava, faz tantos anos, e escrever e sonhar, sempre a enfrentar a necessidade de profundidade
Hoje, sentia essa admiração desesperada, viver apenas, não era o suficiente
Transitar entre as coisas banais, triviais e o outdoor que esqueceram de mudar
Para ver estrelas, nem sempre se precisa de céus, mas o imaginário se misturava ao carnal existencial,
Alguma coisa a dificultar o caminho, a justificar o ganho de uma vida
A aldeia cobra entrada, uma cicatriz no coração, um ardor bêbado na alma
Um rebanho subindo a montanha
Uma ovelha que escapa e ganha o céu
 
 
Charles Burck
435

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