Labirintos Forjados
Havia um canto para onde eu corria para me proteger do mal,
Onde a vida e as pessoas se esqueciam de mim,
Labirinto forjado na inocência do medo,
As fugas dos vazios do mundo
Às vezes, criava asas, fluido na direção contrária do pouso,
E lá do alto eu via as paredes ocres, e as moradas dos pássaros
De cima, vindas do céu minhas lágrima pareciam chuvas,
Havia nesses momentos um riso solto, a liberdade criando alegrias
E eu era apenas feliz, não sabia de mais nada,
Deus tocava o meu peito menino com um carinho que só Deus tem
Assim eu era dono de mim, filho do mar com os ventos,
Onde os sons tinham bocas e dentes e uma flor no canto dos lábios,
O meu jardim era o espaço, o infinito feito de mim,
Um assovio feito de algum elemento divino chamando o meu nome,
Disseram-me que eu inventei um céu de histórias
Acho que nunca inventei nada, era tudo nascido da vontade de ser
Ainda lembro-me dele até hoje, do menino feliz, me chamando para o seus voos
Olhos Ferinos
Olhos Ferinos
Curvo-me, vergo-me, mas não apodreço,
Meço a umidade dos ventos a quem há muito tempo peleja
Afasto-me dos olhos doces que tentam tantas coisas me dizerem,
Mas o mel de açucena envenena e fecha a garganta da presa,
Curvo-me humildemente devido a ignorância que me permeia,
Tendo aos acenos do saber, que me estendem os braços
Mas esses olhos me acenam também, são feitos de aço banhados em azul
Ou seja, o reflexo do céu no polido metal de armadilhas
A boca que brilha o vermelho batom escondendo as presas aguçam-me os sentidos
Há nos teus olhos a divina presença que condensa o homem incauto,
Revestido de tramas sutis, admirares cáusticos ou de mel deixar a língua surpresa,
Curvo-me ao beijar-te os pés, mas os permeios das ancas falam a língua dos menestréis,
Dos paraísos aos bordeis, de tantas piedosas más intenções a induzirem-me a beber do ventre das águas, das profundezas dos astros, dos infinitos sumidouros dos céus,
A virgem madura serpente, da maçã que come gente, a redemoinhar como vento querendo desviar-me os passos,
Curvo-me ao lamento dos olhos que choram lágrimas de fulgor difuso,
Mas não bebo do liquido que salivas, oferecendo-me os lábios, substância que me oferta os alimentos,
Se bebo, a minha boca morre, as veias secam, e o meu sangue me consumirá feito vinho tinto fervente a cozer-me o cérebro, a alma e a vida que ainda esteja a contar-me os dias,
Curvo-me ao amor, as miragens e aos desertos,
E os teus pés caminham seguindo os meus, atiçam-me as areias aos olhos e a pele que me resta, tosta-as ao sol
Desfiei os músculos e moí os ossos, a carne desfez-se ao contato das tuas,
Padeço de insanos desejos a deflorar-me as vontades,
Curvo-me enfim ao destino do homem perdido, entregue, como um servo penitente e louco,
E tu ris assim de mim, olhos inocentes, tão sem piedade
Pedras no espelho d'água
Atirávamos pedras
para a água sorrir
para o silêncio deixar de existir
Para a luz se dividir em pedaços
Charles Burck
Aspereza
Aspereza
Cegos, somos nós,
Temos tantas histórias bonitas para escrever, mas cadê você?
Por onde escoam os amores não dados?
Devo esquecer?
Pelos ralos da vida, eu vi descer,
Meu coração está na garganta,
Doido para gritar,
Desejar não é querer,
Engana-me a razão, com sua aspereza,
Que caso se justifique,
Eis o que dói,
Dói com certeza,
Talvez, rasgue mais ainda
Esse peito desprovido de defesas,
Essa feia ferida que não cicatriza,
E essa falta de encontro em vão,
Entre o seu e o meu coração,
Doido pra gritar,
Vou ainda lhe beijar,
Ilude-me então, a paixão...
História das águias
Serei uma história em que as águias contarão
Um voo do alto de ver tudo mais amplos,
Quando os dias se revestirem, de ouro e adernos de prata
E os perfumes selarão as dores todas,
E me desenharão o meu peito de flores
E saberei que sonho
E transporei o muro para o outro lado da história que eu nunca contei
E dormirei sem medo
E da tempestade apenas ouvirei a respiração,
E do fogo só precisarei da luz, o calor morando dentro de mim
E fecharei o meu diário com a página do meio guardando amor
E na última página, o teu nome
Charles Burck
Estações de esperas no meio do nada
O outono guardará as novas folhas lilases e as sementes do próximo ano
E os pássaros cantarão adiantados os sons vindouros
Retirando as mordaças dos homens e curando as meninas mutiladas,
E as primaveras estarão sarada
E flores feridas, cicatrizadas
E as tribos do sol brincarão na chuva e darão asilo aos velhos sonhos
E colo às velhas senhoras
E os catadores de silêncios dirão, bem vinda as tuas vozes
E nascerão estrelas onde a noite semeava solidão
E leitos de linhos e sedas, onde os estéreis verões indicavam aos amantes as estações de esperas no meio do nada
Charles Burck
O causo do colar de contas
O causo do colar de contas
Preparei um colar de contas cristalinas, sagradas pedras que valorizam o seio do rio,
Eu vi visagem beberando água no regato mais manso, o coração sente sede, mas nem tudo é água da boa,
Despi fantasmas para ver a alma por dentro, mas o tempo racha o corpo ao meio e o receio dos tropeços torna a estrada pior,
Canto baixinho quando céu avermelha, não quero atrair agouros, mas já fiz coro com anjos e com irerês de causarem arrepios
De fio a pavio prefiro as coisas boas, mas umas molecagens têm o seu tempo de gosto,
Não sou proposto de mulher feia, de mulher barbuda ou com bigodes no meio, depiladas todinhas parecem bocas raspadas de recém-nascidos, chamei a cabocla de pele marrom, já que nos veios dela tudo parece bombom,
Oh! Coisa delicada colar boca na boca, mas mulher amarrada num beijo bom, te suga todo, e cola feito cola de mandioca brava e goma de seringueira.
Fujo de quem se apega e fica cega, Doninha matou Dodô, arrancou o coração e plantou no terreiro, deu um pé de vespeiro desejando vingança, as pragas morderam tanto as xapeca de Doninha que travou a bichibinha,
As urinas, não sabemos por onde saem agora, mas nada entra com certeza. Quem me contou carece de confiança, foi meu Avô Lourenço, homem que não mentia nunca, a não ser se bebia, mas o Vô bebia tanto que eu mal sei se acredito no contado, mas minha avó fez novena para dar freios na mardita cana que ele tomava, mas ele tinha outros tropeços e os santos desistiram de fazer do velho um homem santo.
Assim fico eu calado, só falo do que tenho provas, minha ex queria ficar viúva, mas ela morreu primeiro, falava mal de todos, mas a boca não só destilava venenos, tinha lá sua prosas boas, ardências dá em todos, pimenta malagueta arde, mas só para quem a põe ela na boca.
Do meu livro Causos Complicados
O causo dos jumentinhos
O causo dos jumentinhos
Afê égua, bicho atentado, peste de sete pragas, praga de sete peles, bicho danado, bicho matreiro, por que a flor da vizinha ao lado sempre tem o melhor cheiro?
A égua teve um jumentinho de dois pais diferentes, é jumento demais para tão pouca inteligência, mas o menino ganhou diplomação, saiu doutor e montou no primeiro burro que passou.
Eu não confesso as minhas mazelas a padre nenhum, ponho-nas de molho e as deixo fermentar e virar cerveja. Bebo-as devagar, sem pressa nenhuma, há quem ache que os pecados matam, mas é preciso acreditar antes, que pecado existe, depois se deixar matar por eles, eu os curto como formas saudáveis de aprender com eles, só não aceito que eles preguem peças nos outros.
Chorei, chorei, depois parei, mas antes chorei de novo, os acréscimos de águas são bons para o sertão, ajuízo esses aguaceiros a tornar tudo verde, estou parecendo pé de pitomba, cheinho de flores brancas, as alegrias veem depois de cada chuvarada, já atinei isso pela criançada que brinca nas poças d’água, solta.
De cabeça para baixo viu o mundo rasteiro, mais rasteiro do que é, um pé que vai primeiro não avisa ao outro do caminho, o buraco é mais fundo para quem olha apenas o firmamento, mas pé torto e anjo morto também entram no céu.
Domingas da ferida aberta casou-se com Monsolo, tiveram três filhos homens, dois morreram solteiros, e um casou-se depois de morto, ele trocou o sagrado pelo profano e brindou o fim do mundo em janeiro, mas o mundo tinha acabado em dezembro e o padre não professou o casamento.
Beijo de mulher brava não traz prazer algum, ficamos com medo de perder os beiços, ou que ela nos coma a língua toda, mas nem todos os sapos têm boca grande, mas há as pererecas que nem querem saber, só querem saber dos beijos.
Porém escrevo temente às coisas que digo, se alguma alma malévola descobre-me por dentro, e pode percebe que eu não tenho suficiente inteligência para zombar do coitado do jumento, melhor que eu me cale então e passe a cuidar da burrice que me cabe.
Do mue livro Causos Complicados
O Causo do o do u
O Causo do o do u
Que não sendo buraco seja fenda, porque a introdução do poema precisa referência,
E os meus olhos sentem a carência de sentir de perto, ponto por ponto, vírgula por vírgula,
Que não sendo a tua pele sejam os teus pelos, pois pelo menos o que escrevo carece de penugens, de plumagem de algum apelo que seja do teu corpo nu
Que não sendo rua seja nua, pois eu troco as letras com frequência e a senda sendo a linha há de querer se escrita, mas que se esse(S) for efe (F), pode ser por onde a boca úmida comece, a dar forma às palavras orais, verbalmente ditas, sentidamente proferida, ou intencionalmente confundida, sendo fundida com ungida e benta, sacrilegamente penetrada como uma saída à falta de rima nobre, mas tendo a indecência busca dar algum uso aos confusos pensamentos de quem desorientado pensa que saída é entrada e entra.
Que não sendo jardins seja rosa, de preferência amarelo bem forte, para preencher o poema de ardência e amplidão, e que não sendo folha seja pétala cedida à cadência do poeta e que fingido acredita que ela é flor, ainda que sendo mulher
Faz poesia acreditando que perfume é tinta e pinta a escrita como flor, enquanto com ela faz amor
Do meu livro Causos Complicados
Chegada
Como chegarás aos meus braços, despida de tudo ou vestida só de poemas?