Cianeto

Cianeto

n. 2000 -- --

sinto e escrevo maus ou bons, se tornam o que são, isso que estás ai.

n. 2000-06-20, penedo - al

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Dose dela




Percebi que o copo estava vazio
Suas laterais estavam sujas
Também percebi que ela bebia
Tomava do gole que não possuía essência
Se saciava da falta que o cheio trazia
Mas ela não via
O copo imundo
A água que ali não tinha
E que a sede que tanto sentia
Era saudade dela mesma.
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Poemas

3

As facetas de Plutão




Já se vires de fora para dentro?
se numa hora és amor, porque agora tanta dor?
por um acaso não me odivava a minutos atrás?
vai-te menina, me rouba por inteiro
me deixa louco por não conhecer todas essas suas faces
se gritas comigo, logo, me enche de carinho
me puxa para perto quando me sacode para tão longe
és ventania e calmaria
furacão para meu coração
me enche de paz e de euforia
vai-te menina, me beija e me morde
chore e sorria
brigue por qualquer motivo sem fim
mas fica
não vai embora
me deixa desvendar estas tuas facetas
sou teu por inteiro
então por que ser tantas metades?
não fica muda quando se irritares
fale muito como em qualquer outro tempo
comente algo desnecessário
e faça piadas que só tu as entenda
não perca tempo em paranóias
e vira essa face para outra qualquer
se fique amor para comigo
seja tudo que tu és
Plutão? ou jovem mulher?
me esquenta no fogo que emana de ti
cobre-me com asas de demônio
menina, digas que me amas
e fale-me o mistério que é ser várias de si numa só
mostra-me seu arsenal por dentro
e nunca me atire para fora
pois, só eu, sou o lado que falta em todas essas tuas caras.
320

O talvez



Talvez um grande amor não bastasse pra segurar meus pés no chão
Talvez os olhos de quem me olha sejam rasos demais pra aguentar o rio que se derrama sobre mim
Talvez a boca que me beija pronuncie o que o mundo não tem coragem de dizer
Talvez o que bastasse pra segurar meus pés no chão fosse aquela flor que joguei fora a um ano atrás
Ou aquela lembrança que enterrei sem algum pudor
Talvez o que me prendesse fosse o tempo que não tivesse hora
Talvez eu não fosse o pássaro preso na gaiola, mas fosse a gaiola que prende o pássaro
Talvez um grande amor pudesse reter minhas iniquidades e trancar por fim a maldade que teima por escapulir
Talvez se minha mãe mandasse comprar feijão ao invés de pão, o mundo possuísse cores diferentes agora
Talvez eu fui em um caminho sem rumo
Ou será que fiquei parada em um mesmo lugar?
Talvez eu não saiba discernir o certo do errado
E aquela montanha que cobre minha vista possa ser o que se chama de 'fim do mundo'
Ou será a miopia distorcendo o outro lado da rua?
Talvez o mundo seja plano
E estamos girando infindavelmente em um carrossel
Esperando talvez dias melhores
Talvez a cura do câncer
Ou a amnésia de um coração partido
Talvez sejamos apenas o talvez que completa o fim
A história.
328

Morte de si




Escrevi em minha alma despedaçada rumores de uma vida cobiçada
Vida esta, que não era minha, mas de outro qualquer
Deixei que nada mais habitasse em mim e o vazio transbordava por toda extensão
As dores que seguravam os meus braços bloqueavam-me a costurar os pedaços que haviam se soltado durante o caminho
O corte em meu polegar sangrara na noite passada e só assim percebi que ainda possuía vida
Vida em abundante
E vasto sangue escarlate
Que imaginei por alguns segundos escorrendo até me deixar completamente mórbida
Fria no chão frio
Camuflada na carne que não tinha mais oxigênio
Havia uma alma ali, quase inteira, quase costurada
Com todas más lembranças 'esquecidas'
Que todos os dias eram lembradas
Gravadas naquele mármore
Em vinho fluido
No próprio assassinato
Morte de mim!
No delírio eloquente do mais ápice êxtase da ansiedade.
307

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