Versos em Consolo
Trazia os dedos
em consolo,
usando os versos
como gatilho.
Ardia a chama
acesa ao forno
com o compasso
de um andarilho.
Foi respirando
suavemente,
acelerando
a cada trilho.
O trem passando
ardentemente
e sufocando
em espartilho.
Foi dedilhando
literalmente
até chegar
no empecilho...
E ofegou
profundamente
para gozar
no trocadilho.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
A Água
Escondia-se
no silêncio dela,
aquela gala rala,
numa noite turva...
E se perguntava:
Será que foi baba?
Ou será que foi chuva?
Clareanna V. Santana
Clareamente
Caixa Preta
Minha caixa preta registra
o fluxo interno suspeito.
Um descompasso cardíaco
ativa o choque no peito.
Enquanto a bomba se encaixa
apertada à caixa torácica
Vislumbro o bote certeiro
da outra bomba metálica.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
A Morte é nome próprio
Sabe quando a noite dura mais que eternamente?
Tem sido assim. Os dias não passam e as noites menos ainda.
É um tempo esquisito... infinito.
Há exatos seis meses que meu tempo passa devagar.
Enquanto há sol me faço e desfaço; Invento e reinvento. Sou verso e avesso.
Busco de tudo um pouco para preencher o meu eterno dia.
Mas a noite… ah! A noite é teste. É limbo.
Porque no dia tudo é poesia. À noite, palavras.
É na noite que as coisas sombrias saem pra passear.
O peito palpita, os pensamentos exclamam… e as palavras, amigos?! As palavras saem das coisas, ganham vida e se transformam em todas as dúvidas. Elas se reúnem com os medos e nos atropelam.
Então você não dorme e o tempo paralisa.
Você se lembra daquilo que mais te inquieta: a morte.
Tenho reflito muito sobre a morte antes dormir.
Penso que é preciso saber mais da morte. A morte e o sono andam juntos.
Vivemos e convivemos com a morte diariamente. Seja na rua ou na tv. E apesar disso ninguém trata a morte como algo próximo.
A morte é sempre do outro, por mais próxima que esteja.
Andam relativizando a morte. Deram-lhe tantas faces que é difícil até reconhecê-la.
Ela é vingativa, mensageira… ora um caminho, ora é matemática... biologia, mas nunca é nossa.
A morte não é própria. Falam da morte como coisa do outro.
E se não é minha, a morte não está próxima. Ela é uma mera possibilidade.
A morte do outro não nos afeta. O outro é sempre o outro.
De mim, resta apenas viver. O risco é uma forma de vida.
Adapte-se! E a morte? Ah! a morte é estatística.
Clareanna V. Santana
Clareamente
Hipócrita
Se negar
no que é profundo
duvidar do que vem de dentro
sem pensar a dor do mundo
sempre a apontar o dedo
atirar a primeira pedra
e guardar o seu segredo.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
Poesia Dilatada
No meu lado esquerdo,
há um problema profundo
que me rouba o mundo
e me tira o sossego.
Se eu conto o segredo
ninguém acredita
como pausa e palpita
aqui dentro do peito.
Me aperta de um jeito
que me falta o ar,
e se falo a respeito
me faz marejar.
É uma bola de carne
que cresce constante,
não para um instante
até me matar.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
Onicofagia
Há uma sede insaciável
locada entre os dedos
Que se mantém ativa
na malha fina da epiderme.
Essa sede se esbarra
entre dentes.
Rói, esfrega e sangra.
Aparentemente sem trama,
causa ou circunstância…
Ela se enraíza na base da unha
e finda na ponta da cama.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
Questão
Se me descrevo
inconsequente,
não há poema
que sustente
minha questão
mais recorrente:
Há quanto tempo,
impaciente,
tive os pés frios
e a buceta quente?
Clareanna V. Santana
@Clareamente
Marca Passos
E assim ela passa
enquanto caminha pelas ruas,
passando pelos homens,
em transe.
Sente no senso,
enquanto ele bate
noutro remate.
E assim ela passa,
me olha,
transborda hormônios.
Noutra, enquanto passa
nem vê...
Não enxerga tudo que vê.
Enquanto num ele bate,
noutro aponta.
E vive passando,
olhando… esperando...
Enquanto num ele bate,
noutro falha.
Falha, falha!
Falta-lhe à boca
a palavra, o gesto.
E assim ela passa
sentindo o caos,
os murmúrios e
os malquereres.
Enquanto num ele bate,
noutro ele para
e lhe falta fôlego,
e lhe falta calma.
Clareanna V. Santana
@Clareamente
Quando Poesia é Diário
Ao abrir os olhos
observa o sol que repousa sobre ela.
Pensa em dar o primeiro passo
que rompe a linha da cama
pra divagar em seu mundo
que inicia na sala
e termina na janela.
Clareanna V. Santana
@clareamente