Cláudio Terças, nascido em Cruzeiro do Sul - AC e residente em São Luís - MA. Trabalha como designer gráfico. Escreve poemas, contos e textos publicitários.
enquanto o mar jogava espuma na areia úmida os pés pisavam a pura luz solar refletida nela
que tal um samba um poema bamba onde a gente anda como quem canta como quem dança como quem queira
olha lá o mar é puraluz nos olhos de quem vê e de quem não vê.
é purosol batendo na pele de quem crê e de quem não crê.
é purosom ecoando e sendo levado pelo vento.
é o mar.
pelo menos é o mar de hoje o de ontem se foi o de amanhã não se sabe
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a poesia pede o poema
ontem a poesia bateu na porta e disse: ôrra... vim pra arrebentar, e assim fez...
a poesia é um mundo novo, um oásis no deserto de idiotices.
foi ela quem chegou, bateu a porta e disse: ôrra meu, vim pra arrebentar, e assim fez...
a poesia é a imaginação por trás dos fatos, “ver com olhar selvagem”, ferocidade infantil.
a poesia é o banho matinal no quintal depois de queimar ao sol e ao sal.
a crença naquilo que não vemos mas sabemos que existe aqui e ali.
é a qualidade da palavra, não a palavra em si, mas a busca da exata expressão.
um arrebentar de correntes e grades, um vôo sobre o oceano sem terra à vista.
um risco no papel em branco sem medo de errar a linha. certezincerta.
não é a forma, nem o estilo nem a tendência. a poesia é o vazio.
não é o vaso, mas o oco do vaso. o espaço onde cabe tudo e nunca enche.
sempre chega e diz que vai arrebentar... e assim faz, por ela mesma, com toda a sua liberdade.
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quando o mundo era menos idiota (canção sarcástica)
quando o mundo era menos idiota, andávamos nós pelas ruas nuas sem esperar por sustos, surpresas. dobrávamos as quinas esquinas ouvindo palmas ao som do violão, de casa em casa de festa em festa. Tão bom & saudável o beijo na boca, pegar carona sentindo no rosto o vento, escutando os sorrisos soltos, altos, debatendo um poema feito na hora. eu era menos idiota então, hoje eu sei.
pegava um ônibus velho & veloz com um livro lido debaixo do braço e pela janela de vidro, aberta, os pensamentos soltos voavam olhando passar a paisagem rápida, com a namorada colada ao lado dizendo sim eu te amo sim sim & um selinho fechava o acordo. era tudo menos idiota então, hoje eu sei.
ela segurava faceira a minha mão fina & sorrindo brilhante, feliz cantarolava uma canção qualquer tanto faz. não apontávamos nossos defeitos nem julgávamos nossas ações, o brilho do outro era o que importava. um abraço forte quente & sincero, um beijo amado bem dado & molhado. doces olhos se vendo & se aceitando. nós éramos bem menos idiotas então, hoje eu sei.
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vida que sou vida que és
como mortos em um jardim, olhamos o céu & só temos o véu da noite desse século.
colocamos as máscaras, higienizamos as mãos & marcamos a distância segura que nos separa uns dos outros.
examino teu corpo estendido, vida. coloco as luvas & os EPIs certos & de nada adianta tantas minúcias, pois assim mesmo me contaminas:
tão rica de vida que és tão rica de morte que estás tão rica de tudo que sempre fostes
como não te amar mesmo assim? a avidez de estar vivo, de ver em que tudo isso vai dar.
te estendo a mão, vida, & tu não me negas teu abraço, teu aconchego que atravessa meu ser, teu beijo mortal que me tira do corpo.
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canção para todos (na contra luz)
eu canto pelas cores todas que existem em nós canto pela liberdade para que a vida floresça livre e selvagem como deve ser
a alegria de viver poderia ser o principal ingrediente da vida, mas carregamos ódio & amor carregamos pedra & flor & no beijo, a implícita traição
olha só nosso planeta! ele é bem melhor do que nós: ele é muito mais do que eu, do que você & do que todos juntos. abra bem os olhos mas abra antes o seu coração.
esse planeta é tudo que temos. esse planeta em que vivemos, nos movemos & temos o nosso ser
ele se regenera rápido, & a bem da verdade nem precisa de nós, dessas pessoas na rua com suas máscaras, com suas caras más com suas ideologias macabras
- hoje vi o sol ao pôr-do-sol. na contraluz laranja caminhantes tristes, não se olham nos olhos não se abraçam, não se dão as mãos -
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na rota
daqui de minha janela a paisagem é o espaço sideral
sigo a rota sugerida pelos astros aguardo a queda dos cometas
serpentárius e cygnus desmontam a via láctea
dilato meus olhos na matéria escura sinto no paladar o rançoso & velho sabor cósmico da morte
- esse corpo é sol -
- eu, que te dei a terra que te dei a água te dei o ar & o fogo posso agora me retirar -