Desenha-mo-nos lentamente percorrendo flancos lambendo o desejo que corre pela pele.
Desejo-te! Arrepio-te a vontade de me teres agora toda.
Deseja-me! Arrepias-me vontade de te ter agora todo.
Bebo-te! Bebe-me!
Cresce a ânsia de te desenhar de me desenhares com lápis de cera de lua. As bocas são o palco onde as línguas vão dançando ao nosso sabor sem critério...
Esboçam o abrir das minhas pernas o afastar das tuas e as línguas percorrem-nos bailam em nós ávidas!
Cai amor pelo chão enquanto nos tocamos. Néctar! Pingam gestos estalactites na gruta onde nos escondemos. É de pó de cumplicidade esta delícia que bebemos celebrando as festas das danças dos corpos desenhados pelas nossas línguas.
À flor da pele da minha semeias arrepios. À entrada da pele da tua deponho este frio moldado soprado a quente.
Amaciamos o silêncio num jogo de luzes de olhares.
Recolhe-te em mim. Vem passear-te sulca o trilho percorre-me deixa que eu use e abuse que de todo me lambuze te levante cada pedaço de pele pousando neles meus olhos nocturnos te percorra os silêncios com os meus gemidos me derrame me desnude mas no instante em que nos despirmos vamos vestir-nos
dispo-me para me vestir de ti. leva-me num simulacro de rapto. leva-me que volto a ter asas que te acompanho num voo planado.
sentes a vontade de arrepiar cada um dos poros do corpo?
deitada na noite soletro os teus gestos. finge que dormes finge para que invente o tempo capaz de parar. quando abrires os olhos serei desejo rubro.
Agora vem para te degustar o corpo e reter na boca o sabor dúctil do poema.
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Sonho
Falo-te dum sonho, Daquele que tantas vezes tenho. Dispo a ansiedade, Desapertando, Botão a botão, Desejos insaciáveis, Até ficar despida, um instante...
Aliso o leito, Aquele mar por ti amado. Com ele me cubro, Apagando a luz da realidade, Deixando apenas acesa, A lua da imaginação...
Agora, fecho os olhos. Não há tempo, distância, matéria... De mim só existe a alma Coberta por um mar de mil cores Que não te explico, Que conheces, Bem melhor do que eu.
Assim fico, Escrevendo esta quase imitação de carta Tão sem tempo! Tenho frio! Tardas!
Eis senão quando, Quase no fim do horizonte, Onde o teu mar abraça a minha lua, Vejo uma ave voando, E que, num bailado único, Raiado de verde e de azul, De mim se aproxima, À minha alma se dirige.
Quase não me mexo... (e tão ansiosa me sinto!), Para que de mim se não desvie O voo daquela ave. Levanto a ponta do mar, Preparo um espaço, Uma praia, Neste leito onde estou E peço a Deus Que o bater do meu coração A não afugente...
Percebo que és tu! Ainda assim, Fico-me neste aparente sossego... Sobrevoas-me Sem um bater de asas Acabando por pousar, No areal imenso que para ti preparei. Que mais dizer? Calar este meu desejo? Afinal havia tempo! E é desse tempo que te falo.
Desvendo agora o meu segredo: Do meu corpo me distanciei, Para que na minha alma pousasses. Agora estás em mim! Sobe pelo meu corpo E deixa que no teu, O meu se derrame... Fiquemos assim, Tendo como limite O espelho do nosso encontro: Um mar, uma lua, uma brisa...
Falei-te dum sonho. Foi meu, Talvez teu, Mas agora é nosso! Completou-se o triângulo: Um vértice - Tu! Outro - o Mar! O último - Eu!
CM 1998
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Esvoaços
Uma história como a vossa não se repete. Foi escrita no céu com a tinta de todos os beijos que foram semeando no campo do vosso encontro. É a esse mesmo céu que a vou buscar, sempre que desejo ouvir-vos voar. Se te vir rolar uma lágrima, não ta vou limpar, não a farei parar. Vou ver como ela se vai aninhar nesse vosso começo.Tudo ficará quieto e eu vou poder olhar-vos, sem que mais nada seja preciso dizer, apenas imaginando que, talvez um dia, seja eu capaz, de esvoaçar assim, no horizonte dum abraço. Um beijo, Mãe.
Não quero que disfarces, quando corres a vestir à pressa um sorriso, porque te vejo chorar.
Não faças isso, peço-te! Não vês? Esse teu choro é o colar que te envolve que te torna ainda mais bonita. É o que ele te diz do olhar que guardas.
Curioso! Nem reparas que não estás aqui, pois não? Que te deixas levar, derrogando a falta que sentes ao tornares-te no gesto, alagando-te por esse campo de lembrança com o movimento sereno em constante crescendo nas palavras só vossas!
Adoro ouvir-te voar! Quão doce ver como lhe vestes a voz, deixando que ele te vá despindo, passeando pelos segredos bonitos que te vai sussurrando. Abres as janelas do lar do vosso começo com tal enlevo, a casa onde guardas as mais ternas expressões, os vossos olhares, que bordas com beijos todos os que ele te vai depondo, à entrada do teu olhar!
Por isso te peço: Não escondas o rosto mesmo que seja com pétalas de lágrima. Deixa que se espalhe a saudade, aceita dela esse enlaço, vive-o e chove! Chove muito, muito, para que eu apreenda de ti esse talhe de sedução e me torne capaz de voar assim, sentindo que me olham, comovidos, tal como estou eu agora a olhar-te saboreando o prazer imenso de esvoaçar no céu desse tão vosso terno e doce abraço!
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A Sophia
-E se te contar uma história? Ela aninhou-se-lhe no peito. -Vá, fecha os olhos. E a menina fechou. -Era uma vez um mar... -Eu queria ir ver o mar. Levas-me? -Se fechares os olhos.. -Já estão fechados.Mas é teu amigo, o mar? -Queres ou não ouvir a história? -Claro que quero. -Então fecha mesmo os olhos. -E ele fala, o mar? Tu sabes que gosto quando imitas as vozes -Ai! Então, não fechaste os olhos -Agora já estão fechados. Conta-me, vá! -Ouves o meu coração a bater? -Ouço. -E sentes como o meu peito te embala? -Sinto. -Então nesta história não vou precisar de imitar a voz. -Então começa de novo.
Ele sentiu como a menina se encostou ao seu peito. Não precisou falar mais nada. Adormeceu e ficaram os dois encostados, a ouvir, tão juntos, uma história do mar.
Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns
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